Nair de Teffé : bela, culta e avançada, por Mara Baraúna

Nair era uma mulher culta e refinada, falava muitos idiomas, pintava, desenhava, foi atriz de teatro e tocava piano com perfeição. Ousada, elegante, curiosa, sensual, brilhante e vanguardista são adjetivos que Nair de Teffé acumulou em sua vida.

Nair de Teffé von Hoonholtz (Petrópolis, RJ, 10 de junho de 1886 — Rio de Janeiro, RJ, 10 de junho de 1981)

Nair de Teffé : bela, culta e avançada, por Mara Baraúna

Nair de Teffé Von Hoonholtz nasceu em berço aristocrático em 1886, em Petrópolis, filha de Antônio Luiz Von Hoonholtz, o Barão de Teffé e de Maria Luiza Dodsworth, neta do Conde prussiano Frederico Guilherme Von Hoonholtz. Desde cedo seguiu o pai em suas andanças pelo mundo como cientista e diplomata. Tinha um irmão, Alvaro de Teffé.

Em 1887 Nair partiu com a família para a Europa pela primeira vez quando tinha apenas um ano de idade. Na Europa, o barão procurou oferecer aos seus filhos uma educação esmerada, digna da realeza. Estudou nas melhores escolas do sul da França e lá descobriu seu talento para o desenho. Com isso, viu de perto todo o esplendor da belle époque de Paris, onde passou a se dedicar à caricatura. Ela começou desenhando os narizes e os rostos das freiras do convento Sainte Ursule, onde estudava, e continuou desenvolvendo seu talento com as visitas que recebia em casa e as pessoas que frequentavam as praças da cidade. Seu primeiro desenho caricaturado teve como modelo Madame Carrier, após uma visita, como forma de protesto contra a senhora idosa a quem não suportava. Daí em diante, incentivada pelo pai, foi desenvolvendo e aperfeiçoando a técnica que mais tarde faria dela a primeira mulher caricaturista do Brasil a publicar seus trabalhos.

A família passou por Bruxelas (Bélgica), Nice (França), novamente Rio de Janeiro, em seguida Roma, novamente na França, antes do retorno definitivo para o Brasil, em 1905. Estabeleceram-se em Petrópolis, onde Nair manteve a atividade da caricatura e resolveu utilizar como assinatura o anagrama Rian – Nair ao contrário.

Sua trajetória como artista e mulher foi marcada pelas dificuldades em se manter num ofício tipicamente masculino e numa sociedade extremamente machista. Quando começou a se profissionalizar como caricaturista no Brasil, o faz sob o olhar vigilante e severo do pai. Suas primeiras caricaturas foram de pessoas amigas, de conhecidos, que permitiam que ela as caricaturassem como uma divertida brincadeira de salão.

A carreira de Rian foi breve, com produção significativa entre 1906 e 1913. Em 1906, seus originais já chamavam a atenção e corriam de mão em mão a partir da Pensão Central, ponto chique de Petrópolis. Eram muitas as encomendas de caricaturas, limitadas à circulação restrita, chegando a artista a desenhar até vinte por dia. Rian, com autorização do pai, começa a expor suas caricaturas na Casa Davi e na Chapelaria Watson, no Rio de Janeiro.

A seção Esbocetos, assinada por Fiorellini, da Fon-Fon!, idealizada pelo escritor e crítico de arte Gonzaga Duque, tem o mérito de revelar a primeira mulher caricaturista do Brasil. Em 1909, publicou a primeira caricatura, que retratava a artista francesa Réjane.

No entanto, essas caricaturas criavam situações conflitantes. Por ser mulher e jovem, ela recebia vários elogios, já que desenhar caricaturas era, na época, uma atividade exclusivamente masculina. Mas surgem as primeiras dificuldades quando seus desenhos ultrapassam os espaços privados dos salões e das casas das elites de Petrópolis e do Rio de Janeiro. Ela passa a ser evitada pelas senhoras nas festas, que temiam ser retratadas por Rian e aparecerem em uma das Galerias, onde publicava semanalmente suas caricaturas. Realiza uma exposição individual em junho de 1912 no salão do Jornal do Comércio, onde reuniu duzentas caricaturas. Rian seguiu com trabalhos e mostras até 1913 nos diversos jornais e revistas, O Binóculo, A Careta, O Malho, OKen, Fon-Fon, Gazeta de Notícias, e as francesas Le Rire e Fêmina, entre outros.

Rian foi uma pioneira na caricatura no Brasil e há quem afirme que tenha sido a primeira mulher no mundo a publicar uma caricatura. Mas Nair não foi apenas a primeira caricaturista brasileira. Com outras mulheres cariocas, como a jornalista Eugenia Moreira (1898-1948) e a diva dos salões Laurinda Santos Lobo (1878-1946), ela agitou a sociedade ao flertar com o modernismo e as pretensões feministas da época. Mal sabia ela que suas ideias acabariam tendo eco junto à autoridade máxima do país e mudariam por completo o seu futuro.

Como acontecia em todas as famílias cariocas da elite, os Teffés passavam os meses de verão em Petrópolis e tinham o hábito de andar a cavalo pela manhã. Nesses passeios, pessoas iam se misturando e acabavam formando grandes comitivas de cavaleiros. O barão de Teffé, conhecido por todos, era acompanhado quase sempre por sua filha e pelo presidente da República, Hermes da Fonseca. Viúvo há pouco da senhora Orsina Francioni da Fonseca, mãe de seus sete filhos, utilizava esses passeios como terapia. Sagaz, Nair acabou despertando a atenção do marechal Hermes, mas não levou o flerte a sério. Desconfiava da amabilidade do marechal-presidente, de seu cuidado com ela quando fazia o cavalo galopar. O pedido de casamento veio numa inusitada queda de cavalo durante o passeio. Nair sofreu uma queda do cavalo e o marechal veio socorrê-la, dizendo que há muito esperava por esta oportunidade: Quero que se case comigo!! Nair, um tanto surpresa, respondeu que não podia aceitar de imediato e pediu seis meses para pensar. Resiste por um período, mas acaba aceitando.

Leia também:   Que fazer?

Antevendo as reações familiares, os dois mantiveram o noivado em sigilo até o que consideravam ser o momento oportuno de torná-lo público. Pois embora fosse comum na sociedade do início do século XX, homens mais velhos casarem-se com moças mais jovens, a diferença de idade entre os dois era significativa: Nair tinha 27 anos e o marechal 58 anos. Os pais de Nair e os filhos do marechal reagiram negativamente à união dos dois, a princípio, argumentando não só a diferença de idade, mas também o fato de que Nair era uma moça alegre, com alma de artista e muito irreverente; o marechal Hermes era um velho militar sisudo, além do que consideravam a viuvez do marechal ainda muito recente, afinal só fazia alguns meses que D. Orsina havia falecido.

O casamento não demorou a se realizar e Nair se tornou primeira-dama aos 27 anos de idade, em 8 de dezembro de 1913, com bela festa no Palácio Rio Negro, quando muita gente ainda censurava a atitude do presidente. E foi a primeira e, até agora, a única vez que um presidente brasileiro se casou durante o exercício do mandato.

A partir do casamento, Nair dedicou-se integralmente ao marido, apoiando a construção de vilas populares em bairro suburbano do Rio de Janeiro que seria batizado com o nome de Marechal Hermes, acompanhando de perto todas as situações críticas vividas por ele, até as crises políticas enfrentadas durante a Revolução de 1922. Este movimento militar colocou em lados opostos Hermes da Fonseca e o presidente Epitácio Pessoa. A essa altura, Hermes era presidente do Clube Militar e entrou em choque com o presidente, apoiando a candidatura de Nilo Peçanha.

Foi tamanha a dedicação de Nair ao esposo que, para celebrar os quatros anos de mandato de Hermes da Fonseca na presidência, a então primeira-dama animou os ilustres convidados da comemoração com uma programação musical um tanto extravagante para a ocasião. O que causou problemas de fato na festa que Nair promoveu no Palácio do Governo, em 26 de outubro de 1914, foi que a primeira dama, ao violão, acompanhada por Catulo da Paixão Cearense, tocou o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Era a primeira vez que esse tipo de música penetrava nos salões elegantes. Os acordes sincopados foram seguidos do ruído das palmas e do escárnio. As palmas vieram das mãos dos presentes. O escárnio veio dos jornais, obstinados a criticar, e do conservador Rui Barbosa, que não poupou críticas à esposa do Presidente da República, reclamando da falta de decoro no Palácio presidencial. A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!

A irreverente Nair de Teffé reagiu com humor criando uma caricatura de Rui Barbosa que deve ter provocado ainda mais a ira do político. Rian o retrata como um homem envergado, de cabelos brancos, com semblante sisudo, segurando um guarda-chuva. Com todas as letras das penas e tintas, ela o chama de velho e mal-humorado, fazendo o senador reclamar: Certas mocinhas se divertem fazendo gracejos à custa de homens sérios como eu.

O jornal A Rua traz em seu editorial: O Catete deve ser um lugar de respeito. Lá dentro não podem caber os requebros lascivos de uma música do quilate do Corta-jaca […]. Não podia caber no Catete em hora nenhuma, quanto mais n’uma recepção diplomática. Não há ninguém que não sinta pelas músicas populares certo enlevamento. Mas isso pelas músicas rigorosamente populares. O Corta-jaca não pode estar nesse rol. O Corta-jaca é uma música profundamente imoral. E não foi feita senão para despertar o “moral” nos clubes carnavalescos. Quem a ouve sente irresistivelmente o sangue estuar nas veias: ela desenha à visão de quem quer que seja o bamboleio impudico de quadris, o estremecer de seios nus, o palpitar de carne em febre, entrelaçamentos […] de animalidade nojenta. As músicas chamadas populares têm os seus requebrados, sim, mas são requebrados ingênuos, rústicos, inocentes, onde a gente percebe o trescalar da doce simplicidade do povo. O Corta-jaca não. É nu, grosseiro, canalha.

[Remexe… assim… assim]. O casal presidencial dançando “O corta-jaca político” nas páginas de A Rua, n. 17, 4/11/1914

Leia também:  A voz e o violão de Zé Luiz Mazziotti, por Aquiles Rique Reis

O modo de ser, agir e pensar da primeira-dama, uma mulher e esposa jovem, transformaram-se em assunto de política, na forma de fofocas, comentários e críticas, algumas, inclusive, tornaram-se públicas por meio do trabalho da imprensa.

Em novembro de 1914 Hermes da Fonseca deixa o governo e, anos depois, o casal viaja para a Europa, onde Rian realizou algumas exposições. Voltou para o Brasil por volta de 1921 e participou da Semana de Arte Moderna. Publicou ainda charges, em 1922, no livro de crônicas de Otto Prazeres: Petrópolis, a Encantadora. Depois fez uma capa em cores para a Fon-Fon em 22 de janeiro de 1922 e publicou na Revista da Semana trinta “cabeças” de personalidades, como a do próprio Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa, entre outros.

Após a morte do marido, em 1923, ela se tornou melancólica, mas tentou reagir, produzindo eventos em Petrópolis, principalmente peças teatrais, das quais participou como atriz, autora e diretora. O escritor Coelho Netto escreveu para ela a peça musical Miss Love que ela protagonizou com sucesso no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Em seguida trabalhou na peça Longe dos Olhos, de Leopoldo Fróes. Criou a Troupe Rian. Montou peças de Álvaro Moreira, Afrânio Peixoto, Cláudio de Souza e Reynaldo Chaves, cuja renda em Petrópolis foi toda aplicada em obras sociais. Retornou à Petrópolis, onde foi eleita, em 1928, presidente da Academia de Ciências e Letras, que extinguiu em 1929 e fundou em seu lugar a Academia Petropolitana de Letras, sendo presidente até 1932. Em 9 de abril de 1929, Nair tomou posse na Academia Fluminense de Letras.

Nair de Tefé voltou para o Rio de Janeiro em 1932 e foi morar em Copacabana. Utilizando a herança do pai, morto em 1931, adquiriu um terreno e nele construiu um cinema, chamado Rian, em homenagem ao pai e como incentivo à atividade cinematográfica. Problemas com a exibição de filmes acabaram por levá-la a se desfazer do cinema. A tristeza por ter que ir morar no Hotel Glória, em 1946, e de não conseguir o sonhado apartamento na Rua Paissandu, que ela tanto adorava, levou-a à depressão e, segundo pessoas próximas, ao jogo. O vício fez com que ela perdesse uma ilha na baía de Angra dos Reis, chamada Francisca, que lhe havia sido dada pelo marechal.

Dezessete anos depois, já viúva, Nair, aos setenta e três anos, voltou a fazer caricaturas, inclusive de várias personalidades. No fim dos anos 1970, participou das comemorações do Dia Internacional da Mulher.

Nair ficou sem nada e se confinou em um pequeno sitio em Niterói, vivendo de uma modesta pensão militar. Ali, no ostracismo, escreveu a autobiografia A Verdade sobre a Revolução de 1922. Lançado com sucesso em vários pontos do país, e, em Petrópolis, em 27 de fevereiro de 1975, em promoção da Academia Petropolitana de Letras, com apoio da Prefeitura Municipal e da Imprensa Petropolitana. Ela não teve filhos, então adotou Carmem, Tânia e Paulo. Em 1979 retornaria para receber o título de Cidadã Petropolitana.

Leia também:  Lamento, Dorinha Freitas, de coração!, por Luciano Hortencio

Nair era uma mulher culta e refinada, falava muitos idiomas, pintava, desenhava, foi atriz de teatro e tocava piano com perfeição. Durante a juventude animou bailes e saraus no Rio de Janeiro e em Petrópolis. Ousada, elegante, curiosa, sensual, brilhante e vanguardista são adjetivos que Nair de Teffé acumulou nos tempos em que vivia com o presidente Hermes da Fonseca, que governou de 1910 a 1914. Nessa época, ela parecia bem diferente da idosa de cabeça branca que, em seus últimos dias, andava pelas ruas de Niterói com um vestido de chita, calçando um chinelo de pano surrado e com a bainha da roupa descosida. Em sua velhice Nair sofreu muitas aflições financeiras. A pensão deixada pelo marido não era suficiente para suprir suas necessidades. A essa altura pagava aluguel e quase foi despejada em 1970.

Nesta mesma época foi perseguida pela Receita Federal que lhe cobrava impostos atrasados. Nair envia uma carta ao Jornal do Commércio reivindicando a isenção do pagamento do Imposto de Renda para os pensionistas que atingissem 85 anos de idade. Ousadia de jovem petulante aconteceu quando, aos 90 anos, em vez de preencher o formulário da Receita, Nair desenhou nele uma caricatura do ministro da Fazenda, Delfim Netto, constando um recado: Ministro, desculpa-me, mas essa coisa de Imposto de Renda é muito complicada pra mim. Vocês deviam dispensar os adultos com mais de setenta anos.

Nair morreu no dia de seu aniversário de noventa e cinco anos. Foi sepultada junto ao esposo no Cemitério de Petrópolis, e próxima ao túmulo de seu pai, o Barão de Teffé.

Em homenagem a Nair de Teffé foi inaugurado, em junho de 1982, o Centro Artístico Rian, com o objetivo de dar apoio legal, jurídico e operacional na luta pela valorização do artista gráfico. Mas não só as artes gráficas foram valorizadas durante sua existência. Suas atividades incluíram também as artes plásticas e cênicas, e história em quadrinhos.

Em março de 2018, na Sala Leila Diniz, em Niterói, foi inaugurada a Exposição Nair de Teffé – a Primeira-Dama da Caricatura, composta com mais de 40 obras, entre elas, desenhos, fotos e textos informativos.

Fontes:

Admirável, Nair de Teffé!, por Joaquim Eloy dos Santos

O casamento do presidente com a cartunista, por Carlos Eduardo Entini

As caricaturas de Nair de Teffé: o espelho da burguesia carioca (1909- 1926), por Maria de Fatima Hanaque Campos

Mestres do quadrinho nacional: Nair de Teffé, por Worney Almeida de Souza

Catete em ré menor: tensões da música na Primeira República, por Rafael Nascimento

“Corta-jaca” no Catete: centenário da alforria da música popular brasileira.

O escândalo político de Nair de Teffé por tocar violão no Palácio do Catete, por Alessandro Soares

Nair de Teffé : bela, culta e avançada

Nair de Teffé e a Imprensa: a construção de Petrópolis como destino turístico na Primeira República, por Vera Lucia Bogéa Borges

Mulheres, casamento e política: a artista e primeira-dama Nair de Teffé, por Camila Hildebrand Galetti e Ivana Guilherme Simili

Projeto Retrovisor: Nair de Teffé

Rian: caricatura e pioneirismo feminino no Brasil, por Natania Nogueira.

Rian: uma mancha pioneira, por Daniel Bueno

Rian no Museu Histórico Nacional

A vida de uma revolucionária brasileira no século XX : revisitando as memórias de Nair de Teffé, por Luiz Carlos Luz Marques e Viviane Souza de Oliveira

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora