O apanhador no campo do sentido – Vol.13, por Gustavo Conde

Foto: Acylino Mariano Jr. (acervo pessoal de Celso Maldos)

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

por Gustavo Conde

[Continuação]

Este ‘folhetim ensaístico’ chega ao fim com seu 13º ‘fascículo’ digital. Agradeço a todos que acompanharam esse mergulho na teoria linguística e na política brasileira, através do gesto enunciativo do ex-presidente Lula. Agradeço também ao cineasta e documentarista Celso Maldos que, gentilmente, irá publicar este ensaio na íntegra em seu livro “Lula: Operário em Construção”, obra que irá contar com outros ensaístas como Frei Betto, Hamilton Pereira e Emir Sader e que será lançada nos próximos dias.

Lula, o apanhador no campo dos sentidos

Lula e seu discurso singular, tecnicamente concebido como escrita – porque perdura e não se dilui no tempo – são, a rigor, patrimônios da humanidade. Ambos, persona e palavra, representam a materialização da voz popular em sua mais sofisticada realização.

A língua exige um uso concreto e espontâneo por parte do falante para que ela seja investida de relevância diante de um analista da linguagem. O discurso academicista, artificial, de laboratório, é refugo simbólico que vale senão apenas como exemplo negativo do espetáculo da linguagem.

Toda a literatura que atravessa o tempo tem esse viés concentrado nos interstícios da fala de Lula: espontaneidade, virtuosismo, intertextos, polifonia, plurivocalidade, desdobramentos, ritmos, sub rotinas, acelerações e, acima de tudo, humanidade.

Mais do que um conjunto de qualidades insuspeitas e verdadeiras moendas de densidade narrativa, o discurso de Lula, enquanto objeto de análise da linguística contemporânea, caracteriza uma usina infinita de sentidos e de organização de sentidos, um verdadeiro manancial técnico para novas formulações no que diz respeito às teorias linguísticas.

O discurso de Lula fica não apenas como registro de uma biografia política e de uma inteligência incomum, mas deixa pistas de como a linguagem real e popular se institucionaliza e se renova dentro de um espírito democrático de produção de enunciados.

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A palavra de Lula deixa – portanto e de maneira generosa – um imenso caminho de pesquisa para linguistas, sintaticistas, semanticistas, semiólogos, semioticistas, analistas do discurso, psicanalistas e ensaístas. Sua fala é um catalisador social, é a síntese de um sentido que extrapola o próprio sujeito, a fenda histórica que irrompe no presente como gesto anti-intuitivo revelador.

Lula é o ponto fora da curva linguística que produz a centelha do inesperado, o realizador de narrativas, o apanhador de sentidos, o performador de sonhos.

Sua luminosidade sígnica extrapola quaisquer rótulos e só nos resta mergulhar em seu mundo político-discursivo infinito, repleto de intertextos, densidades e múltiplos afetos, recursos tão doces quanto necessários para que o sentido da vida e da história não escape na vertigem da contemplação política nem nos ardis da dissimulação pública.

Lula é respiradouro discursivo, é língua em explosão, é a alteridade encarnada. É a chance de uma compreensão mais humana da nossa própria humanidade.   

Obras citadas

AUSTIN, J. (1962). How to do things with words. Oxford: Clarendon Press, 1962.

BENVENISTE, (1961) Émile. Problemas de Linguística Geral I. 5ª ed. Campinas. Pontes Editores, 2005.

CHOMSKY, N. (1981). Lectures on Government and Binding. Foris, Dordrecht, 1981. 

GADET, F. & HAK, T. (1969). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Editora da Unicamp, Campinas, 1997.

GRICE, H. Paul (1975). Logical and Conversation. Unpublished MS of The William James Lectures, Harvard University. Logical and Conversation. In: Cole & Morgan (1975: 45-58).

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JAKOBSON, R. (1975) Linguística e comunicação. 22ª ed. Tradução de Izidoro Blikstein; José Paulo Paes. São Paulo, Cultrix, 2010.

LACAN, J (1956-57). Seminário 5: as formações do inconsciente, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1999.

PÊCHEUX, M. (1975). Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio, Editora da Unicamp, Campinas, 1997.

SAUSSURE, F. (1916). Curso de linguística geral. Cultrix, São Paulo, 2004.

[Fim]

Aqui, os links do ensaio:

O apanhador no campo do sentido – Vol.1

O apanhador no campo do sentido – Vol.2

O apanhador no campo do sentido – Vol.3

O apanhador no campo do sentido – Vol.4

O apanhador no campo do sentido – Vol.5

O apanhador no campo do sentido – Vol.6

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

O apanhador no campo do sentido – Vol.9

O apanhador no campo do sentido – Vol.10

O apanhador no campo do sentido – Vol.11

O apanhador no campo do sentido – Vol.12

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

 

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2 comentários

  1. Seguindo rastros….

    Uma   das  habilidades dos  capitães-do-mato do  passado,   era  a  de serem  bons  rastreadores.

    Ao  menor  sinal  de alteração ambiental, tava   ali   a  pista de  que  algum negro-fujão  estaria  com  seus  dias  de liberdade,  contados !

    Estas recentes jogadas  combinadas com os eternos  donos do  poder: ação do Moro, contorcionismo do Ibope , negativa  de entrevista de Lula, jogos  de cena de  empresários midiáticos,  etc…  para  mim, ( mesmo  não  sendo um  jungle-captain)   são  as   mais  claras  evidências  de   que  ” algo está fedendo  no  reino  da Dinamarca ” !!

    Com  certeza,  não  irão  “deter a  primavera”,  mas  que  há  grande  risco de um  terrível  “El Nino”   adiá-la   por uma  longa  temporada, isto  tem !!!

     

  2. li todos e compartilhei para

    li todos e compartilhei para muitas pessoas. é um registro verdadeiro do sentido de quem ouve e se encanta com o baiano, uma experiência que poucos, na verdade, conseguiram entender e decifrar tão bem como em seu texto. de tudo, porém, a palavra afeto é a que mais ressalta na fala do lula. ele parece rude, ele é rouco, mas suas palavras são um abraço a quem o ouve. um poço de eterna mansidão, o qual, infelizmente, muitos temem. é essa característica paradoxal a chave do fascínio que seu discurso oferece. #lulalivre . parabéns!

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