A enorme confusão em que se transformou o governo levou o presidente Jair Bolsonaro e o Ministro da Justiça Sérgio Moro, a duas ações com um mesmo objetivo: recriar a figura do inimigo externo, como forma de tentar se fortalecer internamente.

No caso de Bolsonaro, com uma fantasiosa ameaça nuclear, endossada pelo general Villas Boas. No caso de Sérgio Moro, colocando os delegados moristas para novas invasões de residências e tentativas de intimidação de advogados, valendo-se do indefectível depoimento de Antônio Palocci.

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Peça 1 – a guerra do meio ambiente

Há tempos Bolsonaro tenta criar um clima de guerra, como maneira de fortalecer seu controle sobre seus seguidores. Não conseguiu avançar no plano interno, devido à falta de disposição da oposição em partir para o enfrentamento. Encontrou no meio ambiente o caminho correto, com agressões a mandatários europeus.

Vamos entender um pouco a lógia grotesca de Bolsonaro.

Passo 1 – o Mercosul fecha acordo comercial com a União Europeia. Bolsonaro não tem a menor ideia sobre as consequências desse acordo, mas saúda efusivamente os negociadores e se apropria do mérito da operação.

Passo 2 – é alertado por Donald Trump de que o acordo poderia comprometer o futuro acordo com os Estados Unidos. Submisso, passou a torpedear o acordo com a União Europeia em sua parte mais delicada, os compromissos com o meio ambiente, ponto central para o fechamento do acordo.

Passo 3 – Como é um completo sem-noção, foi aumentando o tom das críticas aos mandatários europeus, atacando Angela Merkel, da Alemanha, Emmanuel Macron, da França, a Noruega, e entrando até o pescoço na escatologia, visando criar motivos para a não concretização do acordo.

Passo 4 – a intenção de provocar um impasse com os europeus foi explicitada pelo general Hamilton Mourão, ao dar uma de Bolsonaro e atribuir os tremores de Merkel a um suposto medo de Trump.

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Passo 5 –  para ampliar mais ainda o confronto, deu carta branca ao suspeitíssimo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para desmontar completamente a estrutura de fiscalização do IBAMA.

Passo 6 – estimulado pelas palavras de Bolsonaro, fazendeiros do Pará estimularam o “dia do fogo”, que acabou promovendo uma queimada cujas cinzas chegaram até o extremo sul do continente (clique aqui).

Desfecho – com a eclosão das queimadas na Amazônia, o desatino de Bolsonaro criou o maior problema diplomático brasileiro desde a ditadura, com ameaças diretas ao agronegócio e aos investimentos externos no país, obrigando-o a um recuo.

Peça 2 – a criação do inimigo externo

Há algum tempo, seus filhos tuitaram mensagens sobre supostas ameaças nucleares ao Brasil, em função do problema ambiental. E o indescritível general Villas Boas em endossou as pirações.

Com uma clareza dificilmente vista, estamos assistindo a mais um país europeu, dessa vez a França, por intermédio do seu presidente Macron, realizar ataques diretos à soberania brasileira, que inclui, objetivamente, ameaças de emprego do poder militar.

Logo em seguida, Bolsonaro incendeia a discussão com suas afirmações estapafúrdias sobre a Amazônia e o meio ambiente, somadas a ações concretas do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, de desmonte da fiscalização ambiental.

O mesmo Villas Boas saúda os brasileiros que estão desmistificando a questão indígena e ambiental, colocando corretamente no mesmo balaio Ricardo Salles, Aldo Rebello.

Finalmente, o Jornal Nacional introduz novos componentes políticos no debate, ao comparar indevidamente afirmações de Lula e Bolsonaro sobre a questão ambiental.

De qualquer modo, a afirmação do presidente francês Macron satisfez todos os lados. Ele atende a seu eleitorado. Fornece a Bolsonaro o álibi para a melhor das guerras, uma guerra de retórica em que não haverá a possibilidade de se ter presidente deposto nem militar derrotado ou preso. E deturpa completamente a noção de soberania da Amazônia, com responsabilidade ambiental.

