Enquanto população de alunos aumenta, de estudantes parece diminuir

Sugerido por Romulo Cabral de Sá

Da Carta Capital
 
 
Além do mico-leão-dourado e do lobo-guará, outro mamífero tropical parece caminhar para a extinção
 
Por Thomaz Wood Jr.
 
Diz-se que uma espécie encontra-se ameaçada quando a população decresce a ponto de situá-la em condição de extinção. Tal processo é fruto da exploração econômica e do desenvolvimento material, e atinge aves e mamíferos em todo o planeta. Nos trópicos, esse pode ser o caso dos estudantes. Curiosamente, enquanto a população de alunos aumenta, a de estudantes parece diminuir. Paradoxo? Parece, mas talvez não seja.

Aluno é aquele que atende regularmente a um curso, de qualquer nível, duração ou especialidade, com a suposta finalidade de adquirir conhecimento ou ter direito a um título. Já o estudante é um ser autônomo, que busca uma nova competência e pretende exercê-la, para o seu benefício e da sociedade. O aluno recebe. O estudante busca. Quando o sistema funciona, todos os alunos tendem a se tornar estudantes. Quando o sistema falha, eles se divorciam. É o que parece ocorrer entre nós: enquanto o número de alunos nos ensinos fundamental, médio e superior cresce, assombram-nos sinais do desaparecimento de estudantes entre as massas discentes.

Alguns grupos de estudantes sobrevivem, aqui e acolá, preservados em escolas movidas por nobres ideais e boas práticas, verdadeiros santuários ecológicos. Sabe-se da existência de tais grupos nos mais diversos recantos do planeta: na Coreia do Sul, na Finlândia e até mesmo no Piauí. Entretanto, no mais das vezes, o que se veem são alunos, a agir como espectadores passivos de um processo no qual deveriam atuar como protagonistas, como agentes do aprendizado e do próprio destino.

Alunos entram e saem da sala de aula em bandos malemolentes, sentam-se nas carteiras escolares como no sofá de suas casas, diante da tevê, a aguardar que o show tenha início. Após 20 minutos, se tanto, vêm o tédio e o sono. Incapazes de se concentrar, eles espreguiçam e bocejam. Então, recorrem ao iPhone, à internet e às mídias sociais. Mergulhados nos fragmentos comunicativos do penico digital, lambuzam-se de interrogações, exclamações e interjeições. Ali o mundo gira e o tempo voa. Saem de cena deduções matemáticas, descobertas científicas, fatos históricos e o que mais o plantonista da lousa estiver recitando. Ocupam seu lugar o resultado do futebol, o programa de quinta-feira e a praia do fim de semana.

As razões para o aumento do número de alunos são conhecidas: a expansão dos ensinos fundamental, médio e superior, ocorrida aos trancos e barrancos, nas últimas décadas. A qualidade caminhando trôpega, na sombra da quantidade. Já o processo de extinção dos estudantes suscita muitas especulações e poucas certezas. Colegas professores, frustrados e desanimados, apontam para o espírito da época: para eles, o desaparecimento dos estudantes seria o fruto amargo de uma sociedade doente, que festeja o consumismo e o prazer raso e imediato, que despreza o conhecimento e celebra a ignorância, e que prefere a imagem à substância.

Especialistas de índole crítica advogam que os estudantes estão em extinção porque a própria escola tornou-se anacrônica, tentando ainda domesticar um público do século XXI com métodos e conteúdos do século XIX. Múltiplos grupos de interesse, em ação na educação e cercanias, garantem a fossilização, resistindo a mudanças, por ideologia de outra era ou pura preguiça. Aqui e acolá, disfarçam o conservadorismo com aulas-shows, tablets e pedagogia pop. Mudam para que tudo fique como está.

