102 anos de Cyro Monteiro, o “Formigão”

Por Mara L. Baraúna

Cyro Monteiro (Rio de Janeiro, 28 de maio de 1913 — 13 de julho de 1973)

Cyro, de uma família de nove irmãos, todos com nomes começados com “C”, nasceu no subúrbio carioca do Rocha. Seu pai, dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título que parece se referir a uma patente da Guarda Nacional, corporação criada no Império e extinta em 1918.

Era sobrinho do grande pianista de samba Nonô (Romualdo Peixoto), conhecido como o “Chopin do samba”, na época um dos mais famosos do Rio de Janeiro, acompanhador de Sílvio Caldas, que ensaiava na casa dos Monteiros. Da família também fazem parte os primos Peixotos: Cauby, Araken, Andyara, Aracy e o pianista Moacyr.

Ciro passou a infância e a juventude em Niterói, para onde se mudou com a família quando tinha apenas dois anos e cresceu ouvindo e aprendendo em ambiente musical.

Na juventude, conviveu na Confeitaria Guanabara com músicos e boêmios como seu tio Nonô, Valfrido Silva, Mário Travassos de Araújo, Dutrinha, Gadé e Ary Frazão, e cantava em festas e rodas de amigos. Com seu irmão Careno, cantava em dueto procurando imitar a dupla Sílvio Caldas-Luiz Barbosa, até que, em 1933, Sílvio Caldas chamou-o para substituir Luís Barbosa no “Programa Casé” da Rádio Philips. Fez sucesso ao lado de Sílvio Caldas, mas preferiu abrir mão da dupla e manter a que tinha com o irmão.

Em 1936, fez em seu primeiro disco para a Odeon, a primeira gravação para o carnaval daquele ano, cantando o samba “Perdôa”, de Kid Pepe e João Barcelos e a marcha “Vê se desguia”, de Kid Pepe, Germano Augusto e Fadel. 

Em dezembro do mesmo ano participou no coro da gravação da marchinha “Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, ao lado de Almirante e Odete Amaral, em disco que foi sucesso no carnaval do ano seguinte.

Ainda em 1936, passou para os programas noturnos, com Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Gastão Formenti e outros grandes artistas. Em um deles, o “Picolino”, de Barbosa Júnior, lançou seu primeiro grande sucesso, “Se Acaso Você Chegasse”, considerado um dos melhores sambas de todos os tempos, gravado a seguir, que o projetaria nacionalmente e também ao autor da melodia, o gaúcho então desconhecido Lupicínio Rodrigues. Foi nessa época que começou a criar um estilo que o imortalizaria. Luiz Barbosa marcava o ritmo no chapéu de palha e Joel de Almeida foi seu seguidor. Descobriu no ritmo de uma caixinha de fósforos o toque instrumental para suas interpretações.

Em 1938, casado com a cantora Odete Amaral, que tinha o apelido de “A Voz Tropical”, mudou-se para o bairro do Riachuelo, vizinho ao Rocha. Gravou em dueto com a mulher o jongo “Pomba serena”, de Humberto Porto. Nessa época começou a compor em parceria com Dias da Cruz.

Em 1939 voltou a gravar em dueto com Odete Amaral, registrando os sambas “Sinhá, sinhô” e “Bem querer”, ambos de Aloísio Silva Araújo. Ainda no mesmo ano, gravou o samba “Mania da falecida”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista. Conheceu novo grande sucesso com o samba “Oh! Seu Oscar”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, grande vencedor do carnaval do ano seguinte e segundo grande sucesso do cantor.

Na década de 1940 é novamente responsável pelo lançamento de outro grande nome da música popular brasileira, o compositor Geraldo Pereira, um mineiro nascido em Juiz de Fora, mas criado no morro da Mangueira: Falsa baiana e Escurinho. Outro sucesso veio com Boogie-woogie na favela, de Denis Brean.

Em 1940, gravou dois frevos-canção do compositor pernambucano Capiba e também no mesmo ano o samba “Beijo na boca”, de Ciro de Sousa e Augusto Garcez. No final do mesmo, gravou outro samba de sucesso, sendo muito cantado no carnaval de 1941, “O bonde de São Januário”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista.

Em 1941, gravou, de Ary Barroso, o samba “Os quindis de Iaiá”  e tornou a gravar música do pernambucano Capiba, o frevo-canção “Linda flor da madrugada”. 

Em 1942, gravou o samba-choro “Botões de laranjeira”, de Pedro Caetano, lançado com grande sucesso no “Programa César Ladeira”, na Rádio Mayrink Veiga. Na ocasião de seu registro em disco, a música sofreu censura, pois na letra havia o nome próprio de uma menina, Maria Madalena de Assunção Pereira, para quem o compositor Pedro Caetano fez a música. O radialista César Ladeira sugeriu a troca do nome para Maria Madalena dos Anzóis Pereira, e o disco foi finalmente gravado.

Em 1943, gravou os sambas “Até quarta-feira”, de Geraldo Pereira e Jorge de Castro, “Senta lá na mesa”, de José Gonçalves e Claudionor Cruz, “Beija-me”, de Roberto Martins e Mário Rossi, que foi um dos sucessos do ano, “Você está sumindo”, de Geraldo Pereira e Jorge de Castro e “Minha homenagem”, de sua parceria com Ari Monteiro. 

Separou-se em 1949 de Odete Amaral, com quem teve um filho, Cyro Monteiro Júnior. Até a separação, ambos formariam um casal dos mais famosos da era do rádio.

Em 1955, gravou na Todamérica “Tem que rebolar” onde estreou com o samba “Escurinho”, de Geraldo Pereira.

Em 1956, participou como ator da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, vivendo o papel do pai do personagem principal. Ainda nos anos 50 e 60 participou de programas de televisão como O Fino da Bossa e Bossaudade, gravou discos e fez muitos espetáculos.

Em 1965, participou em São Paulo, juntamente com Dilermando Pinheiro, do espetáculo “Telecoteco Opus nº 1”, produzido por Sérgio Cabral. O espetáculo recebeu ótimas críticas e acabou virando LP.

No mesmo ano, lançou o LP “De Vinicius e Baden especialmente para Cyro“. Segundo trabalho da dupla Baden e Vinicius, foi gravado em Paris em 1965. Como o nome diz, o LP foi dedicado ao músico Ciro Monteiro, que empresta sua voz para as canções deste álbum com 10 composições dos dois artistas, entre as quais, “Deixa”, “Para fazer um bom café”, “Linda baiana”, “Formosa”, “Astronauta” e “Amei tanto”.

Em 1966, gravou com Elizeth Cardoso pela Copacabana o LP “A bossa eterna de Elizeth e Cyro“, no qual fizeram gravações solo e em dueto 

No final dessa década – já com a saúde debilitada por anos de cigarro, bebida e boemia – integrou o elenco do espetáculo “Mudando de Conversa”, com Clementina de Jesus, Nora Ney, Jards Macalé, o conjunto Os Cinco Crioulos e Dino Sete Cordas, no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro. O espetáculo “Mudando de Conversa”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho se transformou em LP pela Odeon.

Em 1969, voltou a gravar com Elizeth Cardoso, o LP  “A bossa eterna de Elizeth e Cyro volume 2”  

Em 1970, lançou pela Continental o LP “Alô jovens, Ilmo Cyro Monteiro canta sambas dos sobrinhos”, com obras de novos compositores, como Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Paulo Sergio Valle e Marcos Valle.

Em 1971, gravou com o cantor Jorge Veiga o LP “De leve – Jorge Veiga e Cyro Monteiro”

Cyro Monteiro se notabilizou pelo sincopado, pelo deslocamento das sílabas fortes (as tônicas) dos versos das músicas, além de ter sido um pioneiro na arte de “fazer amigos e influenciar pessoas”. A doçura de Ciro garantiu a ele grandes amizades. Vinícius de Moraes escreveu na contracapa do LP “Senhor samba”, lançado pela Columbia em 1961: “Uma criatura de qualidades tão raras que eu acho improvável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá do cantor e do homem excepcional, é um grande abraço em toda a humanidade”. Seu canto teve importância crucial para o samba, influenciando intérpretes como Roberto Silva, além de ter iluminado compositores de sua geração, como Geraldo Pereira, de quem ele era a voz (e o sincopado) ideal.

Conhecido no meio artístico como “Formigão”, apelido dado por Frazão, por ser viciado em doces, e não se sabe bem ao certo quem o chamou pela primeira vez de “O cantor das mil e uma fãs”. Era um amigo generoso e flamenguista fanático. Tinha o costume de presentear os recém-nascidos de seus amigos com a camisa do rubro-negro carioca, paixão que lhe valeu homenagens significativas. A primeira veio na forma do samba bem-humorado “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, de Chico Buarque, em resposta ao “presente” dado à pequena Sílvia – filha de Chico e Marieta Severo – e, no qual, o compositor declaradamente tricolor tentava mudar as cores da camisa.

Mais uma homenagem fez Vinícius a Nonô e a Cyro no famoso Samba da Bênção, no qual o poetinha, ao mencionar Cyro Monteiro, faz questão de frisar: “Você, sobrinho de Nonô”.

A última gravação de Cyro Monteiro foi com Vinicius de Moraes e Toquinho para o LP “Toquinho, Vinicius e amigos”, lançado alguns meses depois da sua morte.

A outra homenagem, na verdade a última, foi feita pela Torcida Jovem do Flamengo, no dia do seu enterro, em 13 de julho de 1977, quando cobriu o caixão do cantor com a bandeira rubro-negra, ao som do hino do clube carioca.

Cyro Monteiro morreu com apenas 60 anos, em 1973. A causa foi cirrose, de acordo com o paulista continuador do samba sincopado, Germano Mathias, que garante ter ouvido do amigo, mais de uma vez, a seguinte advertência: “Anda depressa, porque estou atrasado três conhaques”. A ternura pela mulher Lu, que o acompanhou por todo o tempo difícil da doença, deixou registrada no samba Minha Marilu, de seu LP de 1961. 

“Leve um recado pros meus amigos Vinicius de Moraes, Fernando Lobo e Reinaldo Dias Leme. Diga a eles que é pra não chorar, porque eu tenho um encontro marcado com Pixinguinha, Stanislaw Ponte Preta e Benedito Lacerda. Eu não bebo há dois anos e agora vou tomar o maior pileque da minha vida”. Ainda lúcido quando pronunciou estas palavras, Ciro Monteiro morreu depois de 10 dias em que permaneceu internado.

Fontes:

Discografia 

Músicas gravadas por Cyro Monteiro 

Amigo Cyro, muito te admiro, teatro musical biográfico

Cyro Monteiro no Dicionário Cravo Albin

Cyro Monteiro, Estúdio F

Cyro Monteiro, por Carla Paes Leme Rádio Batuta 

Cyro Monteiro, por Cláudia Neiva de Matos 

Cyro Monteiro, por Nei Lopes 

Cyro Monteiro e a falsa baiana, por Bia Paes Leme 

Ciro Monteiro, 100 anos 

Histórias de Ciro Monteiro

Meu bom Cyro Monteiro, de Clayton Luiz da Silva Moreira

Projeto Especial “100 anos de Cyro Monteiro”, pelo Grupo Casuarina

Videos:

 

4 comentários

  1. “Pode me chamar de louco, que até acho pouco…”

    Querido Formigão, que se foi cedo, mas com pressa de encontrar os bons! Vaso ruim não quebra, Cyro! Ainda essa semana lembrei do Telecoteco, esse disco muito gostoso e alto astral de Cyro com Dilermando Pinheiro. Essa homenagem é mais que justa e permite que muitos possam ouvir e redescobrir esse personagem emblematico da MPB e um grande homem, segundo conta-se no meio musical.

    No famoso Programa Ensaio com Elis, ela comenta a então recente morte de Cyro.

    [video:https://youtu.be/b1SKow7PTaY%5D 

  2. Cyro

    Obrigado Mara. Ouvi todas as faixas e me transportei àqueles tempos da boa música e excelentes intérpretes.

    Foi  uma feliz homenagem ao “formigão”.

    Abcs

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