7 de setembro – independência e democracia, por Tânia de Oliveira

O bolsonarismo apropriou-se dos símbolos nacionais como a camisa da seleção de futebol, a bandeira e as datas, na retórica de amor à Pátria

Brasília (DF) – 05/09/2023 – Vista da Esplanada dos Ministérios preparada para receber o desfile de 7 de setembro Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

7 de setembro – independência e democracia.

por Tânia Maria de Oliveira

O Brasil foi o último país da América Latina a proclamar sua independência. Em 7 de setembro de 1822 o país rompeu com Portugal, encerrando o domínio colonial que durava séculos. Metade da população começou a ser considerada brasileira, já que a outra metade era composta de estrangeiros na condição de escravos, portanto não reconhecidos como cidadãos.

Evidente que como todo fato histórico há uma disputa de narrativa a ser feita em torno da data, que deve ser observada de forma crítica. Se não se pode identificar com coerência histórica o evento a partir do quadro feito pelo artista Pedro Américo 50 anos depois dos fatos, alegoricamente impondo um Dom Pedro heroico sobre o cavalo branco no brado “independência ou morte”, tampouco é coerente desprezar a data como se não tivesse importância o rompimento de laços com o país colonizador.

Compreender a construção histórica que nos trouxe ao 7 de setembro implica buscar entender qual era a situação de Brasil e Portugal no início do Século XIX, mergulhar na leitura da efervescência política e os vários interesses presentes, inclusive da elite brasileira interessada na independência, com fortes influências europeias de diversas correntes.

O fato, por si só, da continuidade da monarquia com um Imperador português no trono é desabonador de uma história libertária. Assim como a manutenção da escravidão e dos privilégios dos proprietários de terras.

Contudo, não será questionando o feriado do calendário que daremos um passo adiante de ressignificação da data, sobretudo nos tempos atuais.

O bolsonarismo operou uma apropriação dos símbolos nacionais como a camisa da seleção de futebol, a bandeira e as datas, na retórica de amor à Pátria. O que, a propósito, é muito típico de regimes radicais de extrema-direita em âmbito mundial, que usam os símbolos como se representassem suas ideologias, ao tempo em que praticam atentados criminosos às instituições democrática, de que foi melhor exemplo o dia 08 de janeiro de 2023.

Com o tema Democracia, Soberania e União, o governo federal lançou uma campanha pela comemoração do Dia da Independência, usando as cores e os símbolos nacionais, o que tem significado importante para romper a lógica da associação aos apoiadores do ex-presidente.

A polarização política forjada em um patriotismo deturpado pode e deve ser desmascarada com manifestações concretas de que a identidade nacional não tem donos, não pode ter roupagem partidária ou política. O verdadeiro patriotismo se efetiva na defesa das instituições democráticas e da Constituição federal.

Tânia M. S. Oliveira é advogada, historiadora, pesquisadora e membra da ABJD. Secretaria-executiva adjunta da Secretaria Geral da Presidência da República.

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Tania Maria de Oliveira

Tânia M. S. Oliveira é advogada, historiadora, pesquisadora e membra da ABJD. Secretaria-executiva adjunta da Secretaria Geral da Presidência da República.

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