A universidade pública pronta para o desmonte, por Daniel Gorte-Dalmoro

A universidade pública pronta para o desmonte

por Daniel Gorte-Dalmoro

Durante a década de 1990, encabeçado por FHC e sua trupe (estatal e para-estatal), todo serviço público (que não o serviço da dívida) foi duramente atacado e o mercado louvado como capaz de melhorar qualquer coisa à enésima potência, sem maiores esforços dos ex-cidadãos, agora consumidores.

Na educação não foi diferente, e o estado de ruína (atual) da educação básica brasileira é uma das conseqüências dessa investida: a decadente escola pública foi sucateada, e a seleção via mercado do melhor ensino, sem o contraponto de uma (real) alternativa estatal, conseguiu rebaixar a educação ao grau de indigência (claro, a interdição do debate sobre educação, atropelado pela prioridade às questões econômicas, como faz o “Todos pela educação”, deu uma boa ajuda).

Diferentemente da educação básica, a universidade pública, apesar de cambaleante, conseguiu sobreviver à rosa neoliberal (só não se esqueça da rosa, da rosa) – Paulo Renato (de nefasta memória) não conseguiu estabelecer seu “financiamento por aluno e não por instituição”, nem desidratar por completo as universidades federais via perdas salariais. Debito esse poder de resistência a dois fatores principais: a função da universidade pública na estrutura social brasileira e o capital simbólico de seus professores-pesquisadores.

Domingo, dia 24 de julho, o porta-voz oficial do governo golpista, o Globo, oficializou abertamente o período de caça à universidade pública, com seu editorial “Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito”. Ainda mais que na época fernandina, o ataque desta feita corre sério risco de alcançar seu intento num médio prazo, por obra do contexto em que vivemos –  e a universidade pública tem sua parcela de responsabilidade.

Universidade pública e falta de auto-reflexão

 

Uma das principais dificuldades da universidade pública brasileira é refletir sobre si própria em termos críticos – e aqui me refiro à parte inteligente da academia, gostaria eu que fosse a maioria, mas tenho sérias dúvidas. Uma reflexão dessa natureza implicaria, dentre outras coisas, em questionar o lugar que a universidade pública ocupa atualmente no contexto brasileiro, o que dela se espera – realista e irrealisticamente -, e que discurso ela faz acerca de si própria.

Ano passado, numa aula na PUC-SP, a professora Helena Katz chamou a atenção para o fato de que as universidades federais estavam há três meses em greve e pouco, quase nada, era noticiado; que poucas pessoas fora do círculo diretamente afetado se incomodavam de fato com essa greve – em clara dissonância com a importância que a universidade pública tem para o país. Esse exemplo joga algumas luzes na relação que a universidade pública consegue (ou não) estabelecer com a sociedade, dando base para a acusação de elitista acaba tendo apelo junto a parte da população: que utilidade a população enxerga numa universidade pública, para além da formação profissional de indivíduos e do seu hospital universitário?

Uma pergunta que a universidade pública, se se faz (muito raramente), tem preguiça (ou medo) de buscar respostas e, mais importantes, soluções. E enquanto não se põe a sério esse questionamento, reforça-se a idéia de uma grande escola de nível superior que serve para meia dúzia de favorecidos conseguirem os melhores salários depois de formado.

Função social e popularização

Entretanto, o grande calcanhar de Aquiles na atual conjuntura é a função social da universidade pública, posta (positivamente) em xeque com o ministério Haddad (2005-2012), que promoveu tanto a melhoria dos salários dos docentes (e as estaduais, em especial as paulistas, tiveram que reverter seu processo de sucateamento, para fazer frente à administração petista) quanto sua popularização (discreta, mas visível), via ampliação e interiorização da rede de universidades federais. Um primeiro resultado foi a perda do poder de distinção que um diploma de uma universidade pública naturalmente tinha até o início do século – ou melhor, a distinção segue, o problema é que há mais distintos disputando as vagas.

Parte da perda dessa distinção foi compensada com o aumento de bolsistas enviados para estudar no exterior – oportunidade raras vezes dadas aos mais pobres, uma vez que estes precisam trabalhar a sério para ajudar no sustento da família; e, mesmo assim, o diploma, tendo feito parte na gringa ou não, é o mesmo – e com a manutenção de um grande gargalo no nível de mestrado e doutorado – distinções necessárias quando há muitos bacharéis.

O problema é que a universidade pública brasileira tem como função (implícita mas evidente) formar quadros para o Estado: ministérios, judiciário, diplomacia, pesquisadores diversos, etc. Durante os anos FHC, algumas instituições privadas buscaram entrar nesse nicho e tentaram se especializar na formação de quadros altamente qualificados; sem sucesso, foram empurrados para a vala comum da educação como mercadoria e lucro – até mesmo a PUC se viu obrigada a aderir à onda. A universidade pública resistia.

Raymundo Faoro apontava, em Os Donos do Poder, que certo espectro do funcionarismo público tupiniquim é uma verdadeira casta, em que uma ocupação na burocracia estatal é transmitida de pai para [email protected] – a filha do juiz vira desembargadora com a ajuda do prestígio do papai, por exemplo. Pode ser que tal transmissão da função social não se dê no mesmo cargo, mas fica nessa esfera dos 1% ou 2% mais ricos da nação, pagos com dinheiro público, neste país nota 52,1 no índice Gini de desigualdade (recentemente fomos superados pelo Chile da educação superior privada que neoliberais tanto idolatram).