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Peça 3 – o reforço do inimigo interno

Hoje, o procurador Deltan Dallagnol seu uma longuíssima entrevista à Gazeta do Povo, de Curitiba, lamentando o pouco caso com que a mídia passou a tratar as operações da Lava Jato. Entendeu corretamente que o fio virou e, agora, o que dá manchete são os vazamentos do Intercept. E repetiu várias vezes as conclamações para a população voltar à rua, expediente que ajudou a dobrar a espinha flexível do ex-Procurador Geral da República Rodrigo Janot.

Particularmente curioso é o seguinte trecho, seja lá o que signifique:

“A grande verdade, e aí eu sigo o filósofo John Rawls, é que a maior parte daquilo que você alcança na vida vem por fatores aleatórios, como a visibilidade da Lava Jato. Ainda que você tire todo o meu mérito na Lava Jato, ainda assim, se você olhar outros fatores que levam ao sucesso na vida, eles são aleatórios – como a família que você nasceu, como os talentos que você herdou e assim por diante. E o que ele coloca é que isso [a diferença entre o sucesso de alguns e insucesso de outros] deve ser tratado como uma política pública de redistribuição de recursos, sem desestimular a atividade econômica. Mas isso deve ser resolvido por política pública e por tributação. Eu pago mais de 30% do valor sob tributos dessas palestras. Existe uma redistribuição de valores, e o fato de você ter que tratar isso por políticas públicas ou tributação, não impede, não torna imoral, algo que é bom para a sociedade. Às vezes, as pessoas tem uma ideia de que servidor público não pode ganhar recursos. Pode sim. Não existe nenhuma regra moral que condene você ganhar recursos e até enriquecer, se for o caso.”

 

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Enquanto isto, Sergio Moro acionou a juíza Gabriela Hardt para mais uma ofensiva. A invasão da casa de André Esteves, do Banco Pactual, visou constranger a revista Veja, em sua parceria com o The Intercept, cuja venda foi bancada por apoio financeiro do BTG Pactual.

Avançou-se também sobre o advogado de Lula, José Roberto Batochio. Como o Ministério Público não endossou o pedido da Polícia Federal de Moro, de invadir a casa de Batochio, a juíza concedeu uma invasão no prédio onde tem escritório, para recolher dados sobre visitas registradas.

Ao mesmo tempo, a Lava Jato tenta  recriar o clima de caça às bruxas como forma de constranger o Supremo Tribunal Federal (STF), que proximamente irá analisar a questão da suspeição de Moro no julgamento de Lula.

Peça 4 – desdobramentos

A ofensiva da juíza Hardt visou afrontar o Conselho Nacional de Justiça e o próprio Conselho Nacional do Ministério Público em um momento em que são pressionados a tomar atitudes contra as arbitrariedades da Lava Jato.

O resultado será o fortalecimento da Lei Contra Abusos de Autoridades e o enfraquecimento de projetos visando conferir autonomia à Polícia Federal. Afinal, como dar autonomia a um poder que não consegue controlar os esbirros autoritários de seus membros?

Ainda não caiu a ficha da parte saudável da Polícia Federal e do MPF sobre os prejuízos que essas arbitrariedades trazem às respectivas corporações.

A ofensiva da Lava Jato apenas acelerará as medidas de controle nas instâncias superiores. E demonstra que a operação perdeu o fôlego que tinha, em convocar manifestações e intimidar chefias.

Nas próximas semanas, continuará a desmoralização da Lava Jato pelo Intercept, de Sérgio Moro por Jair Bolsonaro, e de Bolsonaro por ele e filhos.

