O calibre de uma farsa, por Matheus Cintra

Sem qualquer projeto de governo, logo restou evidente que a criação do mito necessitava de alimentação constante e diária, movida por robôs e robotizados.

O calibre de uma farsa

por Matheus Cintra

Efeito direto do golpe de 2016, a eleição do atual mandatário da República somente se deu pela criação midiática do ódio ao PT, o Partido dos Trabalhadores, após conquistas sociais iniciadas pelo governo Lula em 2003 e que desagradaram o resquício financeiro e econômico do País, dono dos meios de comunicação em massa. Foi dessa forma que a distribuição de renda que auxiliou milhões de pessoas com o Bolsa Família restou noticiada como incentivo ao ócio; as cotas sociais em faculdades públicas tornaram-se barreiras injustas aos estudantes de colégios particulares e cursinhos abastados; as cotas raciais foram atacadas como entrave à meritocracia da nata social, para citarmos poucos casos que calam na memória de todos.

A eleição de 2018 colocou em destaque o submundo da sociedade que escolheu o candidato vencedor por tê-lo como espelho moral: vulgar, ególatra, inescrupuloso, recalcado, mesquinho, entre tantos adjetivos bem colocados por Ruy Castro na Folha de São Paulo, edição do dia 28 de janeiro de 2021. Sem qualquer projeto de governo, logo restou evidente que a criação do mito necessitava de alimentação constante e diária, movida por robôs e robotizados. A arma da desinformação propagou-se como um rastilho de pólvora em grupos de Whatsapp e mensagens do “Face”, ferramentas descobertas por uma leva de pessoas que até então sequer se interessariam em utilizá-las para os fins normais de comunicação que se prestavam. Idosos, senis, alienados sociais, todos municiados com “memes”, “fakenews” e frases de efeito ruminavam dia e noite as promessas do Messias e sua aura mágica de combate ao comunismo e em defesa da família brasileira.

Para justificar seu ideário vazio, buscaram utilizar a técnica da reescrita da história como assim fizeram os militares na mesma posição em 1964. Para estes, não houve um golpe de estado contra Jango, mas uma contrarrevolução (seja lá o que isso queira significar); dizem que não houve notícia de corrupção no governo, embora os jornais estivessem em constante censura. Mas os fatos não podem ser apagados. Em contradição a todos os discursos da época, a economia brasileira mingou ao seu pior estágio, a inflação era contada a galope, os privilégios sociais criaram e alimentaram a distinção entre cidadãos de primeira e de segunda categoria.

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Na atualidade, massificada a informação e sem qualquer filtro legítimo de controle de conteúdo, e embora tenha sido expulso do exército e chamado de “mau militar” pelo General Geisel, o atual presidente alimenta um vínculo indissociável com a caserna, como a lhe avalizar um verniz de retidão e prontidão moral, o que se sabe ser completamente falso. Quanto sua hombridade, se diz defensor da “família tradicional”, uma qualidade sem qualquer aplicação sobre si, estando no terceiro casamento e perante a comunidade evangélica, o que dispensa a anulação de uniões anteriores. E aqui não se mostra crítica a variedade de casamentos que qualquer pessoa possa assumir. Vinícius de Moraes, por exemplo, casou-se nove vezes. Todavia, jamais se ouviu do poeta dizer-se uma pessoa defensora da moral e bons costumes, o que não reduz uma vírgula sua obra. O que maltrata é o falso moralismo, o uso político de vestes sacramentais por quem da missa não sabe um terço.

No campo da política, embora se propague imensa multidão de seguidores, tentou arregimentar sua milícia, sua real natureza, capitaneando fragorosa derrota na criação de um partido político declaradamente fascista, escolhendo o seu número eleitoral como o 38 em clara referência ao calibre de arma de fogo, o conhecido “três-oitão” dos militares de pijama e das bocadas do tráfico. Para tanto, e tentando negar sua natureza miliciana, colocou-se como o trigésimo oitavo Presidente da República, mais uma vez, com distorção dos fatos históricos, fazendo constar o erro na Wikipedia, que contabiliza duas vezes Getúlio Vargas como Presidente, outras duas Ranieri Mazzilli (2 mandatos interinos como Presidente da Câmara dos Deputados, embora tenha assumido o encargo por seis vezes nas mesmas condições), colocando Luiz Inácio, Fernando Henrique e Dilma Rousseff apenas uma vez cada no exercício de Chefe do Executivo, encaixando, com esse malabarismo de números, a colocação do atual mandatário.

A verdade é que, embora sonhe em ser o .38 dos seus eleitores, Bolsonaro não passa de um .22. Essa é a legenda do seu partido atual, o Partido Liberal – PL (mas ele não é conservador?), cujo “proprietário” é ninguém menos do que Valdemar da Costa Neto, um dos poucos políticos condenados por corrupção no País e que se encontra sem mandato, pois inelegível. O PL faz parte do que se denomina Centrão, aglomeração de partidos sem ideário primário, uma grande massa de manobra no Parlamento que se move em busca do borbotões de quem lhe paga mais verba pública. É mesmo Centrão embalado por títeres do Presidente em paródia: “se gritar pega Centrão não fica um, meu irmão!”. A redução do calibre do inominável merece mais aperto, até a sua total eliminação e devida classificação como o número 5: o quinto da família a ser preso e condenado por seus crimes.

Matheus Cintra, advogado e membro da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD.

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