Com fé num futuro melhor eu fui, por Eliara Santana

Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante.

Com fé num futuro melhor eu fui

por Eliara Santana

Hoje se completa uma semana da posse de Lula para seu terceiro mandato. Como diz a música, por muito tempo esperei, o coração seguiu pulsando, e eu fui com fé num futuro melhor.

Eu sabia que seria de fato um momento histórico, importantíssimo, de muita emoção. Mas nem de longe esperava que fosse como foi. Pelo caminho até a Esplanada dos Ministérios, muita gente, muitos risos, muito choro (eu e a amiga Sandra Helena já começamos a chorar quando saímos do Uber), muita alegria, muita emoção, muitos encontros. O sentir estava represado, a alegria estava represada, os afetos estavam represados. Os últimos seis anos (desde o golpe) foram muito desanimadores; os quatro anos com Bolsonaro foram desesperadores, e o ano de 2022 foi enlouquecedor. Tudo de bom tava represado, mas ia se soltando ali, no caminho para ver a posse. Estávamos alegres, contentes, dávamos risada mesmo sob o sol escaldante de Brasília ao meio-dia. Todos pelo caminho iam conversando, falando da vida, falando do último ano, partilhando, rindo, como se todos nos conhecêssemos e fôssemos amigos. E era gente de todo canto deste país, de todas as cores e raças. Estava lindo.

Cheguei à Praça dos Três Poderes e, imediatamente, me lembrei do discurso da presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2016: “Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano”. Voltamos.

E pelos telões da Esplanada completamente tomada eu vi a subida da rampla do Palácio. E vi a ResistÇencia, a Alegria e a Esperança subirem a rampa junto com Lula, Janja, Lu, Alckimin e os que representavam o povo brasileiro.

Ao lembrar da resistência, e vê-la personificada pela cadelinha adotada por Lula e Janja, que recebeu esse nome na vigília, lembrei-me imediatamente da cadela Baleia, imortalzianda por Graciliano Ramos em Vidas Secas, e do seu delírio sonhador de um mundo cheinho de preás gordas. Lembrei-me também do conselho de dona Lindu ao filho: “Teime, Luiz. Teime”. Luiz teimou, e nós também.

Ao pensar na esperança, lembrei-me de como ela me alimentou e alimentou boa parte dos cidadãos brasileiro em momentos tão duros, tão difíceis, tão cruéis. E me lembrei de Paulo Freire e do verbo esperançar: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”. A gente esperançou. Esperançou muito. A cada manifestação, a cada mobilização nas redes sociais, a cada projeto pra falar do Brasil, a cada aula, curso, encontro… a gente esperançou. Esperança é combustível, é alimento.

E por fim, ouvindo o discurso de Lula no Parlatório e sua revolta com a fome no Barsil e sua disposição de fazer muito diferente e seu compromisso com as maiorias minorizadas, eu vivi a alegria, essa que também é resistência, potência de vida, como lembra Gilles Deleuze. Ali naquele gramado da Esplanada eu vi a alegria potência personificada nos rostos, nos risos, nos abraços, nas lágrimas, nos encontros, na emoção de uma Nação que renasce.

Sim, renasce. O que Bolsonaro e seu governo fizeram ao Brasil foi uma ação coordenada de destruição – de um projeto de Nação, dos recursos públicos, da saúde, da educação, dos estados e municípios, das minorias, dos cidadãos, da alegria. Corpos tristes era o que ele queria. Mas somos resistência e alegria e esperança. Subimos de novo a rampa do Palácio.

Nesta semana após a posse, foi a vez da emoção com os novos minsitros e o resgate do processo civilizatório. Silvio, Margareth, Anielle, Nisia, Haddad, Sônia, Marina. Pautas que retornam e que dizem respeito à vida, aos direitos humanos, à educação, à saúde, ao meio ambiente, ao combate à desgraça da fome. Pautas que dizem respeito à vida, à diversidade, à pluralidade.

Há, sem dúvida, um caminho gigante a ser trilhado – o governo é de coalizão, o que implica abrigar nomes e perspectivas não muito alvissareiras. Mas, na resistência, impusemos uma grande derrota à pulsão de destruição do bolsonarismo e temos um país a reconstruir. Isso deve ser celebrado. Com muita alegria.

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Eliara Santana

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Ela é pesquisadora do Observatório das eleições (INCT IDDC UFMG) e pesquisadora colaboradora do IEL/Unicamp. Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil.

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