A música maior de Edu Lobo, por Luis Nassif

Ouvindo aqui “Canto Triste”, de Edu , enquanto rumo para as Minas Gerais. E a memória volta-se para a adolescência, quando surgiu a geração dos festivais, ante um certo nariz virado das gerações mais velhas da música brasileira.

Edu Lobo foi o primeiro a estourar com “Arrastão”, no embalo da descoberta de Elis Regina. Foi em um Festival da Excelsior, se não me engano em Guarujá. Acompanhamos de perto porque um dos finalistas era um pianista de Poços de Caldas, João Viviani, craque que tocava no Caiçara, o boteco musical da cidade.

Admito que o público gostou, mas os craques não gostaram. Anos depois, inconfidentes contavam das críticas de João Gilberto e de Jacob do Bandolim à música. Edu inaugurava o estilo de festival, de levantar a galera ainda que sacrificando a música.

Lembro-me até hoje, já como repórter iniciante da Veja, que fui cobrir o show da volta de Chico Buarque da Itália, ali na Boato Dobrão, na rua Cubatão, em São Paulo, de propriedade do Hélio Souto, galã da TV Tupi, que se rivalizava com Tarcisio Meira. No show, Chico terminava algumas músicas com o padrão festival.

No camarim, eu com a cuca cheia de Cuba Libre, e ele e o MPB 4, provavelmente com uísque, e ainda o Antonio Marcos e a Vanusa com outros ingredientes, ousei indagar:

– Você não acha que aquele tipo de final não se coaduna com sua música?

E o MPB, em coro:

– Olha só, o repórter sai com a Duna!

Aliás, na saída da boate resolvemos ir ao boteco da esquina, também de nome Dobrão, depois de driblar Antonio Marcos, que teimava em levar os músicos para nadar na piscina da sua casa. Lá, uma das cenas antológicas que testemunhei. Chegando, encontramos Nelson Cavaquinho, também Betinho da Silva. Ao vê-lo, Chico Buarque perdeu a compostura:

– Nelson, eu te adoro! Vou te dar um beijo!.

Entre eles, uma mesa de ferro maciço. Nelson se esquivava:

– Não beijo homem.

E Chico foi-se inclinando até que ele e a mesa desabaram sobre Nelson Cavaquinho, em uma ampla celebração das gerações.

Agora, depois de repetir três vezes o “Canto Triste”, lembro-me de uma das gravações caseiras, na qual Jacob do Bandolim dizia que não queria morrer antes de gravar a música.

A evolução de. Edu Lobo foi rápida. Lembro-me lá para 1966, montamos um pequeno conjunto de MPB, eu no piano, o Sérgio, João e Oscarzinho no coro, o Dudu Pelegrinelli na voz oitavada (que nem o Badeco dos Cariocas). O nome do conjunto era “Chegança”, em homenagem à música do Edu.

Por alguma razão, mesmo sendo do primeiro time, Edu não teve o reconhecimento. Caetano Velloso era particularmente cáustico com ele, tenho para mim que menosprezava a caminhada de Edu Lobo rumo a Villa Lobos.

De fato, no auge dos festivais, Edu foi estudar em Los Angeles e voltou com uma música mais elaborada. Certa vez, para elogiar Milton Nascimento, Caetano admitiu que não havia entendido de pronto a grandeza do mestre:

– No início, parecia um Edu Lobo que havia ouvido os Beatles!

Parecia até meu amigo Celso Ming, na reunião de pauta do Jornal da Tarde, depois de voltar de Buenos Aires, e ter assistido a um jogo de Maradona. Todo mundo curioso para saber o nível da lenda que se formava:

– Não é nada disso. É apenas um Revelino melhorado!

Só isso!

Parte da antiparia derivava do casamento breve com Vanda Vagamente, uma das jovens musas do grupo de bossa novo com quem convivi em Santa Rita do Sapucaí, nos 6 meses em que fui aprender eletrônica mas, com 14 para 15 anos, aprendi a me virar fora de casa.

Edu compôs “Ponteio”, “Marta Saré”, “Viola fora de moda”, “Vento bravo”. Ao mesmo tempo, compôs algumas das mais belas canções brasileiras, como “Beatriz”, “Prá dizer adeus”, “Choro bandido”, “Mariana, Mariana”. As raízes de Recife foram preservadas em “Zum Zum”, “No cordão da saideira”, “Frevo de Itamaracá”.

Tive um último contato com ele no início dos anos 2000, quando pediu que eu escrevesse o texto de abertura da reapresentação de “O Grande Circo Místico”. Preparei o texto em cima do tema “Beatriz” – nome com o qual batizei minha terceira filha. Aguardei emocionado a leitura que seria feita por Marilia Gabriela. Na última hora, ela não pode comparecer e foi substituída por Marcelo Bôscoli, bom para muitas coisas, não para recitar textos de abertura de shows.

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