Ou seja, a universidade pública brasileira atende, sim, à elite do país. Ela também atende, entretanto, a muitas pessoas que não compõem essa classe, permitindo, inclusive, que pessoas de fora da casta dos donos do poder ambicionem e alcancem cargos de relevo na burocracia do Estado e no mercado. Acabar com a gratuidade é criar um empecilho a mais na deselitização da universidade pública – acreditar no contrário é duvidar da lógica mais elementar, e quem acredita no editorial do Globo já pode discutir se um quadrado precisa mesmo ter quatro lados.

Formas legítimas de exclusão

A seleção de ingresso nas universidade públicas é viciada, exclui os mais pobres, favorece os mais ricos. A tal meritocracia é uma falácia em uma sociedade de fortes diferenças sócio-econômicas – Bourdieu faz essa acusação contra a França pré-rosa-neoliberal, imagina no Brasil pós-Real.

O vício da seleção se dá não apenas pela questão da educação básica privada cara ser de melhor qualidade que a educação básica pública (a educação privada barata e média, com raras exceções, é do mesmo nível da escola pública, mas parece melhor por causa da publicidade), como pelo cabedal cultural que os vestibulandos trazem de casa: alguém que desde os doze anos visita o Louvre e o MoMA tem outra leitura de mundo frente alguém que uma vez foi na Pinacoteca, frente a quem só conhece música clássica de ouvir na internet, frente a quem só assiste a Faustão e afins. Isso é determinante? Não (eu mesmo só visitei um museu pela primeira vez com vinte anos e fui aluno da USP e da Unicamp), mas a influência não é pequena.

Contudo, uma vez superada essa forma legítima de exclusão primeira que é o vestibular, a dificuldade a quem não é da elite é aumentada e pode ser percebida, por exemplo, nas concessões de bolsas de estudo, de graduação ou de pós, que acabam, via de regra, na mão dos que não precisam dividir seu tempo entre ganhar a vida para pagar as contas e estudar para tirar boas notas.

Concorrência dos neófitos

Apesar de sempre entrarem na disputa em vantagem, os donos do poder têm se mostrado incomodado com a concorrência de neófitos – muitos deles oriundos das periferias, ainda por cima negros -, e desacostumados com concorrência, temendo ter sua auto-estima destruída ao ser preterido por um Zé Ninguém, têm percebido que vale mais a pena mandar o filho estudar direto no exterior: os contatos feitos nos seus intercâmbios quando estudantes (ou já como professores-pesquisadores) ajudam a “alocar” sua prole em algum bom lugar na Europa ou nos EUA. Amigos que trabalham no judiciário ou na área administrativa diretamente com a nata uspiana, foram quem primeiro comentaram dessa tendência.

De início não dei muita atenção: me soou apenas esnobismo de quem pode manter o filho na University of British Columbia, em Paris ou em Berlim, apesar de ganhar em real, graças a sua boa colocação dentro da burocracia estatal brasileira. Me dou conta agora: com os filhos dos donos do poder fazendo sua formação no exterior, a função social de reprodução de classe – de casta – da universidade pública começa a ficar seriamente ameaçada – função, repito, que garantiu sua sobrevivência ao desmonte tucano-neoliberal.

Burocratas pouco interessados em educação

Boa parte dos professores-pesquisadores da universidade pública são burocratas que pouco se importam com educação, desde que seu salário seja bom e caia no dia, e tenham alguma estrutura de pesquisa. Nicolelis há tempos alerta para o fato de professor-pesquisador no Brasil ser antes de mais nada um burocrata – não por acaso o ápice da carreira universitária no país parece ser ocupar um cargo burocrático de alto-escalão com grande relevância política, reitoria ou direção da Fapesp, por exemplo.

Cristóvão Buarque (de nefasto presente) exemplifica esse absurdo da pesquisa subordinada à burocracia: se um artista egresso da universidade se tornar nacional e internacionalmente reconhecido e alguém estudar sua obra em um mestrado e doutorado, é este – e não o artista – o detentor do saber, simplesmente porque tem mais títulos burocráticos que o primeiro.

Muito ego, pouca vocação e pouco interesse com a educação (mesmo entre aqueles que teriam educação como seu objeto de pesquisa), crescimento da turba em cargos importantes na burocracia, muita sede de poder. Num contexto desses, a universidade é um meio, não um fim. Meio para entrar na casta dos donos do poder e de ascender à classe política, para lidar diretamente com o dinheiro e seus caminhos ocultos – Herman Voorwald, ex-reitor da Unesp e ex-secretário de educação de Alckmin, pouco afeito à democracia e à publicidade de seus atos (em especiais quanto à merenda) que o diga.

Um dos resultados dessa utilização para fins outros da universidade pública está na crise das universidades estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro. Ou alguém acredita que tal situação seja fruto de uma inefável crise estrutural e não de escolhas deliberadas de seus reitores, em sintonia com os governadores que os puseram no cargo, todos sempre alinhados aos interesses do mercado? Se fosse estrutural, porque as universidades federais, em situação muito mais precária quinze anos atrás, já não quebraram faz tempo? Não só isso: conseguiram certa expansão com ganho relativo de qualidade? Será pura coincidência que as estaduais com os maiores problemas financeiros sejam exatamente as dos estados que há tempos estão sob hegemonia de políticos privatistas, PSDB em São Paulo, há mais de um quarto de século, PMDB no Rio, há quase uma década?

