Esqueçam Goebbels, o PIG é um produto “made in Brazil”

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Aqui mesmo no GGN vi um artigo interessante sobre a gênese nazista do PIG (Os 11 princípios de Goebbels e o caso brasileiro). A interpretação é plausível, mas não conseguiu me convencer. Creio que não é preciso ir à Alemanha de Goebbels para encontrar a origem dos princípios referidos no texto. Muitos deles  foram extraídos da História do Império Romano e chegaram ao Brasil com os colonos portugueses:

1.- Principio da simplificação e do inimigo único

Os romanos chamavam de “bárbaros” todos os povos que viviam nas “terras incógnitas” (além das fronteiras). Eles eram desprezados e, desde Políbio, deveriam ser civilizados, romanizados por Roma. 

Cá chegaram uns colonos portugueses que descendiam de tribos lusitanas reduzidas à submissão por Roma que foram se misturando aos soldados romanos enviados para a Lusitânia. Eles tratavam centenas de povos por “índios”, muito embora não estivessem na Índia. Os costumes destes povos eram desprezados, as diferenças entre eles eram irrelevantes. Como os “bárbaros” europeus 15 séculos antes, os “índios” deveriam ser submetidos, civilizados ou exterminados.

2.-Princípio do contágio

Os romanos temiam o contato com os “bárbaros” e só se sentiam seguros quando eles eram romanizados. Os colonos portugueses detestavam os “índios” e muitos dos seus descendentes, que tem ancestrais indígenas, seguem odiando o “índio” que não aceita a civilização brasílica.

3.-Princípio da Transposição

Transladar todos os males sociais a este inimigo. O mal não estava no fato de Roma matar e escravizar os “bárbaros” e sim no fato deles colocarem em risco a civilização romana. O mal não estava na colonização ou nos colonos portugueses e sim nos habitantes originais de Pindorama.

4.-Princípio da Exageração e desfiguração

Se um bárbaro matava um romano isto era um genocídio que justificava genocídios. Se um índio matava um colono toda a tribo merecia ser exterminada. Foi o que ocorreu com os Caetés que devoraram Dom Pero Fernandes Sardinha. 

5.-Princípio da Vulgarização

É perceptível a forma diferente como Tito Lívio trata os romanos e seus contrários. Os cartagineses, por exemplo, são descritos como “pérfidos”, “incivilizados”, “sedentos por sangue e ouro”, ao passo que os romanos defendem os direitos de Roma e propagam a civilização romana e foram injustamente combatidos. A guerra foi declarada por Cartago e não por Roma, muito embora Sagunto (cidade cuja disputa acarretou a II Guerra Púnica) estivesse em território cartaginês e não romano.

O mesmo padrão pode ser visto nas crônicas antigas. Os pobres colonos são descritos como vítimas de índios bravios que montavam emboscadas, utilizavam flechas envenenadas e queimavam pimenta para envenenar o ar que os civilizados respiravam antes de atacar.  

6.-Princípio da Orquestração

Os romanos eram especialistas em divulgar boatos para justificar o recrutamento de exércitos entre os plebeus. Os portugueses que cá chegaram faziam o mesmo para recrutar tropas auxiliares entre os índios.

7.-Principio da Renovação

Julio Cesar sempre usou despachar correios para Roma a fim de que seus feitos na Gália e na Espanha fossem conhecidos e louvados. Os comunicados sempre davam conta da magnanimidade de César e das dificuldades que ele encontrava para submeter a Gália e a Espanha à Roma. Os portugueses também tinham seus correios e intensificavam as notícias sobre índios bravios e negros fugidos para justificar expedições punitivas a fim de conquistar territórios desejados.

8.-Princípio do Verossímil

Os pares perfeitos de opostos são uma constante do processo de civilização de matriz romana que cá chegou com os colonos portugueses:

Romano = civilização = verdade // Bárbaro = incivilização = perfídia/falsificação

Colono = civilização = verdade // Índio = incivilização = perfídia/falsificação

9.-Principio do Silêncio.

Ocultar toda a informação que não seja conveniente. Roma ocultava os males do vinho quando introduzia o produto nas tribos que desejavam viciar e submeter. Os colonos ocultavam os males da cachaça que distribuíam fartamente entre os índios e os negros para mantê-los cativos ou dependentes.

10.-Principio da Transferência

Potencializar um fato presente com um fato passado. Sempre que se noticia um fato se acresce com um fato que tenha acontecido antes. As agressões sofridas por Roma sempre justificaram as novas guerras romanas. As agressões sofridas pelos colonos sempre justificavam as novas agressões contra novos índios.

11.-Princípio de Unanimidade

Este é o único princípio moderno que pode ser atribuído a Goebbels, pois para Roma e para Portugal a unanimidade diante do “bárbaro” e do “índio” só podia ser conseguida mediante a submissão ou extermínio. 

O PIG não é um produto tardio importado da Alemanha Nazista. Ele foi construído a partir das referências culturais entranhadas na própria História do Brasil. Ignorar sua origem brasílica é parte do problema, pois não se pode destruir algo que não é reconhecido como próprio da nossa identidade cultural. 

6 Comentários

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Calvin

- 2015-08-03 14:37:09

PIG é produto de blogueiro racista, só isso

A não ser que se ache que a The Economist, o FMI, o STF e a realidade façam parte da fantasia....

Fábio de Oliveira Ribeiro

- 2015-08-03 00:03:07

Argumento racional não é o
Argumento racional não é o seu forte. Ataques pessoais também não. Você não consegue ser interessante, inteligente ou irônico. Suponho que voce faça parte de una nova elite, a elite dos medíocres.

[email protected]

- 2015-08-02 21:15:12

Mas que por lá não são

Mas que por lá não são considerados. É o eterno dualismo: odiar ser brasileiro, mas aqui sentir-se superior; adorar o estrangeiro, mas por lá sentir-se inferior.
Infelizmente, acabam por aqui ficando e cevando-se, mas eternamente amaldiçoando a terra que tudo lhes dá.

joão adalberto

- 2015-08-02 20:04:37

Colunistas

Não resisto de comentar sobre a qualidade jornalística deste post. Mas o autor talvez não seja jornalista, daí comentaria uma injustiça em compará-lo aos profissionais da mídia tradcional.De qualquer forma, lendo-o vem a memória a indefectível pergunta: e daí? daí, nada.

Álvaro Noites

- 2015-08-02 18:29:45

Inserido nisto está o
Inserido nisto está o viralatismo, que faz com que nossa elite sinta-se europeus anglo-saxões que, por acidente, cá nasceram.

Jose de Almeida Bispo

- 2015-08-02 18:15:44

Ei... o manual das práticas

Ei... o manual das práticas nazistas foi copilado a partir do dos jesuítas no Brasil. Tudo que você diz aí é certo; só que não precisava ir tão longe! rsrsrsrsrsrsrsrs

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