Arthur C. Clarke e futuro retrô do Sistema de Justiça, por Fábio de Oleira Ribeiro

Se sobrevivermos à Mudança Climática conseguiremos sobreviver ao Armagedom nuclear que se tornou mais inevitável à medida que os EUA tenta desesperadamente manter sua hegemonia planetária?

Reprodução

Por Fabio de Oliveira Ribeiro

Como todos da minha idade eu cresci lendo Arthur C. Clarke e Isaac Asimov ou vendo os filmes inspirados nas obras deles (“2001: A Space Odissey”, “I, Robot” e “The Bicentennial Man” por exemplo). Aos cinquenta anos nós facilmente percebemos que começamos a viver o presente como uma realização parcial daqueles futuros imaginários que foram concebidos no passado.

Imensas televisões de tela plana, telefones celulares, computadores miniaturizados que cabem nas palmas das nossas mãos e internet móvel são realizações tecnológicas consumadas e popularizadas. Todas essas coisas haviam sido mais ou menos imaginadas em meados da década de 1960 pelos idealizadores e produtores da série Star Treck.

Mas nem tudo que foi imaginado por Gene Roddenberry se tornou realidade. As viagens espaciais e os teletransportes continuam esbarrando nos limites impostos pela Física. As sociedades humanas continuam aferradas às disputas por recursos naturais escassos. E para piorar as coisas, a degradação ambiental que o capitalismo desregulado produziu e continua produzindo já ameaça o futuro da vida na Terra. Se sobrevivermos à Mudança Climática conseguiremos sobreviver ao Armagedom nuclear que se tornou mais inevitável à medida que os EUA tenta desesperadamente manter sua hegemonia planetária?

Em 1999, Arthur C. Clarke fez a seguinte previsão:

“Depois de 2020, quando a inteligência artificial chegar aos níveis humanos, haverá duas espécies inteligentes no planeta Terra, uma evoluindo mais rapidamente do que a biologia jamais permitiria.” (Previsões – 30 grandes pensadores investigam o futuro, organização Sian Griffiths, editora Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 2001, p. 84/85

Desde que perceberam a ascensão econômica da China e a revitalização da Rússia como uma ameaça à sua ambição de controlar os destinos do planeta, os governantes norte-americanos passaram a se comportar mais como os Klingons do que como os generosos tripulantes da nave comandada por James T. Kirk. Digo isso levando em conta dois países vitimados pela guerra híbrida “made in USA”: Líbia e Brasil.

Leia também:  STF define regras para compartilhamento de dados entre órgãos de controle e Ministério Público

Na Líbia o conflito político se transformou num confronto militar que espalhou dor e destruição pelo país. No Brasil, o guerra civil supostamente foi evitada em virtude do resultado da eleição presidencial. Todavia, a penetração do nosso país pela lógica neoliberal só foi possível pela completa destruição da economia brasileira. E nada indica que os setores econômicos destruídos pela Lava Jato (indústria naval, construção civil, produção e exportação de carnes, prospecção e refino de petróleo, etc…) serão reconstruídos sob o comando dos brasileiros e em benefício do Brasil.

As guerras híbridas “made in USA” na Líbia e no Brasil somente foram possíveis e virtude dos gadgets imaginários da série Star Treck que se tornaram realidade. Mas ninguém pode dizer que líbios e brasileiros foram derrotados por uma inteligência artificial que evolui mais rapidamente que a biologia. Na verdade, esses dois povos foram vítimas de sua própria incapacidade de evoluir e de superar suas limitações biológicas.

A evolução tecnológica forneceu novos meios de comunicação e de controle. Mas as pessoas continuaram seguindo as manadas inclusive e principalmente quando estas são criadas e colocadas em movimento para prejudicar seus próprios interesses. O ressentimento dos líbios e dos brasileiros que ajudaram a destruir seus países não será capaz de tirá-los da miséria. O máximo que ele conseguirá será produzir mais dor e destruição.

