24 de junho de 2026

Com o kirchnerismo fora do centro, qual peronismo poderá surgir com Sergio Massa?

Independentemente, se mais ou menos à direita ou ao centro, fato é que a fórmula Massa-Rossi não é uma candidatura “puro sangue”

Com o kirchnerismo fora do centro, qual peronismo poderá surgir com Sergio Massa?

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por Maíra Vasconcelos

Especial para Jornal GGN

Talvez, como torcedores de times de futebol, poucas vezes se tenha visto uma festa tão emocionante como a que o Boca Juniors e a Seleção Argentina de Lionel Messi ofereceram como despedida ao ídolo Juan Román Riquelme, domingo, 25 de maio, no La Bombonera — num 11 de maio de 2014, Riquelme pisava no gramado do “Templo de La Boca”, pela última vez, como jogador. Mas esse domingo, “muy bostero” para alguns, foi também o primeiro domingo após o anúncio da fórmula presidencial da coalizão de governo “União pela Pátria” (UP), que apresentou o já cotado ministro da Economia Sergio Massa como pré-candidato a presidente para as eleições de 13 de agosto, votação prévia às eleições gerais de 22 de outubro. Pela primeira vez, desde que o kirchnerismo chegou ao poder com Néstor Kirchner (1950-2010), em 2003, não há um kirchnerista na chapa presidencial. Os analistas locais afirmam que o kirchnerismo se concentrou em buscar a reeleição na província de Buenos Aires, com o atual governador Alex Kicillof.

Após meses sem se falar, a vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner e o presidente Alberto Fernández puderam acertar cada qual a sua indicação, respectivamente, Sergio Massa e como pré-candidato a vice-presidente, Agustín Rossi, com larga trajetória dentro do peronismo e hoje atual chefe de Gabinete do presidente.  

Foi assim que no último dia 23 de junho, data limite para o fechamento das listas dos pré-candidatos, às 20h49, a conta de Twitter do “União pela Pátria” anunciou suas candidaturas. Imediatamente, os programas de televisão local, dependendo da linha editorial, festejavam sem ponderação crítica a escolha da fórmula peronista ou levantavam especulações mal intencionadas, e evidentemente não baseadas em informações. Apresentadores do canal anti-peronista La Nación+ chegaram a  especular que a escolha da fórmula presidencial era um desejo de Alberto Fernández de acabar com o kirchnerismo. O discurso da oposição, que também é um discurso midiático, de “acabar” ou “terminar” com o movimento kirchnerista, alimenta o ódio e responde aos anseios dos anti-kirchneristas. Vale lembrar que a balança dos meios de comunicação na Argentina pende, com ampla vantagem, para a mídia conservadora, que, assim como no Brasil, é maioria e detém o maior número de veículos de imprensa. 

Para a ala mais kirchnerista, o atual ministro representa um peronismo de direita ou um peronismo neoliberal, ou em opiniões menos abanderadas, um típico peronismo de centro. Independentemente, se mais ou menos à direita ou ao centro, fato é que a fórmula Massa-Rossi não é uma candidatura “puro sangue”. Quer dizer, nenhum dos dois são kirchneristas. Por isso, se Massa chega ao poder, é de se perguntar se o atual ministro irá cumprir com as pautas do espaço liderado por Cristina Fernández. Além do mais, em um passado não muito distante, Massa rompeu com o kirchnerismo, ousou inaugurar seu próprio espaço, Frente Renovador, e se lançou a presidente como oposição, em 2015. Logo, em 2019, abriu mão de sua candidatura em favor da unidade peronista, quando  Cristina e Alberto ganharam a presidência. Então, qual tipo de peronismo poderá surgir com Sergio Massa?

Esse tipo de pergunta foi feita pelo diretor do “Le Monde Diplomatique” – edição Cone Sul, Jose Natanson. “Se Perón era a expectativa de justiça social para os migrantes internos excluídos, Menem a possibilidade de estabilidade econômica e o kirchnerismo a reparação social após a explosão de 2001, para onde o peronismo irá desta vez em busca de sua utopia? Talvez a linha passe por um peronismo modernizador, pró-exportação e antidogmático, um peronismo de soluções no estilo proposto pelo cientista político Federico Zapata ou pelo ex-ministro Matías Kulfas. Se o peronismo é sempre um cover de si mesmo, qual será a versão de Massa?”, ponderou Natanson.

O palanque e as emoções

Ainda sem poder dimensionar o que poderá vir com a pré-candidatura de Sergio Massa a presidente, resta a pergunta de como o atual ministro da Economia administrará sua campanha, tendo o desafio de subir no palanque enquanto tenta controlar uma inflação de mais de 100% anual. Após o anúncio de Massa como pré-candidato a presidente, Cristina Kirchner e o ministro da Economia apareceram juntos, pela primeira vez, nesta segunda-feira, 26, no evento de repatriação do avião Skyvan-51, usado nos chamados “voos da morte”, quando pessoas eram sequestradas, sedadas e jogados ao mar, prática de extermínio utilizada pela ditadura cívico-militar argentina (1976-1983) – o GGN noticiou a chegada do avião com exclusividade.  E o que era uma cerimônia voltada à causa dos direitos humanos acabou virando, praticamente, um ato de campanha.  

Durante o evento no Aeroparque, com “palanque” montado em frente ao avião, a vice-presidente falou em “emoções muito fortes”, pelo retorno do Skyvan-51, que ficará exposto na Ex-Esma (Escola de Mecânica da Armada), antigo centro de detenção e extermínio, hoje, um museu da memória. Mas, no dia anterior ao evento de Cristina e Massa, em alto e bom som ecoaram no La Bombonera as palavras emocionantes do ídolo “bostero” Román Riquelme, enquanto as emoções proclamadas por CFK aconteceram em um ato onde o uso político-partidário dos direitos humanos deixou algo fora do lugar, ou o partidarismo ou as emoções. Quando no La Bombonera, emoção, paixão e bandeira coincidiram perfeitamente no exato devido lugar, sem sombra de dúvidas. 

Maíra Vasconcelos – jornalista e poeta, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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