É tanta coincidência quanto foi a passagem do Cometa Halley em 1986, e será em 2061. Detalhe: via de regra, tais reitores foram escolhidos por seus pares (exceção feita a Rodas, da USP, escolhido por Serra, de nefasto passado, presente e, ao que tudo indica, futuro), o que reforça a idéia da ciência (e os cientistas) estar a serviço do poder – e o conseqüente caráter conservador da academia.

Problemas essenciais e omissão de debate

O professor Fausto Castilho, um dos fundadores da Unicamp, comentava que universidade brasileira possuía um erro fundamental: ser definida como local de ensino e não de estudo. Certa feita, durante uma atividade de greve, o historiador Cláudio Batalha levou a uma mesa redonda a distinção entre universidade de ensino e universidade de pesquisa, amparado em uma série de dados, como relação professor-alunos, número de pós-graduandos e de graduandos, forma de abertura de um curso de graduação, etc: ainda que ambas desenvolvam pesquisa e ensino, há diferenças significativas de ênfase, e sem a devida distinção cobra-se rendimento de universidades de pesquisa em estruturas de universidades de ensino.

Contudo, assumir essa distinção poderia abrir a porta para o questionamento de outras distinções dentro dessa elite, até mesmo para ressentimentos intraclasse que poderiam levar a sua desunião: melhor fingir que são todos iguais, ao menos no prestígio e distinção, mesmo que isso custe a qualidade de ensino e de pesquisa em todas as universidades. Um dos custos da omissão desse debate vai além da distinção, poderia ser contabilizado em termos financeiros: alunos que entram em uma universidade como a Unicamp sem qualquer interesse em pesquisa, e acabam subutilizando a estrutura da universidade. Pior: não raro tais alunos saem frustrados por não saírem devidamente preparados para o mercado.

E deveria a universidade pública preparar para o mercado? Eis um debate posto com certa freqüência, mas sempre em termos falsos, uma vez que é discutido a partir de posições ideológicas desvinculadas de uma análise do contexto histórico e social em que a universidade está inserida. Mais: sem uma reflexão sobre qual o papel da universidade pública brasileira, em especial as voltadas à pesquisa. Acaba por prevalecer a posição de que não, universidade pública não serve para atender demandas do mercado – o que deixa claro, mesmo que nunca dito, sua função de formação de quadros do Estado -, ainda que acabe sempre cedendo em parte.

Nada mais óbvio: vivemos em uma sociedade capitalista (goste ou não, isso é indiferente), em que o mercado é o grande responsável pelas trocas interpessoais, inclusive de conhecimento – eu, ao menos, não acredito que o livro de uma grande editora comprada numa livraria (na Amazon?) esteja alheia à lógica da mercadoria e do lucro.

Essa interdição de um debate sério sobre a relação da universidade pública com o mercado é que acaba dando a deixa para o ataque de grupos pró-mercado de defender não o convívio (tenso e difícil, não sejamos ingênuos) entre universidade e mercado, mas a subjugação daquela a este – expressa em propostas como o fim da gratuidade ou parcerias com empresas que são antes a determinação de linhas de pesquisa feitas com dinheiro público.

Exclusivismo na produção do saber

Há um agravante no caso brasileiro, fruto da posição que a universidade pública se arrola no contexto social, de única legitimadora do conhecimento. A universidade brasileira é uma mistura de iluminismo démodé com síndrome de vira-latas: ela resiste a aceitar que fora de seus muros seja possível produção de saber e de conhecimento – uma população mestiça e negra, já diziam os doutos do século XIX, pouco pode contribuir para o progresso, não é?

Ou melhor: ela até aceita, mas só depois de passar pelo seu crivo – que pouco ou nada acrescenta, e tem como única função a legitimação desse saber. Ela é reticente em estabelecer um diálogo de igual para igual com quem está fora, mesmo que seu interlocutor seja um doutor formado por ela própria. Novamente um exemplo das artes: é cada vez mais comum artistas utilizarem sua formação acadêmica para se apresentarem como artistas (e eu tenho vontade de lembrar Manzoni a esses artistas).

Por um lado, essa postura garante um enorme poder social: ao se afirmar não apenas centro, mas única fonte de produção de conhecimento (legítimo), o ataque à universidade pública pode ser tratado como equivalente a um ataque à ciência e ao conhecimento deste Tristes Trópicos. Seu quase monopólio de pesquisa no país encoraja as empresas a se desobrigarem de investirem diretamente em pesquisa e tecnologia – investimento que não raro é acusado por alguns grupos como seqüestro de cérebros da universidade -, e se tornarem compradores de patentes economicamente viáveis desenvolvidas pelos laboratórios acadêmicos (nas ciências humanas, a universidade pública assume um papel perverso que não cabe discorrer aqui).

Conseqüência disso para o país: ao mesmo tempo que é pólo de produção de conhecimento, ou seja, indutor de progresso científico e tecnológico, a universidade pública se torna uma grande força conservadora – quase reacionária. Acrescente que tal arrogância faz com que a universidade se torne ainda mais autista da realidade brasileira, se afaste das questões que afligem a maioria da população, e não desperte nela maior interesse: esta não só não se vê como desinteressante para a academia – salvo como fonte de exotismo -, como não vê interesse naquilo que a academia produz e oferece, para além do seu hospital.

