Entrevista com o ativista político Luiz Gonzaga da Silva, por Marilza de Melo Foucher

Gegê é Integrante da Central de Movimentos Populares, tendo sido preso durante Ditadura Militar

Foto Brasil de Fato

Entrevista com o ativista político Luiz Gonzaga da Silva.

Realizada por Marilza de Melo Foucher

Apresentação

Luiz Gonzaga da Silva, mais conhecido como Gegê é Integrante da Central de Movimentos Populares, tendo sido preso durante Ditadura Militar. Sua história de participação em mobilizações encontra-se ligada ao movimento popular urbano, em São Paulo, na luta por uma moradia digna, incluindo. manifestações contra o racismo e defesa do SUS no Brasil.

Por conta do intenso engajamento social de Gegê esta entrevista teve um pouco de atraso.

Gegê vamos ao contexto político brasileiro.

A situação política no Brasil se agrava. O poder executivo parece amordaçado, chantageado por um “semiparlamentarismo” que foi imposto pelo governo de Bolsonaro, em dobradinha com o Presidente da Câmara Arthur Lira. Este senhor Lira ganhou um superpoder com a criação do Orçamento Secreto, no governo de Bolsonaro. Observa-se que hoje a mídia tradicional e muitos analistas políticos, deputados e senadores parecem esquecer que o regime brasileiro é presidencialista.

O Presidencialismo brasileiro é um sistema de governo marcado pela existência equilibrada entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Nele, o presidente é eleito de forma direta e indireta, sendo responsável pela representação do Estado e pela administração do governo. O chefe de Estado é também chefe do governo.

  1. Diante deste constato da realidade política como a Central dos Movimentos Populares analisa esta situação?

Estamos hoje e mais do que nunca com uma grande preocupação sobre os destinos desse governo. Essas últimas eleições, nos custaram muitos esforços que hoje precisam ser redobrados para garantir a sustentabilidade de um governo que não dispõe de maioria. Infelizmente, não conseguimos eleger uma base parlamentar para apoiar fortemente os atos do governo Lula, para cumprir com suas promessas eleitorais, diga-se de passagem, oriundas de um consenso popular.

Diante de um quadro político adverso, hoje vemos o Presidente Lula ser obrigado a fazer acordos com determinados partidos políticos que não têm demonstrado nenhum esforço para apoiarem a pauta de projetos construída pelo governo. Por exemplo, a proposta do novo programa “Minha Casa Minha Vida”, além de garantir a moradia digna contribui também para a geração de trabalho e renda que irá ajudar o Brasil a diminuir a desigualdade social.

  • Existe uma articulação entre todos os movimentos sociais para discutir esta situação?

Vejo uma urgência e necessidade de se articular uma nova base de apoio ao governo para que Lula possa retirar o Brasil desse marasmo tão sofrido dos últimos anos, com o governo de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Precisamos sair deste clima de violência fascista que ainda prevalece. Existe, por exemplo, um setor da burguesia representado no Parlamento que tenta a todo custo sangrar o governo, buscando adquirir financiamentos em troca de algum apoio para aprovação de medida parlamentar. Logicamente, estes partidos buscam recursos para pagarem as suas dívidas de campanha e já irem se preparando para as próximas eleições de 2024. No próximo ano teremos em todas as cidades brasileiras as eleições para prefeitos e vereadores.

A presidência da câmara exerce uma enorme chantagem política para adquirir ministérios chaves que lhes darão a visibilidade social da qual necessitam para adquirir votos. Esses setores do poder econômico e religioso presentes no Parlamento agem de modo egoísta para garantir poder de barganha e não para atuar em defesa dos interesses e do bem comum para o povo brasileiro. Nunca serão uma base de sustentação do governo Lula e vão continuar negociando cargos e poderes. Sem maioria, o governo Lula tenta negociar com seus adversários para garantir o bem-estar da população brasileira, sobretudo, com atenção especial aos mais carentes desta população que estava passando fome e vivendo em estado de miséria.

Esta situação exige de nossa parte buscar fortalecer o apoio popular ao governo e, ao mesmo tempo, exercer pressão junto ao Parlamento. Para tanto será necessário que a esquerda aprenda a negociar na defesa dos interesses da população e entenda que o bolsonarismo sobrevive do germe do ódio, o que nos exige um trabalho de militância pedagógica junto àqueles que foram manipulados por mentiras. Este contexto político exige de nossa parte esforços redobrados e muita mobilização para que as promessas do governo Lula possam ser concretizadas.

  • Que tipo de mobilização vocês pensam fazer para defender o governo Lula que sempre teve sua carreira política ligada aos movimentos populares?

Precisamos ser mais ativos e mais coordenados. Temos que ter maioria popular para pressionar a câmara e o senado e apoiar o governo Lula. Logicamente, não podemos perder nossa visão crítica para fazer avançar nossas reivindicações. Precisamos nos unir para conquistar o poder local e evitar uma derrota eleitoral nesse processo de 2024. Temos que nos unir para garantir o apoio popular para que o governo Lula possa a vir terminar esses 4 anos de governo! Todavia, reconhecemos que os movimentos sociais deveriam estar mais presentes nos bairros, nas periferias, se reunindo com as comunidades. Não podemos ficar somente debatendo entre nós, nas redes sociais via internet. As duas coisas são necessárias!

A luta política é uma batalha permanente, mesmo que Lula não venha a ser candidato, mas, o candidato indicado por ele não pode sofrer uma derrota. Isso, com toda certeza vai representar uma derrota de nosso projeto político na luta contra todas as formas de exclusão! Temos que criar condições para continuar a organizar a luta por nossas libertações. 

  • Existe possiblidade de construir uma aliança mais larga reunindo mais representantes da sociedade civil, como o mundo associativo, Centrais Sindicais, sindicatos de professores, movimento estudantil, associando artistas etc.?

Olha eu vejo a necessidade de alargarmos esse processo de ALIANÇA com todos esses segmentos; esse processo ainda é lento e precisamos ficar mais atentos, pois o governo Lula não pode sobreviver sem o apoio de todos nós. Porém, o governo deve ter o cuidado para não entregar além dos anéis, os dedos ao mesmo tempo! Temos que levar em conta, que muitos setores da burguesia brasileira pretendem e esperam que o Lula não consiga governar e nem cumprir suas promessas, assim, eles podem voltar ao poder. Eles precisam ter um novo governo de direita ou do tipo dos governos do PSDB de Fernando Henrique Cardoso para que possam terminar o programa de privatização de todos os setores no Brasil, principalmente os setores chaves da economia, como exemplo, o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e o que ainda nos resta da Petrobrás. O ensejo dessa dita elite econômica conservadora é o de entregar todo o patrimônio brasileiro ao jugo estrangeiro, ou seja, pôr fim aos nossos sonhos de um país com soberania e autonomia, se preparando para um futuro melhor enquanto nação e melhorando as necessidades básicas de seu povo.

Vale destacar, que a sociedade civil latino-americana, em especial a brasileira, ainda acredita muito no caminho “Democrático”, onde os processos eleitorais venham a resolver os problemas de nossas sociedades. Todavia, vivemos entre desejos e a dura realidade. Gostaríamos de ter uma democracia mais ampla e real, que não permitisse que uma meia dúzia detivesse todos os poderes, com a grande maioria vivendo na pobreza absoluta e na miséria. Esse tipo de democracia neoliberal criou uma forma de governar cada vez excludente que vai nos levando à bancarrota, com mais fome/miséria, com um número crescente da prostituição infantil, com um verdadeiro exército do crime organizado; os nossos jovens sendo envolvidos com as drogas, submetidos ao poder dos narcotraficantes. As milicias organizadas vão penetrando nas esferas de poder político, ou facilitando sua ascensão. Corremos grande riscos de ver o Brasil e a América latina socialmente e politicamente desestruturados, da forma como vem ocorrendo na África e Haiti. Não podemos permitir a volta de governos do tipo bolsonarista; isto será desastroso para a coesão social no Brasil e representa uma grande ameaça de uma guerra civil. Devemos e temos a obrigação de ficar atentos aos perigos que nos rodeiam, há certo tempo.

  • Que mensagem gostaria de passar ao jornalismo no Brasil ligado a mídia tradicional que parece visar somente a fragilidade do poder executivo onde o Lula é o principal alvo?

O que poderei falar para a mídia tradicional, para a mídia burguesa sempre a serviço do sistema capitalista neoliberal é que ela deixou de cumprir com o papel de vigilância da democracia. Ela deveria ser um setor de formação dessa grande massa que é o povo mais pobre, o povo que vive uma miséria quase total e sem educação política. Esta mídia comercial contribuiu para um processo de despolitização, optando pela manutenção da ignorância política, cumprido com o papel da desinformação permanente. Os canais de televisões invadem os lares durante 24 horas, repetindo às vezes as mesmas mentiras que terminam virando verdades. Foi assim que agiram a favor do golpe contra Dilma e foi assim que contribuíram para desacreditar os governos do PT, até a prisão de Lula.

Assistimos como a mídia conservadora contribuiu com o projeto político do ex. juiz Sergio Moro e seus associados, destruindo a imagem de Lula e impedindo sua candidatura à presidência, favorecendo a eleição de Bolsonaro, para o qual Moro foi servir como Ministro de Justiça.  Infelizmente, essa mídia contribuiu com a rejeição da cidadania política, aumentando a ignorância política. Priorizou a desinformação em lugar da análise política e crítica, ridicularizou o jornalismo brasileiro. A mea-culpa tão exigida por parte deles, para que Lula reconhecesse que tudo o que foi dito pela Lava-Jato era verdade, não aconteceu com os jornalistas da mídia conservadora (com raras exceções), depois que ficou escancarada a manipulação jurídica e a parcialidade de Moro. Faltou para o grande público brasileiro informações para reconhecer a inocência de Lula! A desinformação pareceu ser a arma de uma mídia que agia como partido político de oposição à esquerda e centro esquerda brasileira.  Por sorte, hoje contamos com uma imprensa alternativa que se impõe junto à opinião pública, exercendo o papel de guardiã da frágil democracia brasileira. Acredito que a imprensa alternativa está resgatando a credibilidade no jornalismo e na imprensa nacional.

Quem sabe, um dia seremos chamados para um debate sobre qual sociedade queremos construir no Brasil…

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