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20 comentários

  1. “Eu pago mais de 30% do valor sob tributos dessas palestras. Existe uma redistribuição de valores, e o fato de você ter que tratar isso por políticas públicas ou tributação, não impede, não torna imoral, algo que é bom para a sociedade.”…….
    1-Se formos levar a argumentação e raciocínio de Dalaninho a sério, podemos dizer, sem problemas, que o PCC e as Milicias são super bacaninhas……..eles também contribuem para redistribuir valores……..os chefes pagam os de segundo escalão, que pagam os do terceiro, que pagam os soldados, que sustentam as suas famílias… sem contar com a corrupção das policias e funcionários variados que recebem o “por fora”…..tudo gente popular…..resumindo: a pequena corrupção é altamente distributiva….
    2-Ontem de noite, na TV francesa, só deu Bolsocoiso/Brasil/Amazonia………Depois do gilets jaunes/coletes amarelos, para Macron, rentabilizar e passar por grande defensor da natureza, sendo que a questão ecológica, é o principal “côté gauche”(lado esquerda/progressista) de seu governo.Sem esquecer que o “saldo” do movimento gilets jaunes, são 11 mortos…….Macron nem nos seus sonhos mais loucos, imaginava melhor oportunidade para “ficar bem na foto”……. Mas como prudencia e caldo de galinha, não fazem mal a ninguém, seria sábio e ponderado, se generais ficassem com a boquinha bem fechadinha……Ontem mesmo o Gen Pujol nos saiu com essa:
    “Guerreiros astutos que patrulham os 16 mil quilômetros da nossa faixa de fronteira terrestre, nossos rios, campos, montanhas e florestas, garantindo a soberania do país. Aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem! Os soldados do Exército de Caxias estarão sempre atentos e vigilantes, prontos para defender e repelir qualquer tipo de ameaça”……..
    Discurso bonitão…..mas o problema é ir “pra guerra”, quando não se tem dinheiro nem para o almoço…….

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    • São uma piada, o único grupo armado que existe para oprimir o próprio povo e defender interesses estrangeiros…….

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  2. O jeito de reagir a tudo isso é adiar compras e reduzir o pagamento de tributos que sustentam essas catervas.

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  3. Deus te ouça, Nassif.
    Vi de forma positiva a vitória desse asno porque eu tinha certeza que Haddad seria derrubado e tinha a esperança que seria um governo de desgraças. Sendo assim, achava toda desgraceira tivesse um caráter pedagógico sobre o brasileiro. Que afinal, ele aprendesse a separar o joio do trigo. Se tem a coisa é lenta, porque, pelo meu convívio, os eleitores desse monstro continuam tão hipnotizados quanto antes.
    São idiotas, votaram num idiota e jamais vão admitir que foram feitos de idiotas.

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  4. Os mínions que conheço não estão comprando idéia de inimigo externo não, eles negam a existência de incêndio, dizem que as fotos são antigas ou que está havendo menos queimadas que nos governos passados. Que é tudo fake news

    Quem não acordou até agora não pode mais alegar que foi enganado…

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  5. os participantes desse conluio de parte
    do judiciário e da grande midia capitaneada
    pela globo – pig – têm medo de serem cada
    vez mais desmascarados e, por isso,
    tomam atitudes que revelam explicitamente
    as infamias que praticaram para arruinar o país….

  6. Os boçalnaros não calcularam essa lambança, não, Nassif. Eles não gostam da agenda ambiental porque pra eles é “de esquerda”, e pronto. Desmantelaram a estrutura de fiscalização do MMA, demitiram o presidente do INPE, e deram sinal verde pros fazendeiros desembestarem a tacar fogo porque agora nao tem mais politicamente correto nessa bagaça, nao; é bolsonaro nessa joça!

    Essa é a “logica” desse pessoal.