Fim da gratuidade e ainda público

Com o diálogo com a comunidade externa praticamente inexistente, e com um diálogo interno precário – fruto do seu furto a se questionar a sério -, a universidade pública está à mercê de ataques dos setores mais reacionários do país – tão bem representados nesse golpe de Estado judiciário-midiático encabeçado por Temer e PSDB. Desde que entrei na universidade, em 2001, lembro de poucas vezes haver um auto-questionamento sobre sua função e sua relação com o país – em todas elas, falas isoladas de alguns professores outsiders e pouco levados em consideração.

Entretanto, há um profundo incômodo da sociedade brasileira com a universidade pública sustentada com seus impostos, e se a academia não encabeça esse debate, outros o farão: quem começar o debate leva vantagem na imposição dos termos em que ele se dará. As outras forças com poder para colocar tal debate são, além da própria universidade, o governo e a grande imprensa. Haddad, ainda que sutilmente, colocou a função da universidade em debate – foi aceito passivamente pela academia, até por não tocar diretamente em seus pontos mais sensíveis, como de reprodução de casta. Agora, diante de um ministério de neandertais, o Globo achou por bem assumir o debate, de forma a pô-lo em termos passíveis de serem aceitos.

O editorial não propõe o fim ou a privatização da universidade pública, e sim o “ensino superior público pago”. Uma privatização branca, sem dúvida, mas algo que vai na linha do que a universidade pública brasileira é hoje: antes de acusarem de quererem impôr a lógica shopping center às universidades, a academia brasileira nunca fez um mea culpa de que os shopping centers na verdade é que seguem a lógica da universidade tupiniquim: seus campi são áreas isoladas (originalmente), cercadas, de difícil acesso que não por carro (a área de estacionamento não demonstra seu real tamanho pelo fato dos campi geralmente serem muito grandes), guardadas por segurança privada, altamente normatizadas, hierarquizadas, segregadas. Poucas universidades têm biblioteca pública aberta à comunidade, ao público: há dez anos UFSCar e UERJ eram as duas exceções, e parecem seguir sendo as únicas. A Unicamp chega ao extremo de bloquear a entrada em suas bibliotecas a quem não é aluno regularmente matriculado.

A UFABC bloqueia qualquer intruso logo na entrada do prédio. Fica difícil mobilizar a população na defesa de uma universidade que a repele e a trata como suspeita – e neste ponto não há qualquer culpa a ser atribuída ao Globo ou a Temer, a universidade pública cai por seus próprios deméritos. As pesquisas são majoritariamente para consumo interno e raros professores descem de seu pedestal para encararem as ruas – até porque têm pés de barros. Chauí até início do século, Safatle desde o retiro dessa, e mais recentemente Karnal são alguns dos raros exemplos de professores que saíram dar a cara a tapa – há, sim, aqueles que estabelecem diálogos menos midiáticos, diretamente com movimentos sociais e sindicatos, mas são poucos que tem capacidade para tal, por cacoete de formação: a maioria discursa, não desce para o debate e o diálogo franco.

Arrisco próximos capítulos: além da cobrança de mensalidade, a intensificação de parecerias em laboratórios de pesquisa com a iniciativa privada, como forma não apenas de captar recursos extras, como para aumentar o número de patentes e o lançamento de produtos no mercado. Boa parte dos professores-pesquisadores aceitarão esses termos, desde que não tenham seus rendimentos afetados. Para boa parte da academia, não há mais necessidade de manter a universidade pública tal como hoje, já que sua função de formar quadros para o Estado vem decaindo, e eles enviam seus filhos para estudar nos EUA ou na Europa: de lá, sem compromisso com agências brasileiras, sua prole pode fazer carreira acadêmica no exterior ou regressar para carreiras burocráticas mais promissoras no Brasil, que podem impôr suas vontades, perseguir adversários políticos e sambar em cima da constituição sem qualquer problema. Tais propostas são capazes de até mesmo gerar a impressão de maior proximidade entre universidade pública e sociedade – o que compensará, aos olhos desses, sua maior elitização e discriminação.

As propostas da grande imprensa – agora verbalizada pelo Globo, mas em outros tempos já vocalizadas por outros mafiosos midiáticos – são claramente reacionárias, mas encontram eco na sociedade – mesmo entre os egressos da universidade pública -, repito, graças à precariedade de sua reflexão e seu questionamento sobre si própria – não sei se por um narcisismo que não tolera críticas ou se por comodismo. Não por acaso, diante da celeuma causada pelo editorial, vem de fora da universidade uma das propostas mais sensatas (ainda que tardia): Jean Wyllys propõe “um tributo adicional para as faixas mais altas do Imposto de Renda (depois de mudar a tabela para que estas sejam pagas pelos ricos de verdade e não pela classe média) que alcance os cidadãos com alta renda que estudaram e se formaram numa universidade pública, e destinemos esse dinheiro a um fundo especial para abrir mais vagas e pagar bolsas de permanência para os estudantes mais pobres”. Sobre essa proposta, penso apenas que tal tributo adicional não precisa esperar pela (necessária) reforma do IR: precisa acontecer já, antes que acabe por afetar somente (novamente) a classe-média. Aos que não querem pagar o resto da vida pelo ensino que tiveram, têm toda a liberdade para optarem por universidade particulares – essas, sim, com cobrança de mensalidades.

O que significa debater a universidade pública

Por fim, passa ao largo a real significação do debate sobre a universidade pública – ainda mais no atual contexto de crises. Cobrança de mensalidade e formas de financiamento são questões epidérmicas – ouso dizer de menor importância, ainda que não devam ser desprezadas. Quando discutimos universidade pública estamos discutindo, antes de mais nada, projeto de nação. A história da universidade pública no Brasil é reflexo dos projetos de nação que motivaram sua criação e suas mudanças (inclusive ainda estamos presos, em grande medida, na visão fundante da USP).

Perdemos, durante o governo Lula e o ministério Haddad, uma oportunidade ímpar de discutirmos a sério projetos de nação e perspectivas de futuro a partir de um ponto fulcral, a universidade pública – suas funções, sua relação com o país, a produção de conhecimento. As reformas de Lula apontavam numa direção razoável e a universidade pública se acomodou, se furtando, uma vez mais, a refletir sobre si própria. Não discutimos no momento ideal, mas o editorial do Globo e o governo golpista (espero que interino), dão nova oportunidade de pôr a questão no centro do debate nacional. Mais que discutir sobre mensalidade e financiamento, é preciso que a universidade pública brasileira se abra à democracia – interna e externa -, exponha sua função social, descubra novas formas de se inserir na realidade que a rodeia, popularize e compartilhe o conhecimento dentro dela produzido – sem medo de ser contradita e contestada em seus doutos saberes por periféricos e analfabetos que, sim, possuem muito conhecimento, mesmo sem ter passado pelo ensino oficial.

Se insistir em repelir a população que a sustenta como bárbaros que vão destruí-la, a universidade pública não tarda a perder sua razão de ser, se transformando nisso que a desenham: uma escola de nível superior que abre os melhores cargos na burocracia do estado e do mercado.

Importante para este texto, falar sobre o autor: Daniel gorte-dalmoro é bacharel em filosofia e sociologia pela Unicamp, mestre em filosofia pela PUC-SP, licenciado em filosofia por uma universidade particular. Também foi aluno de graduação na USP e na UFABC. Entre 2007 e 2010 foi um grupo de crítica de costumes da Unicamp, o Trezenhum. Humor sem graça. Foi editor da revista eletrônica Casuística. artes antiartes heterodoxias. É editor do Boletim SPM Informa e do Informativo Vai e Vem, do Serviço Pastoral do Migrante.

Algumas referências citadas:
http://www.andifes.org.br/crise-forca-o-fim-do-injusto-ensino-superior-gratuito/
https://jornalggn.com.br/noticia/o-xadrez-dos-concurseiros-do-servidor-publico-a-autoridade
http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-e-a-comissao-da-ciencia-brasileira-estrategias-para-o-futuro.html
https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2172rank.html
http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2479685
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/as-cinco-mentiras-do-globo-sobre-a-universidade-publica

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13 comentários

  1. Ótimo Texto

    Nos meus tempos de USP, já percebia este comportamento.

    Mas ressalto que há muitos professores que tem consciência do verdadeiro papel da universidade pública e o que ela representa.

    A sociedade, no fundo, também sabe do valor de ter uma universidade pública e gratuíta, mesmo com toda desinformação produzida pela imprensa.

    Quanto ao PSDB e PMDB, é sempre o mesmo método, precarizar um serviço público para justificar sua privatização.

    Engraçado, sempre eles alegam a ineficiência do estado, mas nunca a sua própria incompetência!

    Imaginem alguém no seu trabalho alegar que determinado projeto não pode ser entregue porque a empresa não é capaz?

    Acham que pensam em vender a empresa ou demitir a pessoa?

  2. Pesquisa nas Universidades X Empresas

    Indelizmente o autor demonstra total desconhecimento da pesquisa científico tecnológica.
    De forma geral as empresas no Brasil não investem em pesquisa, seja por ser caro, seja por falta de visão seja até mesmo por puro boicote. Conheço colegas que foram trabalhar em multinacionais que atuavam no Brasil que quando mostraram interesse em inovar processos produtivos foram transferidos para as matrizes na Europa com a indicação clara de que não queriam inovação no Brasil.

    Sem uma estrutura econômica mais propícia à inovação vai ser difícil que os jovens bacharei, mestres e doutores bem formados pelas Universidades Federais realmente tenham um impacto na estrutura produtiva no Brasil.

    DIzer que há uma reação da Universidade quanto à suposta “fuga de cérebros” da Universidade para a industria é totalmente equivocado. Ou pura má fé mesmo.

  3. Passou despercebido, mas eu

    Passou despercebido, mas eu li: “Ministro Barroso critica universidade pública gratuita em seminário patrocinado pela Fundação Estudar criado pelo megainvestidor Jorge Paulo Lehman”. Deu no Cafezinho.

    Mais uma decepção para a coleção do nosso querido Nassif. Trata-se de um baba-ovo, carreirista, vaselina e last but not least, coxinha. Os argumentos dele são em “coxinhês” erudito tipo Rolando Lero. Confiram, vale a pena

    http://www.ocafezinho.com/2016/08/02/em-seminario-pago-pelo-homem-mais-rico-do-brasil-ministro-luis-barroso-defende-rede-globo/

    PS: O Cafezinho deu ênfase em que ele defendeu a Globo, eu vi que ele puxou o saco da iniciativa privada da área do ensino. E claro do homem mais rico do Brasil

  4. retrocesso

    As primeiras universidades publicas brasileiras ´´apareceram ´´ cinco seculos depois da descoberta do pais e mal estao completando o primeiro centeario já querem acabar com elas ? 

  5. é o meu caso

    sai das camadas mais pobres da população brasileira por ter passado em um vestibular para uma un publica. Hoje sou quimico, reconhecido internacionalmente pelo meu trabalho e ganho muito bem na iniciativa privada e, assim como eu, numa turma de 60 alunos, 6 vieram da escula publica. 10%? Se for privatizada, esse indice cai para 0%. Ah, mas a gente dá bolsa. Pobre quer educação, não esmola! Alem disso, alguem duvida para quem iria estas bolsas ?!?!?!

    • a proposito,

      o desmonte começou em 1969 com a famigerada “reforma” do ensino. Na década de 70 nos saímos as ruas contra o desmonte …  que continua até hoje.  Como tu bem dissestes, ela incomoda muito mas as elites não prescindem dela.

  6. Muita saúva e pouca saúde

    Se eu entendi bem (posso estar equivocado, porque o texto é muito dispersivo), o argumento central do Dalmoro é que a universidade pública brasileira precisa se dedicar urgentemente à reflexão sobre o seu papel, e essa reflexão deve ser orientada pelo primado da “abertura à sociedade”.

    Bom, não sei se isso é um truísmo que só faz chover sobre o molhado (como se toda reflexão — sobre si mesma incluída) não fosse a razão de ser da universidade, ou se, por outro lado, o que o autor defente é uma plataforma messiânica de uma abstrata “abertura à sociedade” que só funciona como argumento retórico, porque impalpável.

    Ao falar assim eu sei que corro o risco de ser visto sob o molde da caricatura dos “elitistas”, mas, como profissional da produção do conhecimento (simplesmente isso), sinto-me na obrigação (profissional inclusive) de demandar mais rigor nas formulações e menos retórica vazia, fundada sobre caricaturizações ligeiras, pontuais, putativas e inespecíficas, ou seja, fundamentalmente a-sociológicas.

    Não quero livrar a cara de ninguém nem fazer defesa prévia de algum status quo, mas me parece que esse texto — não muito mais além de querer fazer uma campanha enviezada em favor do Haddad (sem explicitar de forma articulada, para além do mero impressionismo, as razões que sustentariam a virtude das iniciativas dessa figura política) — parece que se basta em erguer o espantalho retórico (potencialmente demagógico) da “abertura à sociedade”, sem ser capaz de enunciar de forma criteriosa o que diabos seria isso.

    Seria essa “abertura” a transformação da universidade em uma enorme feira de “extensão universitária” para a prestação de serviços? Seria a instrumentalização do trabalho do conhecimento para a produção de “resultados práticos”, como foi a “diretiva política” da universidade  chinesa sob Mao Tse Tung? Seria a redução do trabalho do conhecimento às expectativas do mercado? ou seria ela às expectativas do politicamente correto?… uma espécie de neo-medievalização escolástica desse ofício?

    Nada parece muito claro além da evocação apaixonada de caricaturas desarticuladas, com algumas pitadas de gauchisme retórico para conquistar a cumplicidade dos (gauchistes)  incautos.

    Apenas com a paixão pela retórica, eu suspeito que nenhuma reflexão realmente densa poderá ser levada adiande.

    • Penso que a grande maioria

      Penso que a grande maioria das pessoas não compreende onde está a real necessidade da existância das universidades, em particular a universidade pública. Ela não é um doce ou um presente ao qual devemos dar um destino a alguém. Olhar ela por esta ótica só vai fazer ampliar a crise que ela hoje passa. A universidade pública é outra coisa, a qual podemos enxergar como mais próxima de uma ferramenta. A universidade pública surge da necessidade que o estado tem de ter um corpo com conhecimento capaz de realizar coisas que você não vai encontrar no “mercado” ou em produtos de prateleira. Quando não é possível mais terceirizar, seja porque o que se quer produzir é estratégico ou segredo ou porque a iniciativa privada não é capaz de fazer sozinha, aí é que se vê a real necessidade da existência da universidade pública. A primeira coisa que o texto (longo) falha clamorosamente é em ver isso, que a universidade é uma ferramenta que se trabalharmos bem vai nos dar algo e não um presente do qual iremos usufruir.

    • Pode começar, quem sabe,

      Pode começar, quem sabe, citando Ferréz ao invés de Mário de Andrade, como um movimento simbólico de aproximação do universo que existe para além dos muros imaginários da universidade como mero “objeto” de suas pesquisas. Essa universidade colecionadora de quinquilharia cultural e científica, que só serve para consumo próprio, precisa se resignificar. Urgentemente. Não porque ela deva ter uma função, antes de tudo (sim, também tenho receio da palavra, concordo contigo), mas sim porque está acontecendo algo muito semelhante ao que ocorreu com o pesquisador colonizador em locais como a Índia e a Oceania e os recém formados intelectuais locais: os excluídos da “academia” brasileira descobriram que podem pensar e se organizar sem ela. Vamos perder o elo de comunicação e aprendizado com esses sujeitos políticos, sociais, culturais, assim como vamos perder o elo de comunicação com o mercado (ele precisa existir, ou vamos continuar reféns dos donos do dinheiro nos dizendo que fazer uma hidrelétrica em um rio no meio do nada, sem uma pesquisa séria sobre custo benefício de geração de energia, é super legal).