Toda guerra civil ou externa tem um efeito inercial duradouro. Arthur C. Clarke estava errado. Na fase em que nos encontramos, nem mesmo o desenvolvimento de uma inteligência artificial seria capaz de nos libertar do crescimento exponencial do ciclo de ócio, pobreza, ódio e violência que foi desencadeado pelas guerras híbridas “made in USA”.

Leia também:  Bolsonaristas registram novo partido em cartório, mas formalização ainda depende do TSE

As guerras que possibilitaram aos romanos conquistar a Europa, a Ásia Menor e o Norte da África não foram capazes de impedir a invasão e saque de Roma. Em algum momento o ciclo de barbárie que está sendo produzido pelo imperialismo norte-americano irá inevitavelmente se expandir de uma maneira ou de outra para dentro dos EUA. Quando isso ocorrer a desinteligência emocional que fomentou as guerras híbridas custará ainda mais caro aos países periféricos.

O desenvolvimento tecnológico nos fez imaginar que ficaríamos mais próximos das estrelas. Mas a verdade que pode estar se aproximando é uma nova Idade Média. Ela já pode ser sentida pelos operadores do Sistema de Justiça. A Líbia se tornou um país sem Lei em que os negros podem ser caçados e vendidos como escravos. No Brasil, apesar dos nossos Tribunais expandirem o emprego das tecnologias da informação, o Direito Penal teve que regredir aos níveis medievais para que Lula pudesse ser condenado sem provas por um crime não descrito pela legislação que teria sido supostamente aplicada por Sérgio Moro e seus colegas de TRF-4.

Os sinais de decadência processual se espalham em todos os sentidos. O Ministro Luís Barroso tem dito que é preciso colocar os anseios da sociedade acima da Constituição. A verdadeira fonte de inspiração dele não pode ser o nosso sistema constitucional. Talvez seja a Terceira Lei de 28/06/1935, promulgada por Hitler. Afinal, essa Lei infame autorizava os juízes alemães a levarem em conta o “saudável instinto” do povo para proteger a sociedade dos criminosos. Invocando-a, eles podiam condenar inclusive os suspeitos que não tivessem praticado condutas tipificadas pela legislação penal do Reich.

Leia também:  Na briga de Bolsonaro com a mídia, é um erro torcer pela briga, por Rogério Marques

A verdadeira agenda do “golpe com o Supremo com tudo” não era o combate à corrupção e sim a revogação dos direitos sociais dos brasileiros e a liberação indiscriminada dos agrotóxicos que estavam proibidos em nosso país. Nos últimos anos o desmatamento da floresta amazônica tem sido ignorado ou incentivado. O avanço do agronegócio e da mineração em áreas indígenas demarcadas não afetará apenas a qualidade de vida dos índios.

O neoliberalismo, a poluição industrial e a Mudança Climática degradam a biosfera e nossa biologia. O desenvolvimento tecnológico produziu uma desinteligência emocional que se expandirá da periferia para o centro do capitalismo e não uma inteligência artificial que se desenvolve exponencialmente em benefício da humanidade.

O futuro que Arthur C. Clarke imaginou para 2020 não deixará de ser uma ficção. No Brasil, a realidade dos próximos 50 anos será uma nova Idade Média controlada pelos juízes e não pelos padres da Igreja Católica. O espaço não é a fronteira final porque nossas fronteiras foram removidas por seres humanos imbecilizados para permitir a colonização financeira do nosso país.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. É Star Trek e não “Treck”

    Sobre inteligência artificial assista a série muito boa Person of Interest, onde uma IA chamada Samaritano tenta controlar o destino da raça humana inclusive eliminando críticos e oponentes.

    E em The Good Fight há criticas contra Trump que cabem perfeitamente no caso Bolsonaro…

  2. Se parecem mais com os “Klingons”, não concordo. Eles se parecem mais com uma mistura de romulanos com ferenguis.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome