Ação afirmativa em uma sociedade em ebulição

Olha que fantástico essa matéria do Los Angeles Times! Mostra a sociedade norte-americana passando pelo mesmo processo da brasileira (e da europeia).

Primeiro, a ascensão das novas classes sociais (no caso norte-americano, dos negros). Depois, a insegurança das classes do topo da pirâmide. Finalmente, a constatação da inevitabilidade da ascensão das novas etnias (EUA e Europa) e das novas classes sociais. O embate do velho com o novo, precisando ser administrado.

Não sei se o tempo da ação afirmativa (nos EUA) acabou ou não. Mas é sintomático. Haverá um momento em que se consolidará a atual etapa de inclusão sócio-racial. E os países ingressarão em um novo patamar civilizatório com novos problemas.

Do Estadão

Acabou-se o tempo da ação afirmativa

É necessário achar novos meios de acabar com a desigualdade sem criar novas divisões ou aprofundar as existentes

08 de agosto de 2010 | 0h 00

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Gregory Rodriguez / Los Angeles Times – O Estado de S.Paulo

Ao longo de seus 50 anos de existência, o maior golpe sofrido pela ação afirmativa foi a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos. Não por Obama ser contra esta política (como em relação a tantos outros temas, o apoio do presidente tem distinções, ou seja, ele acredita que a ação afirmativa deve existir, mas não quer que suas filhas sejam beneficiadas por ela), e sim porque sua eleição foi amplamente vista como reflexo de uma profunda mudança no equilíbrio racial do país.

Acredito que a tendência sociodemográfica mais significativa e potencialmente perigosa da próxima década não será a imigração, e sim a ansiedade racial branca. A combinação entre mudanças demográficas e vitórias políticas simbólicas por parte dos não-brancos vai inspirar nos brancos uma maior consciência racial, uma crescente sensação de estar sob cerco e pedidos mais estridentes para que seja encerrada a ação afirmativa, ou então para que eles, brancos, possam ser incluídos nela.

Estou tão convencido disto que, na minha opinião, para evitar uma reação destrutiva por parte dos brancos diante de uma sociedade em acelerado processo de diversificação, o presidente deveria fazer campanha pelo fim da ação afirmativa. Em termos não muito diferentes da viagem de Richard Nixon à China, Obama encontra-se, em virtude de seu contexto racial, afiliação partidária e temperamento político, numa posição mais favorável do que a de qualquer outro político para realizar tal tarefa com alguma habilidade.

Idealmente, as medidas públicas consistem na arte do possível, como a política. Independentemente de suas boas intenções e resultados, os benefícios de toda medida pública devem superar claramente seu custo social. Quando a ação afirmativa foi estabelecida, seu objetivo era beneficiar uma pequena porcentagem da população americana, mas conforme o alcance e os princípios do programa evoluíram, aumentou também o número de pessoas incluídas nele. A imigração em larga escala posterior a 1965 também complicou a equação e finalmente distorceu o cálculo político que tornou a ação afirmativa politicamente viável.

Por meio de um plebiscito realizado em 1996, a Califórnia tornou-se o primeiro Estado americano a abolir as leis de ação afirmativa na educação e nos contratos públicos. O motivo disto não foi uma atitude mais negativa dos eleitores brancos – cuja imensa maioria apoiou a medida – em relação às minorias. Nem se deveu ao fato de eles serem mais comprometidos com a igualdade e a absoluta irrelevância da cor de pele do que os anglo-saxões de outros Estados. Isto ocorreu na Califórnia simplesmente porque as minorias estavam se aproximando rapidamente da marca de 50% da população, e os brancos sentiram que logo estariam em desvantagem neste jogo.

Há provas concretas de que os brancos sejam prejudicados pela ação afirmativa? Não. No decorrer de quatro décadas do programa, a formação educacional média dos brancos avançou. E os brancos ainda compõem a grande maioria dos funcionários do governo federal. Será que negros e latinos atingiram um patamar de igualdade com os brancos em se tratando de emprego e renda? Longe disso. Na verdade, nesta recessão, a diferença entre o número de brancos e negros com empregos de bom salário tornou-se a maior dos últimos dez anos.

Desvantagem. Mas tais dados dificilmente poderão mudar a crescente percepção entre os brancos de que eles estão cada vez mais em desvantagem. Nos tribunais, o número de casos de brancos queixando-se de terem sido alvo de discriminação está aumentando, e tornam-se cada vez mais comuns os lamentos de vitimização de uma minoria branca. E isso não emana apenas dos nacionalistas brancos.

O colunista conservador Ross Douthat, do New York Times, argumentou que a cultura de ação afirmativa entre as universidades de elite não está apenas tirando dos brancos pobres a chance de receber educação superior de qualidade, mas também alimentando “teorias da conspiração de matiz racial”, como as que sugerem que o presidente é um comunista nascido no estrangeiro.

O senador democrata Jim Webb, conservador da Virgínia, publicou um editorial no Wall Street Journal defendendo que um grande número de brancos encontra-se em situação tão difícil quanto a das minorias, que só é agravada pela ação afirmativa.

Os pedidos pelo fim da ação afirmativa só vão ganhar força conforme o restante dos Estados Unidos tornar-se cada vez mais parecido com a Califórnia. Enquanto os brancos passam a ser a minoria num número de Estados cada vez maior, eles tentarão proteger aquilo que consideram ser seu interesse próprio, ou então serão seduzidos pelo canto de sereia da vitimização das minorias que cativou outros grupos. Ou talvez ambas as coisas.

Na minha perspectiva, podemos escolher entre pôr fim a tais programas o quanto antes e reduzir a dor, ou sofrer no futuro as consequências de uma batalha muito mais brutal e divisória. Já é difícil o bastante conviver numa sociedade diversificada. Não precisamos das tensões raciais adicionais criadas por um racismo institucionalizado. O que precisamos é encontrar novas maneiras de combater a desigualdade sem criar novas divisões nem aprofundar as existentes. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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