      A questão aqui é essa conversa que não está sendo feita porque ninguém a assume de verdade, institucionalmente, dentro das federais e estaduais. Quem teve de fazer estágio ou pesquisa de campo que o diga: desde a graduação assumimos individualmente essa tarefa, salvo alguns casos, e o retorno raramente é aproveitado pela comunidade, pela escola, pela empresa envolvidos. O caminho de avaliação do processo nunca é de mão dupla e os próprios responsáveis pelas ações (professores e coordenação) não institucionalizam esse vínculo, não trabalham de forma interdisciplinar ou horizontal (pensando na relação com alunos e com pesquisados). Interdisciplinaridade é outro exemplo, interno, da incomunicabilidade instaurada nos grandes centros de pesquisa brasileiros. Quantas vezes sequer cogitamos que um laboratório pode dialogar com outro na pesquisa do mesmo componente químico? Imagina, vemos isso como ameaça à genialidade do sujeito que optou por usar o processo x ao invés do y. No máximo, se forem amigos, os autores escreverão um artigo em conjunto para ganharem pontos no Lattes. Caso não sejam, vão boicotarem uns aos outros. É isso que acotece. Mesmo. Na nossa cara. Todos temos histórias para contar. E não contamos porque sabemos que a instituição não tem mecanismos para lidar contra isso assim como não tem para institucionalizar vínculos perenes com a comunidade. Por aqui seria um bom lugar para começar, não acha?

      Me lembro agora de uma neurocientista brasileira que acabou de partir para os EUA e deixar a UFRJ e que,  junto com um físico, construíram uma fórmula para as dobras do córtex cerebral. Algo inovador, mundialmente falando. Só fiquei sabendo da pesquisa porque leio a Piauí. E eu estou no meio acadêmico! Me espanta que os acadêmicos ainda se espantem que aqueles que não fazem parte de seu cotidiano vejam universidades tão inacessíveis como a USP ou a UFRJ com desconfiança. E esse é um exemplo de pesquisadores atuando na mesma universidade, na mesma área de conhecimento. Universidades falando entre si, então, só nos congressos (de novo, falando a língua compartilhada somente no meio acadêmico…). Trabalhei em um grande projeto que envolvia antropólogos, sociólogos, geólogos, biólogos de duas universidades e população ribeirinha. Quando um dos professores que encabeçaram o projeto veio a falecer e outro se aposentou, quando os doutores e mestres se formaram, o dinheiro da fundação X acabou, com ele acabou o projeto. Vemos isso todos os dias. Centros de estudos minguando, projetos minguando. As iniciativas como essas não se institucionalizam e a população envolvida, novamente, se sente abandonada. 

      Como fazer, então? Olha, nem todo mundo que critica quer instrumentalizar a universidade pública, fazer revolução cultural a la Mao, ou está expressando amargura pessoal por sua estrutura meritocrática. Não concordo com a instrumentalização nem acho que pesquisa seja para todos (não porque não o merecem, mas porque é um caminho bem particular, tem que gostar). Mas concordo todos que fazem a Universidade pública acontecer cotidianamente precisam resignificar a prática e a teoria, porque vendo o mundo para além dos portões dela como uma espécie de playground de gênio, vamos ficar brincando sozinhos logo, logo. E, na prática, sugiro mais interdisciplinaridade entre áreas (previstas em estatudos, regulamentos e não só como iniciativas pessoais), mais conversa entre os centros de estudos e pesquisa, entre as federais e estaduais, institucionalização de práticas simples, como a avaliação por parte da população com a qual trabalhamos, meios de divulgação científica, artística, cultural que não sejam só acadêmicos.  

       

      • E?…

        Sai a “mágica performativa” (Bourdieu) da “abertura à sociedade” e entra a mágica performativa da “ressignificação”?

        Substitui-se um fetiche conceitual por outro? Troca-se seis por meia-dúzia? Nisso está a solução? Ou a “solução” é apenas uma questão de moda retórica, do que é mais fashion para a última terminologia pós-qualquer-coisa?

        Mais uma vez: cadê o rigor conceitual?

        Entretenimento fenomenológico ligeiro — com buracos tapados por alguma novilíngua — não basta para esse debate. Do contrário será apenas uma rasgação-de-roupa estéril e onanística.

        • Tem gente que faz baixar o

          Tem gente que faz baixar o Macunaíma em mim: ai que preguiça! Mas vamos lá, o amigo quer muito ter razão, mas me arriscarei a uma resposta, não mais, para nos poupar dessa maçada

          Caro Ricado, sinto dizer: não, você não entendeu o que eu quis dizer (nem bem nem mal, apenas não entendeu) . Na verdade, você não parece ter sequer compreendido onde está: publiquei meu texto no “Jornal GGN” e não no “Harvard Review of Philosophy”. Quer fazer filosofia analítica, tem todo o direito (eu mesmo gosto), mas estou discutindo política – a universidade pública é uma institução Política.

