O liberalismo da The Economist

Sabe que estás certo? Não se pode acusar a The Economist de incoerência. Por outro lado, mesmo quando ela falava bem da economia do Brasil, eu a criticava.

The Economist é liberal, no sentido inglês da palavra. Stuart Mills, Adam Smith, muito mais do que Keynes e a Sociedade Fabiana. Ou seja, quando falava bem do Brasil nas últimas reportagens era sempre no sentido de elogiar as coisas que, no entender de quem é mais desenvolvimentista, foram os pontos fracos do governo Lula. Essa revista sempre falou do governo atual no sentido de continuidade do governo FHC: o bom era Meirelles, Palocci.

Quando falas, em outro comentário, que a economia não vai bem por causa dos juros mais altos do mundo, e que o déficit comercial e câmbio apreciado ameaçam a economia, estás certíssimo, concordo contigo em número, gênero e grau. Mas a The Economist não concorda: para o pensamento econômico liberal, vantagem absoluta, controle de capitais, política de desenvolvimento industrial e estado de bem-estar social são anátema.

TantTanto é assim que a reportagem – ao menos a parte que se repercutiu aqui – não menciona juros, déficit comercial, câmbio ou política tributária. Ela escreve para seus clientes, a fina flor do financismo internacional, e não pensa no desenvolvimento do estado brasileiro. Assim, suas prescrições têm de ser analisadas à luz do público-alvo e da tradição (neo)liberal da revista. Ela prescreve exatamente o que seria o sonho do mercado: corte de gastos públicos para reduzir o déficit e enxugamento dos benefícios adquiridos. Por ela, e por seus leitores, o melhor é que os juros fiquem lá em cima, tanto que não é surpresa quando alguém escreve nela defendendo justamente isso.

The Economist não precisa, e nem deve, bajular o Brasil. Porém, não podemos aceitar a crítica dela sem nós mesmos criticá-la. A linha editorial da revista é corajosa e coerente (ela não teve receio algum de publicar, por ocasião de Abu Ghraib, a capa com o preso iraquiano sendo torturado e a vinheta “Demita-se, Rumsfeld”), mas isso não significa que seja correta ou diagnostique com precisão as mazelas políticas e econômicas do Brasil. Afinal, realmente achas que manter Meirelles e pôr Palocci de volta na Fazenda são coisas de que o Brasil precisa, como quer a revista?

Não por outro motivo que a Carta Capital, embora tenha acordo de reprodução de material da The Economist, raramente escolhe matérias de cunho econômico – que se chocam com a linha da própria Carta – para traduzir, e prefere se ater à política internacional e à tecnologia. Da Carta, e do Nassif, e de outros, vem uma crítica menos comprometida com interesses financeiros e que prescreve uma receita com mais chances de atender às necessidades da economia brasileira, no interesse do povo brasileiro e não do mercado: a velha cantilena de taxação progressiva e simplificada, fim à guerra fiscal entre os estados, juros baixos, controle de capitais, desvalorização controlada do real e bloqueio à especulação. Nenhum dos quais interessa à The Economist.

Eu sei que deve te irritar a marcação cerrada que o pessoal faz aqui à imprensa que senta pau no governo, mas em boa parte dos casos isso se deve à percepção de que não se trata de uma crítica honesta e descompromissada, ao contrário: assim como a Globo não pensa em liberdade de imprensa quando critica o PNDH-3, a The Economist não pensa no desenvolvimento econômico sustentável do Brasil quando exalta Palocci e critica os gastos públicos – com o sindicalismo de bode expiatório e Satã da vez – do governo com o social.

Afinal, que outro propósito a matéria da revista pode ter que não o de tentar vocalizar os interesses dos leitores, brasileiros e estrangeiros, que representam o mercadismo especulativo que acaba de quebrar a Europa e mergulhar os Estados Unidos em recessão, na esperança de pressionar Dilma e aliados a manterem o céu de brigadeiro para o financismo no Brasil? Por isso o título da postagem do Nassif: o que a The Economist quer, muito provavelmente, é semear o terrorismo na esperança de evitar que algum desenvolvimentista keynesiano vá parar na chefia do BC, do BNDES, da Casa Civil ou da Fazenda. Ou seja, eles querem ajudar Palocci e Meirelles a vencerem o cabo-de-guerra com Mantega e Barbosa.

Pelas tuas preocupações com juros e déficit comercial, presumo que estejamos torcendo pelo mesmo lado nessa fase de transição. Só que não é o lado da The Economist. Não vejo por que deverias defendê-la.

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