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  7. O fim do poço está próximo e depois é so rir, porque aí so podemos sair dele – jamais afundar mais. Tudo feito no passado, por um cara respeitado no mundo foi jogado no lixo. Dizer de Moro, Deltan Dallagnol e Bolsonaro o que? Dizer de quem apoia estes da ala militar o que? Nada! Porque se espremer saí o que? Dizer o que do ódio que São Paulo tem de LULA? Quem pode começar a nos tirar do buraco? Os outros países e a que preço?
    Perguntas que não acho resposta. Poderia fazer mais envolvendo os três poderes. So sei que estamos num país de quatro e nem a Venezuela se aproxima de como estamos. Dignidade não existe por aqui – estamos acabados, apenas umas pessoas que tentam trazer a tona a verdade, pela vaza a jato. Nunca vi isto e nem imaginei viver isto, nos meus 71 anos. Inacreditável! Um pesadelo sem fim! Um país acuado dentro do seu próprio território, sem forças e sem eco. Todos poderes batendo a cabeça , sem saber que caminha caminhar. Guedes desviando a atenção por uma CPMF que não será adotada, pois não existe espaço nesta caos. O que nos espera não é o melhor. Torço para que não se venda SOJA E NEM CARNE, pois vamos comer filé a dois reais, isto quem tiver dinheiro para comprar. A solução na mão – LULA mostrou o caminho – não viram ou não querem ver: o trabalhador é a mola mestre deste país é quem compra carro nacional, compra tv, viaja de avião, come, bebe e aplica o seu minguado dinheiro no país: coloca na poupança; O empresário e a classe “A” compram Mercedes e Ferrari, viajam a Paris para um almoço com a namorada, compram la fora, sonham com o país dos outros e aplicam seu dinheiro disponível lá; Temer usou o dinheiro do trabalhador, FGTS e PIS/PASEP E O GOVERNO ATUAL quer fazer para movimentar a economia, quando LULA usou e mostrou o caminho aumentando o salário do trabalhador, aumentou o salário mínimo: o mercado nacional é alto suficiente, como A CHINA que vendeu mais celular na China do que a USA no mundo: MERCADO INTERNO A SOLUÇÃO QUE REJEITARAM PORQUE NÃO PENSARAM NELE. O que dizer? A mim basta que o buraco chegue o mais rápido possível para sairmos dele o mais breve possível.

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  8. Se repete o modus operandi de Curitiba/EUA/CIA/Lavajato,eles verbalizam e executam e Globo amplifica ressoando para todo o país pretendendo pautar e criar todo um clima de intimidação/perseguição desviando a atenção do povo do que REALMENTE IMPORTA,nossa mídia é covarde,nossas Instituições são covardes e egoístas se acostumaram a viver pra sí e de aparências enganando todo o povo brasileiro !!

  9. O que estou assistindo ê que Sergio Moro esta conseguindo se safar de tudo o que tem sido revelado, com a ajuda luxuosa do grupo Globo, e ainda sera indicado ao Supremo como se comprometeu Bolsonaro ou saira candidato nas proximas eleições presidenciais. E ai podem ter certeza de que sera eleito não apenas pelos minions, como por boa parte dos conservadores tradicionais.

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  10. Não é um governo, é uma quadrilha…..e se tivéssemos um congresso com vergonha na cara, nada dessa máfia seria aprovado…..

    Já estão dilapidando as reservas, com a tal engenharia financeira….

    E eu ainda quero saber…..quanto foi economizado até agora com a maldita PEC da morte e para onde está indo o dinheiro?????

    Nenhum economista se interessa em saber?????????

    • Óia, quantas refeições por dia um soldado faz??

      Diria que aguentaria até o almoço e faltaria o jantar…..entao, um meio dia……..

    • Ataque? Que ataque? Hoje o “ataque” mais eficiente são as restrições do mercado internacional. O agronegócio vai falir se as queimadas continuarem. O mercado europeu e americano são extremamente rígidos com relação à qualidade e sustentabilidade……Esse é o melhor ataque

  11. Nassif,
    Diferentemente do acordo com a UE, o suposto acordo do Brasil com EUA é um embuste, simplesmente porque o Brasil não tem o que oferecer em contrapartida para os americanos.
    Nossa pauta de exportação é 100% de produtos agropecuários e o nosso maior concorrente no mercado internacional é justamente os EUA. Para que um acordo de livre comércio faça sentido economicamente é preciso que haja complementariedade entre o que cada parte tem a oferecer ao outro em termos de produtos e serviços. Essa condição existe no caso do Mercosul e UE mas o Brasil só tem a oferecer aos americanos aquilo que eles já produzem aos montes: soja, carne, milho e outros agroprodutos. O Brasil seu mercado para os americanos sem que eles nos deem nada em troca. Só eles vão ganhar.

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  12. Alguém me explica, por favor, o que se quis dizer com “Fornece a Bolsonaro o álibi para a melhor das guerras, uma guerra de retórica em que não haverá a possibilidade de se ter presidente deposto nem militar derrotado ou preso.”

  13. + comentários

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