          Rapidamente: se meu texto é retórica vazia, você nem precisava responder, não acha? Ou então, em 30 palavras desmontava o texto por completo e com facilidade. Não precisava nem me acusar com o rigoroso termo conceitual de “espantalho retórico” e forçar uma série de possibilidades que não levantei, sugeri, induzi, nada, foram trazidas por você do seu repertório, da sua leitura de mundo, das suas expectativas, medos, desejos, não sei – sei apenas que completamente alheias ao meu texto. Por que tanto te incomodou o que eu abordei? Aquela auto-reflexão que cobro da academia, vale muito para os acadêmicos (profissionals da produção do conhecimento) também – neste caso, um bom psicanalista (lacaniano) ajuda.

          No geral você muito fala querendo me contradizer (ou à Ana Bazzo) para, no final, confirmar o que eu disse. Ainda que tenha sido involuntário, agredeço.

  7. O texto abre varios temas para debate …

    Mas tudo pode ser resumido na pergunta: Pra que serve a Universidade publica? A  quem ela serve? O Dalmoro foi na ferida, cutucou e espremeu o pus. Sou professora de uma universidade federal e me sinto plenamente contemplada com sua analise. Os governos Lula/Dilma, apesar da cegueira  e extremismo irracional do movimento sindical docente, em 10 anos fez pela Universidade publica  o que não foi feito em 50 anos. No meu estado, a Universidade federal é a unica universidade publica existente. A unica. O processo de expansão foi vertiginoso. A instituição triplicou de tamanho. O investimento foi altissimo. E a gente pergunta: alguem esta refletimdo sobre o valor social e cultural desse investimento? Alguem esta preocupado com isso? A resposta é um sonoro NÃO. As pessoas parecem que não se dão conta de que isso não é uma dadiva nem uma coisa natural. ha que se lutar por ela, e se mante-la e definir seu lugar. Caso contrario, ela acaba … 

  8. critica, mas faz a mesma coisa!

    O autor faz um diagnóstico que pode ser até correto. Mas é parcialmene correto pois ignora a diversidade e a luta que existente dentro das Universidades. Trata a Universidade pública como algo homogêneo, como se fosser resumida a Chauí e Saflate contra todo o resto. Muita gente na universidade pública que não faz renome na esquerda promove serviço público de qualidade para a sociedade. São incontáveis os exemplos de bens públicos produzidos pela Universidade pública – que por ser pública deve produzir bens públicos e não para o mercado, esse se quiser que crie as Universidade privadas para produzir os seus ‘bens’. Bens que não se resumem a pesquisa teórica e a formação de quadros. Parece que assumiu as premissas do editorial de “O Globo”!

    Mas o pior mesmo é que o autor ignora completamente a ‘sociedade’ para a qual a Universidade supostamente deveria se abrir. Parece que a distancia da Universidade em relação a sociedade é culpa unicamente da Universidade – e pode até ser de setores da Universidade. Ao colocar dessa forma, o autor cai no mesmo erro que critica: ignora a sociedade em que a Universidade Pública existe. Tem  até momentos do texto que a sociedade parece se resumir ao mercado: a Universidade Pública deve se abrir para formar quadros para o mercado, para fazer pesquisa para o mercado.

    A imensa maioria da população brasileira (acho que 60%) ganha até um salário minimo. Essa imensa maioria tem que trabalhar mais de 8hs por dia para sobreviver. É a sociedade que não dá condições para que eles entrem na Universidade pública e não apenas esta que fecha as portas para  a sociedadel Se a Universidade é de elite – o que é questionável, pois a maioria dos estudantes de baixa renda estão na Universidade pública e não na privada – é porque a sociedade brasileira é elitizada, desigual e autoritária.

    O brasileiro não lê, vê TV. A imensa maioria porque não tem tempo. Para o público aparecem apenas professores universitarios falando o que a midia quer que seja dito. Não há debate nem divulgação do que a Universidade faz, só do que o ‘mercado’, do qual a grande mídia é parte , faz, quer ou “sente”. Veja o debate econômico na midia: há um intenso debate e pesquisa nas Universidades sobre os diagnósticos e politicas economicas. MAs a midia só chama ‘representantes do mercado’ para falar sobre economia – quando não professore de Universidades privadas (que também são ‘representantes do mercado’ em sua maioria)

    E sem entrar no debate de fundo sobre se a Universidade deve formar quadros para o mercado, coloco uma questão: alguem pode me explicar o sentido de um curso universitário de ‘gastronomia’ ou de ‘moda’, por favor? Eu acho que é porque as empresa brasileiras “socializaram”o custo de formação técnica – que em vários lugares do mundo não é curso univresitário, embora seja reconhecido como ‘terceiro grau’ ou é feito pelas próprias empresas –  para aumentar seus lucros privados. Fizeram o que sempre fizeram: mamam nas tetas do Estado – e depois reclamam dele!

    O fato é que o mercado não produz vagas para quadros qualificados no Brasil. São poucas as chances de alguém com formação universitária conseguir um emprego no que se formou, pois o mercado de trabalho é ‘dominado’ pela demanda. E as empresas brasileiras ou que atuam no Brasil, em sua maioria, querem escravos e não doutores; além de aumentar o custo,  gente que pensa é perigosa…

    PS: se alguma biblioteca de uma Universidade Pública impede o acesso a quem não é aluno, deve ser processada na justiça, pois isto é ilegal.

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