Outros observadores apontam um fenômeno que pode ser causa-raiz do processo de extinção dos estudantes: trata-se da dificuldade que os jovens de hoje enfrentam para amadurecer e desenvolver-se intelectualmente. A permissividade criou uma geração mimada, infantilizada e egocêntrica, incapaz de sair da própria pele e de transcender o próprio umbigo. São crianças eternas, a tomarem o mundo ao redor como extensão delas próprias, que não conseguem perceber o outro, mergulhar em outros sistemas de pensamento e articular novas ideias. Repetem clichês. Tomam como argumentos o que copiam e colam de entradas da Wikipédia e do que mais encontram nas primeiras linhas do Google. E criticam seus mestres, incapazes de diverti-los e de fazê-los se sentir bem com eles próprios. Aprender cansa. Pensar dói.

 

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18 comentários

  1. Colegas professores,

    Colegas professores, frustrados e desanimados, apontam para o espírito da época: para eles, o desaparecimento dos estudantes seria o fruto amargo de uma sociedade doente, que festeja o consumismo e o prazer raso e imediato, que despreza o conhecimento e celebra a ignorância, e que prefere a imagem à substância.

    Isso também se cultua, cultura de uma época.

    A própria ideologia liberal, ou mais especificamente o neoliberalismo

    O que se esperar de uma sociedade hedonista que insufla os jovens à superficialidade?

  2. Eu sabia! Eu sabia! Se um

    Eu sabia! Eu sabia! Se um doente não se recupera e morre, a culpa é dele, por ser fraco demais e doente – jamais do médico. Se um aluno não sai do estado de aluno pra entrar no de estudante, a culpa é dele por ser burro e egocêntrico, jamais do professor. Ah! Que saudades dos tempos d’antes, quando só os filhinhos da elite conseguiam botar o pé na escola! Que saudades da época em que a molecada sabia que crianças são para ser vistas e não ouvidas; quando sabiam calar a boca, obedecer e decorar a tabuada! Que saudades de quando se podia praticar a pedagogia da vara de marmelo, e não essa excescência da “pedagogia pop”! [suspiro]

    • LouraMuitoBurra, nao se

      LouraMuitoBurra, nao se elogie assim com esse nick.  Voce eh mais burra ainda.

      O assunto do item NAO EH CULPA.  Eh tecnica de estudo e de aprendizado que ninguem tem.  Tecnica de ensino NAO eh suficiente.  Entendeu agora?  Sim, o problema exposto no item que voce nao parece ter lido EH o dos alunos.  “Nao basta ser aluno”, alias, eh o ponto central do item.

      Existe tecnica de ensinar e tambem tecnica de aprender, assunto que eu abordei extensamente antes de ontem.

  3. Na FGV, tinhamos os “mestres

    Na FGV, tinhamos os “mestres ” que chamavam os estudantes de alunos, e os que os tratavam como “estudantada “.

    Nos dois casos, falta de respeito. Agora vem essa conversa de alienação dos jovens. Santa paciência, Batman.

  4. Discurso tz bem intencionado, mas vazio e conservador

    Os problemas de que ele fala existem certamente. Mas o texto nao ajuda em nada a pensar o problema. 

    • (Quando comeca a mencionar

      (Quando comeca a mencionar “especialistas” que dizem isso e aquilo, da pra dormir.  Eles mencionam o assunto e o expoem…  pelos sintomas, nao pelas causas.  Da um desaaaaanimo…

      Gostei, o ASSUNTO eh serio.  Mas nao foi muito bem enderecado.)

  5. Excelente texto.
     
    Uma pena a

    Excelente texto.

     

    Uma pena a nossa esquerda incentivar esta permissividade dos jovens. eu não canso de dizer que a nossa esquerda taxa de “conservadorismo” todo tipo de disciplina que incentive crescimento do PIB e lhe boicote a falta de coragem. A nossa esquerda nunca foi esquerda de verdade, são anarquistas enrustidos. Estivessemos num país de esquerda de verdade, como a China, veríamos o que é juventude aplicada aos estudos e Crescimento robusto do PIB.

    Enquanto isto vamos vendo a qualidade dos nossos profissionais caindo. São cada vez mais frequentes as notícias de médicos e enfermeiros que matam pacientes devido á “erros médicos”, predios que caem devido à “erros de cálculo de engenharia” e por aí vai.

