A presença de Aron, por Daniel Afonso da Silva

Como jornalista, professor e ensaista, ele marcou fundo o pensamento francês, europeu e mundial da segunda metade do século

Aron Raymond – Mémoires de Guerre

A presença de Aron

por Daniel Afonso da Silva

Aquela tarde parisiense do outono de 1983 parecia trivial. Simplória, úmida, leve. Normal. Como qualquer outra. E, a rigor, foi. Era o dia 17 do mês de outubro do ano de 1983. Um julgamento seguia em curso no Palácio de Justiça da capital. O diplomata Bernard de Jouvenel se defendia uma acusação caluniosa. Zeev Sternhell o havia alcunhado de fascista e um juiz, em lugar de dispensar a aleivosia, abraçou a denúncia que se transformou num processo imenso e desgastante, agora, ouvindo testemunhas. Pela expressividade dos envolvidos – denunciante e denunciado – as testemunhas eram de valor. Algumas notáveis, outras notórias, algumas ilustres e muitas notáveis, notórias e ilustres.

A testemunha daquele dia reunia todos esses predicados. Tratava-se de Raymond Aron, às voltas dos seus 78 anos e no auge do reconhecimento público. Ele ia se afirmando como o intelectual francês mais expressivo de seu tempo. Por conta disso, parte importante do mundo cultural francês se mobilizou para vê-lo no Palácio de Justiça. Mesmo sem acesso ao Palácio, imaginavam vê-lo pessoalmente na saída. Queriam um olhar, quem sabe um sorriso e, porque não, um autógrafo em algum exemplar de sua mais de meia centena de livros.

Esguio e vivaz, Raymond Aron tinha visto e anotado tudo daquele século XX que ia se fechando em suas costas. Como jornalista, professor e ensaista, ele marcou fundo o pensamento francês, europeu e mundial da segunda metade do século nos campos da filosofia, sociologia, política e análise de conjuntura. Ninguém com alguma cultura passou por ele indiferente depois da Segunda Guerra Mundial.

O seu testemunho em defesa de Bernard de Jouvenel, pelo que disseram os presentes, foi radiante, singular, exemplar. Seus argumentos eram, sim, em favor de um amigo. Mas também ensejavam um reencontro seu com o compromisso moral com a verdade de fatos históricos.

Finda a sessão, todos – testemunha e acusado – se separaram. Cada um seguiu seu caminho. Não havia nada se comemorar. O veredicto seguia em construção. Bernard de Jouvenel foi para um lado. Raymond Aron, para outro. Ambos absortos em pensamentos. Muitos, talvez, vazios. Defender-se ou testemunhar em favor de alguém quase nunca não é sinônimo de perda de tempo. Especialmente para pessoas ocupadas como eram os dois. O acusado, mesmo convicto de sua inocência, sempre deseja um fim rápido. A testemunha, mesmo convencida da inocência do amigo, sempre deseja ter sido ao menos convincente diante do inquiridor.

Bernard de Jouvenel saiu primeiro e seguiu pelas ruas caminhando. Raymond Aron o seguiu logo em seguida, mas ficou bloqueado no assédio generalizados de todos os presentes do lado de fora do julgamento. Entre o assédio e a ovação, Raymond Aron recebeu seu golpe fatal. O pior de toda a sua vida – que foi repleta de golpes fatais. Mas desta vez veio de dentro. Seu coração parou. Um infarto o ceifou em público, à luz do dia, sem avisar nem dar tempo para despedidas.

A notícia da tragédia foi se espalhando pouco a pouco. Muitos órgãos de imprensa noticiaram o incidente em tempo real pois acompanhavam a presença de Raymond Aron no Palácio de Justiça. Os jornais vespertinos conseguiram atrasar a sua impressão para adicionar notas de pêsames. Os programas televisivos se apressavam em conseguir as melhores cenas, os melhores intérpretes, os melhores companheiros de Aron para ofertar algum bom testemunho.

Não tardou esse aturdimento chegar ao exterior. Personalidades e anônimos alemães, ingleses e norte-americanos se anteciparam em enviar condolências. Henry Kissinger, amigo e admirador do mestre francês, desde os Estados Unidos, encabeçou a lista. John Kenneth Galbraith veio longo em seguida. Claude Lévi-Strauss, seu colega no Collège de France e um dos luminares da época, enviou um artigo do Figaro informando que a França perdia ali o último “professor da higiene intelectual dos franceses”.

Raymond Aron – como o general De Gaulle – foi longamente desprezado no debate público francês. Seu posicionamento liberal contrastava com o maoismo claudicante de Jean-Paul Sartre e com o esquerdismo ambiente dos meios culturais. Seus argumentos sempre tiveram mais eco fora do hexágono. As grandes universidades francesas o acolheram somente depois dele ser acolhido pela intelligentsia mundial. Sorbonne, Sciences Po, Collège de France foram seus espaços universitários comuns na França. Mas o seu habitat rotineiro sempre foram as redações de jornais e as editoras de livros. Tudo isso tornou a sua vida ainda mais espetacular.

Nos anos de 1930, ele viu nascer o nazismo na Alemanha. Em 1940, ele presenciou o desaparecimento de frações importantes de uma França eterna, da Revolução e dos Direitos do Homem e do Cidadão. Frente ao marechal Pétain da capitulação e o governo de Vichy, ele partiu para Londres com o coronel De Gaulle. Foi engrossar as fileiras do movimento pela France libre. Depois da guerra, ele voltou à França e a Paris. A partir de 1947, ele rompeu completamente com visões esquerdistas e notadamente comunistas. Em 1958, ele apoiou a independência da Argélia. Dez anos depois, ele condenou “aqueles rapazes” que agitavam as ruas da França no famigerado maio de 1968. Indicou que seria humilhante para toda a nação francesa a derrubada do general De Gaulle em favor de Daniel Cohn-Bendit.

Por essa sua postura contrária a maio de 1968, ele foi inserido num certo index francês, virando um Lázaro, quando leproso.

Entretanto, a sua leitura de maio de 1968 era mais de temor que de qualquer outra coisa. Ele acreditava que 1945 e a derrota de Hitler, do nazismo e do fascismo haviam vencido apenas uma batalha contra a monstruosidade humana. O trágico na vida e o trágico na História, entendia, sempre poderiam remoçar. E nas escaramuças de maio de 1968 ele anteviu esse remoçar.

Poucos se dedicaram tanto à compreensão do trágico na vida e do trágico na História que ele. Não ao acaso, após 1945, ele se dedicou diuturnamente a assuntos nacionais e internacionais envolvendo os reflexos das guerras totais. Muito de sua percepção complexa disso tudo foi imortalizada em seu monumental Paz e Guerra entre as nações. Nesse livro, ele construiu um enquadramento e uma hierarquização do mundo onde, acima de tudo, existe o sistema internacional. Em seguida, os estados interagindo nesse sistema internacional. E, por fim, sociedades interagindo no interior de estados.

Maio de 1968, em sua apreensão, era essa sociedade subvertendo as normas morais do estado francês construído a duras penas e fragilizando a interação da França com o resto do mundo. Nisso tudo residia o seu temor. Pois parecia que abria brechas para trágico voltar.

Em 1983, quando de seu último suspiro, essa sua avaliação ainda parecia demasiado obscura e distante. Vivia-se a presidência do socialista François Mitterrand. Um típico nostálgico da moda antiga. Goste-se ou não, um estadista. Um homem de estado aos moldes do próprio general De Gaulle. Mas, sobretudo, um apaziguador. Quarenta anos depois, no entanto, dia após dia, a avaliação de Aron foi virando premonição, confirmação, pesadelo.

O fim do bloco soviético, a hiperpotência norte-americana, o 11 de setembro de 2001, o mal-estar no Oriente Médio, a crise financeira de 2008, o mal-estar da Primavera dos Árabes, a desunião europeia, o Brexit, Donald J. Trump, a post-truth, Jair Messias Bolsonaro, a pandemia, a desgraceira russo-ucraniana na Eurásia, o mal-estar israelo-palestino, a virtual vitória de Javier Milei na Argentina. Tudo parecia previsto por Aron. Trata-se de um trágico anunciado pela reviravolta interna de sociedades no interior de estados. O império de relativizações inaugurado por maio de 1968 suscitou um império impressões. Esse império permitiu o retorno fulgurante do trágico. Um trágico espelhado naquilo que se viveu nos anos de 1930. Um trágico antecipado por Aron e que informa que a atualidade de Raymond Aron quarenta anos depois de seu silêncio.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

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Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de "Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas". [email protected]

1 Comentário

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  1. Então o Raymond Aron bota o Nostradamus no chinelo, mesmo ignorando que os fatos e personagens importantes da história ocorrem, por assim dizer, duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa.

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