A China por dentro

Enviado por Arnaldo Carrilho

Meu caro Luis,

há outras razões também, que refogem à mera perquirição econômica. O confuncio-disciplinarismo, em torno do Bem Comum (o Partido Comunista lá se chama do “Bem Comum”), que adotou regras draconianas sem maiores reações. O incremento de renda em população pobre, mediante implementos de variada versatilidade social. A imitação técnico-tecnológica, adaptada às condições locais, um misto de modelo japonês doa anos-50/inícios dos 60 e mensagem maoísta da “digestão dos feitos do capitalismo com excrementação do que não ocorre guardar”.

Quando Teng Hsiao-bing (ou Deng Xiaoping) lançou a teoria do “socialismo de características chinesas” gastaram-se rios de tinta em publicações, em seminários internacionais e deslocamentos, para explicar porque “não interessava a cor do gato” ou “o enriquecimento era uma glória”. A China teve a sabedoria de transformar Hong Kong na terceira maior e mais eficiente máquina de serviços do mundo, só sobrepujada por Londres e Nova York. Foi a China que criou a moderna Hong Kong (e Macau), e, absolutamente não, a Coroa britãnica. Xangai e outras, como Cantão, Tchunking e outras seguiram-lhe os passos.

Servi lá em 1991-96, publiquei inúmeros textos a respeito do sucesso chinês, conferenciei em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Aracaju, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre; tomei parte em encontros e seminários por toda a parte (Europa e Ásia); segui a gestão de Tchu Iong-tchi (Zhu Rongjyi). Sabe o que comentavam no Brasil? Que eu era sonhador, maluco ou comunista, tudo no mau sentido. Quem me entendia era o Roberto Campos, que conhecera a Hong Kong de 1964, em ritmo de exploração e atraso de boa Colônia inglesa. Ao aceitarmos a “parceria estratégica”, houve gente que deu para trás até no próprio Governo que acedera à proposta. Em minhas memórias, vou contar como.

Quanto aos empresários, faziam pouco da China, que chinês não era confiável (só eles eram…), enquanto os gringos não a largavam, mesmo se não entrando muito a valer na mente sínica. Sabiam que esta estava aberta e seus investimentos multiplicavam-se. As cifras que você citou dão a medida do que se fez, desde 1978-79: crescimento superior ao dos EUA, a partir de 1876; da Alemanha unificada de Bismarck; do Japão do pós-Segunda Guerra.

Aí fiquei quieto e fui dar com os costados em Bangkok, onde assisti de camarote à má assimilação do modelo e vivi a quebradeira de 1997, que alcançou o Brasil de FHC e os bobocas que o assessoravam (cf. Gustavo Borges) a desenrolarem um besteirol daqueles. Bacanas éramos nós, com o Plano Real, que, ninguém o admitia, varrera para debaixo do tapete nossas sujeiras de sempre. Ao contrário do Brasil, que não ajuda ninguém na América do Sul e ainda leva ferro do Governo índio da Bolívia, Pequim entrou com US$ 1 bilhão na Tailândia, US$ 300 milhões na Indonésia e mais US$ 200 milhões aqui e ali, inclusive nas empresas sul-coreanas que operavam na China.

O defeito maior da China é a sua dependência do que não tem mais para o gasto: petróleo, ferrosos e não-ferrosos; alimentos (carnes, soja, açúcar), por limitações de terras aráveis e de natureza climática. Mantém frotas pesqueiras, inclusive de navios-mães por toda parte, como ao largo das costas africanas. Assim mesmo, seu potenciamento é constante e não pode sofrer solução de continuidade. Tem de crescer no mínimo 5.2%/ano, por isso indo além disso.

Quanto aos protestos regionais, o Partido do Bem Comum ainda controla as massas, porque erigiu os Cinco Princípios como base. Outro defeito de que ninguém fala no Pindorama é a inconclusão institucional, de vez que não se pode manter o sistema centralizado ad aeternam. Federação ou Confederação, Autonomias ou Regalias Especiais, de que as ZEEs são inspiração?

A China veio para valer, ninguém mais duvida, e saberá como sobreviver, se a Hiperpotência não lhe cortar as fontes energéticas, como a do Iran e Sudão (há 2 mil soldados chineses lá, para proteger a vazão e o transporte de petróleo contratado), Nigéria, Guiné Equatorial e Cabinda. Se atacarem o Iran, o estrago se esparrama por toda a Ásia Central e chegará às fronteiras desta com a Rússia e a China, que já mantêm pacto de defesa e cooperação militar. Democracia? Seus líderes asseveram que, lá por 2040 e poucos, ela pousará no regaço da Boa Terra e do País do Meio…O século XXI vai dizê-lo.

Grande abraço do

Arnaldo C.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora