A inclusão dos alunos com necessidades especiais é irreversível

Por Sônia Aranha

Comentário ao post “Como a educação inclusiva enfrentou o preconceito e as Apaes

Luis Nassif, que assunto espinhoso é esse!

Mas suas informações e análises são claras e precisas e precisam ser divulgadas.

A inclusão é irreversível, as pesquisas apontam que as crianças são favorecidas quando inseridas em cursos regulares e minha experiência enquanto diretora de escola que fui também diz que sim. Há a plasticidade do cerébro que, na interação com o Outro, levando a mediação dos conhecimentos, provocam o desenvolvimento e os avanços.

É fácil o trabalho pedagógico? É fácil atender a acessibilidade do espaço físico para todos, a convivência com o diferente?

Não. Não é.

Mas estamos na escola para estudar, pesquisar e encontrar soluções para uma aprendizagem personalizada, porque cada criança é uma e possui a sua especificidade.

Conto-lhe, a título de exemplo, que recebi um aluno na escola para matricula,  em 2001 com 11 anos, sem nunca ter estudado em escola regular, vindo da Pestalozzi, com diagnóstico de lesão cerebral moderada e segundo a mãe, quando no ato da matrícula, seu comprometimento era restrito a coordenação motora dos membros superiores e inferiores. Dedos com pouca articulação, pernas sem articulação, enfim… Estávamos em 2001 e a questão da inclusão e a questão da acessibilidade ainda estavam engatinhando.

Primeiro movimento que tivemos era o de dar condições para que ele pudesse se deslocar no espaço, pois não dobrava o joelho para subir degraus, quanto mais escadas.

Fizemos rampas, barras de apoio nos banheiros, enfim… adequamos o espaço.

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Ele foi matriculado na antiga 1ª série do ensino fundamental de 8 anos. Durante o processo de ensino/aprendizagem percebemos que havia um comprometimento cognitivo. Pouco falava e sua idade mental era de 5 anos, pois não conservava quantidades, volumes , dentre outros.

Um ano ficamos analisando, pesquisando e trocando informações com outros profissionais. Neste primeiro ano ele sequer aprendeu o traçado das letras, porque havia o comprometimento da coordenação fina.. de modo que pegar em um lápis era muito difícil quanto mais escrever com ele. Números nem pensar.

E o que fazer?

Percebemos que ele gostava das aulas de informática e daí veio-me uma luz: a de alfabetizá-lo com o teclado do computador em detrimento do lápis e do caderno. O teclado facilitava e muito porque com apenas um toque ele conseguia escrever de forma legível.

Assim ele seguiu para o 2º ano, laptop não era de uso comum, de modo que tivemos que deslocar um computador para sala de aula para que fosse o seu material didático. E o professor adaptou o Plano de Trabalho do ano para a especificade dele. Isto significa dizer que os conteúdos programáticos eram dados de forma geral, mas para ele a exigência estava dentro de sua capacidade real.

Então, o ensino é junto com todos os demais, mas sem apagar a diferença, porque ele tinha uma especificidade dada pela lesão cerebral. Por alguns anos foi atendido pela  Pestalozzi no contra-turno, mas depois não houve mais necessidade deste atendimento.

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Todos os anos ele foi promovido porque avançava dentro dos objetivos que foram traçados de modo específico para ele. E assim ele chegou até a 8a série ,concluindo o ensino fundamental com 19 anos e seguindo para o Ensino Médio.

Era irreconhecível após os 9 anos de estudo de forma integrada com os demais alunos, pois o avanço do desenvolvimento intelectual, motor e afetivo eram notórios, propriciados pela aprendizagem. Segundo Vygotsky o aprendizado, mediado pelo Outro, alavanca o desenvolvimento. É um fato.

E ele não foi um caso isolado nesta escola que postulava a inclusão. Uma escola particular, mas com parcos recursos, atendendo pais da classe trabalhadora.

Família, escola e outros profissionais podem promover avanços em escolas regulares, é possível. O que não exclui a participação das outras instituições como APAes que devem e podem orientar as escolas regulares, assumindo o contra-turno, com vistas inclusive ao convivio social , e no atendimento dos casos impossíveis de serem bem assistidos na instituição de ensino regular. Penso que deste modo atingiremos um avanço enorme, assim como reconheceu D. Jô.

De maneira que concordo plenamente com a sua rica explanação.

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6 comentários

  1. Sonia, mas muuuuuito obrigado por contar sua experiência!

    Como pai de um jovem de 20 anos, com TDAH de nível elevado, e que teve problemas motores seguidos, mas portanto nada que possa ser comparado á aventura de cuidar e educar este menino, imagino o que foi, e também a alegria e o orgulho que ter “ajudado” (acho que pais e professores só “ajudam”, o grande desafio é mesmo da criança) nesse sucesso.

    Sempre me lembrarei das sessões de equoterapia, e também das de Ramam (acho que é o nome) quando encontrava crianças e seus pais com problemas bem mais duros que os nossos: eram vacinações contra a vitimização e o desanimo…

    • Obrigada Lionel

      Obrigada Lionel,

       

      Como disse para a Deisy não fiz mais do que a minha obrigação, afinal estudei e continuo estudando tanto nessa vida para poder contribuir com a mediação da aprendizagem e ,sobretudo, atender os direitos de todos que são garantidos por nossa Constituição.

      Mas agradeço de coração e estendo esta motivação a todos os profissionais que estão tendo a oportunidade de enfrentar bons desafios na área de educação.

      Forte abraço!

  2. Experiencias que nos dao empoderamento!

    Maravilhoso depoimento, é desse tipo de experiência que precisamos compartir, todos nós sabemos o quão difícil é a promoção da educação realmente inclusiva, portanto de nada adianta ler relatos de gente que nem tentou e já acha que não vai funcionar. Como professora e como mãe de uma criança com deficiência intelectual, só tenho a agradecer Sonia.

    • Obrigada!

      Deisy , colega e trabalho e de luta! Obrigada!

      Mas de fato não fiz mais do que a minha obrigação, afinal como responsável pela escola tinha o dever de encontrar  soluções para atender da melhor forma possível este aluno. E o amparo temos juntos as pesquisas acadêmicas que nos orientam , o apoio do pais e de outros profissionais o que é fundamental . Se a escola abre sua portas e janelas, ouve seus pares e se rende ao inevitável ,isto é, não sabemos tudo e não temos respostas prontas para tudo, o conhecimento brota e se alarga.

      Forte abraço!

  3. Inclusão

    A escola particular em que meu filho está matriculado solicitou que houvesse um tutor para acompanhá-lo. Sou eu quem devo arcar com estes custos ou é a escola quem deve pagar por esse profissional? Meu filho é autista. A escola tb pode pedir para ele frequentar apenas algumas aulas sob justificativa de que ele não acompanhará caso não tenha esse tutor? A escola pode exigir que ele tenha um acompanhamento com profissional especialista fora do periodo de aula, sob pena de não aceitar a matrícula dele?

     

  4. ajuda
    ola, recebi do medico o laudo de meu filho: autista, em dezembro de 2014, e logo depois um encaminhamento medico pra AMA de Teresina, mas nao consegui passar nem pela triagem, o que devo fazer, por favor se alguem poder me orientar?! Obrigado!

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