Lista de Livros: Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Lista de Livros: Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Editora: Martin Claret

ISBN: 8572322949

Opinião: bom

Páginas: 182

     “Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.”

      “Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim.”

      “Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos.”

      “Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, – uma pérola.”

     “(no navio) Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.”

“- Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.

     Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar, com as cerimônias do costume.”

      “Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”

      “Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.”

      “Mas eu era moço (na época em que ficara doente), tinha o remédio em mim mesmo.”

      “Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.”

      “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.”

      “Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.”

      “Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.”

      “Cinquenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que “coisa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio esquecimento”.”

“- Não me podes negar um fato, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. (….)

    A persistência do benefício na memória de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa ação, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano.”

      “Ri-me a princípio; mas a nobre convicção do filósofo incutiu-me certo medo. A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido, mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos, tal objeção ficava sem valor.”

“- O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano; e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos. Verás o que é a religião humanística.”

      “E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Redação

12 Comentários

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  1. Um livro para dois tipos

    Um livro para dois tipos distintos de leitores… o comum e o que estudou e entende literatura. O comum achará um bom passatempo e, como a opinião acima, achará o livro apenas BOM. O estudioso de literatura ficará encantado primeiro com as influências que outros autores (como Stern e seu imperdível Tristam Shandi) tiveram sobre Machado e seu estilo narrativo que adicionando boas pitadas da sátira menipéia, fizeram deste, um dos (IMHO) 50 melhores livros de todos os tempos. Infelizmente, nestes tempos de leituras instantâneas e uma ignorância completa sobre coisas básicas da literatura, como a ironia, Machado é para poucos… Mas, ainda assim, vida longa ao nosso Bruxo do Cosme Velho, simplesmente o nosso maior escritor de todos os tempos. 

  2.  
    Nunca entendi porque taxam

     

    Nunca entendi porque taxam Memórias de romance realista. Na escola realista, defuntos não escrevem romances, simplesmente apodrecem.

     

    Machado é um gênio da literatura, mas sobretudo é mestre do conto; o conto machadiano é o ponto culminante da literatura brasileira.

  3. O }Alienista

     

    Meu caro… Achava que a loucura era uma ilha cercada pelo oceano da razão, hoje me dei conta de que se trata de um continente.

    Diz-se por ai que na epoca em que viveu Machado de Assis não existia a mesma facilidade de correção literaria como a existente na atualidade. E que era sua esposa que o ajudava neste mister, e mais, que era ela que tinha o mérito da genialidade da escrita. As idéias eram de Machado e a literatura era de sua esposa.

    Não sei se foi assim… Só sei que se diz que foi.

     

     

    1. Mito bobo

      Essa afirmação de que a literatura de Machado vinha de Carolina é de uma bobagem imensa. Putz! A esposa de Tolstói revisava os romances dele – ela seria a verdadeira autora de Guerra e Paz? E o que dizer dos grandes livro de Machado depois da morte de Carolina? Memorial de Aires, por exemplo, teria sido escrito ao longo de sessões espíitas?

      1. É por isso que o povo diz que você é sem confiança, Chico.

        Não sei não, mas este povo diz tanta coisa.

        Quem pode afirmar com certeza se aquela coisa foi ou não assim.

        Sei não…“não sei, só sei que foi assim”. Como dizia o alegre João Grilo.

        Abração

  4. conto

    Há vários contos fantásticos de Machado de Assis, mas há um que me inquieta até hoje quando penso sobre o bom e o mal e o certo e o errado. Ele se intitula “Mãe contra pai ou é Pai contra mãe”, a maneira como relata a história do capitão do Mato o torna essencialmente humano. Não entendo como alguém pode classificar alguma obra de Machado de Assis como boa porque até na sua fase romântica ele é genial.

  5. belo apanhado da obra,
    com

    belo apanhado da obra,

    com algumas das melhores frases do romance.

    o final é magistral:

    não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.

    mas o legado machadiano possibilitou ao crítico roberto schwarz

    uma crítica fortíssima contra a  elite brasileira colonialista,

    hoje na minha opinião, representada pelo psdb em conluio

    com o grande capital nacional e internacinal  ancorados na grande mídia golpista..

    em suma, a tese é a seguinte:

    a elite copiava o que havia de vanguarda internacional – o iluminismo, digamos –

    e outras coisas mais supérfluas

    (galiano denuncia que  o rio importava patins para o gelo).

    a elite dizia-se chique, então, vanguardista, mas aqui no seu terreiro,

    matava o escravo a chicotadas e a torturas.

     

     

  6. Livro maravilhoso; mas p/ mim o melhor dele é o Memorial d Aires

    Neste Machado ainda está no auge da sua ironia cética. Em Memorial ele se enterneceu. Continuou irônico, e com a simpatia pelo humano que sempre teve, mas deixando isso transparecer mais. Em vez do “– Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”, ou, pior ainda, do “Jantei bem e fui ao teatro (dito por Bentinho depois de ter notícia da morte do filho que desconfia que nao é dele, em D. Casmurro), a dor da “orfandade às avessas”, dos velhos sem filhos. O livro é uma homenagem linda a Carolina. 

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