    • “Uma pena a nossa esquerda

      “Uma pena a nossa esquerda incentivar esta permissividade dos jovens”:

      Da pra ler pelo menos o titulo do item?  Xou repetir. Vou escrever bem devagarinho porque sei que voce nao le depressa:

      Enquanto população de alunos aumenta, de estudantes parece diminuir

      O item se endereca a um problema social DE ALUNOS, que nao aprenderam a ser ESTUDANTES ainda.  Assunto serio.  Nao tem a ver com “esquerda” nem sequer nos paises desenvolvidos, muito menos no Brasil.

      • Se fosse um problema social

        Se fosse um problema social de alunos, ele estaria presente em todos os países indistintamente.

        Mas como o Sr. explica que na China não exista este problema? Desculpe a franqueza, Sr. Ivan. É porque ao contrário do que o Sr. diz, não é um problema social de alunos, mas um problema cultural de “Disciplina”. Países com disciplina severa, como China, Coréia do Sul, e outros tem desempenho elevado dos alunos por que lá acham normal exigirem dos alunos o melhor que eles podem dar.

        Mas aqui na nossa cultura é exatamente o contrário, por isto os resultados são diversos.

        • “Mas como o Sr. explica que

          “Mas como o Sr. explica que na China não exista este problema?”:

          Ah, bom, entao o fato de voce culpar A ESQUERDA brasileira era so contrabando ideologico mesmo.  Entao ta.

    • Esquerda e direita

      “Estivessemos num país de esquerda de verdade, como a China”

      Parece que fosse confunde os conceitos de esquerda e direita. Um país pode ser rotulado ou rotular-se “comunista” e não ser de esquerda. A China, p. ex., na minha visão não é “de esquerda”. Tá hoje  mais pra capitalismo de Estado do que outra coisa..

      Esquerda é sinônimo de inconformismo, busca de avanços que nos levem o mais próximo possível da igualdade social. É não aceitação das fórmulas prontas apresentadas como verdades únicas. Esquerda é a busca de soluções novas para velhos problemas, e do desmonte de estruturas viciadas. É o contrário de conservadorismo, de imobilidade social e política da negação da contesatação dos dogmas vigentes.  Esquerda é  a subversão de “verdades” e valores que foram estabelecidos com base no capital, na hierarquia, na exclusão social e econômica, na cristalização histórica. Estes últimos vêm a ser  os valores cultivados e que caracterizam a direita.

      • Aqui no Brasil existe um pre

        Aqui no Brasil existe um pre conceito de que tudo o que leva o rótulo de esquerda é sempre bom, e tudo o que é de direita é sempre ruim. Ser progressista aqui parece ser sempre bom, e ser conservador sempre ruim.

        O único país que era comunista e conseguiu índices de crescimento do PIB da ordem próxima a dois dígitos (quase 10 %) foi a China, por que ela venceu esta barreira de preconceito. Os chineses pegaram o que funcionava no socialismo e reuniram ao que funcionava no capitalismo. A flexibilidade de reunir o melhor do progressismo ao melhor do conservadorismo. É a neo esquerda. Eles estão a ponto de tirar dos EUA a liderança econômica.

        Enquanto isto as esquerdas da maioria do mundo ainda estão com a cabeça na era pré muro de Berlim, tentando criar algo que já failu há décadas.

        A China deu certo por que o compromisso deles é com resultados, e não com conceitos ou pré conceitos.

  6. Difícil o aumento de
    Difícil o aumento de estudantes quando os alunos precisam se dividir entre trabalho e estudos, essa é a realidade brasileira onde as pessoas precisam se virar do jeito que pode e não há maneira de realizar uma formação saudável.
    Gostei de sua visão, porém muito ideológica esquecendo alguns fatores preponderantes.

  7. Enfim, tudo o que o autor

    Enfim, tudo o que o autor comentou se repetiu nos comentários: dispersão, falta de foco. Esquecem o essencial e ficam coando mosquitos.

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