O apanhador no campo do sentido – Vol.8, por Gustavo Conde

Foto: Ricardo Stuckert

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

Por Gustavo Conde

[Continuação]

Discursos rarefeitos

O contraexemplo insubstancial e didático a essa volúpia semântica é a discrepância entre a forma de se dizer e a forma de se fazer. Atores políticos menos agraciados com esse ‘tesão pelo sentido’, caem fácil e frequentemente em contradições primárias, fazendo com que seus respectivos discursos, ao invés de produzirem densidade, produzam rarefação.

Um discurso rarefeito, por assim dizer, afasta o interlocutor da origem do discurso que o interpela. Isso pode levar esse interlocutor até a atitudes violentas, sobretudo em função das pressões ideológicas transversas presentes em sua vida.

Não raro, eleitores frustrados e derrotados tendem a gestos agressivos porque, a rigor, carecem da densidade de sentido que seu adversário ostenta. Esse é, inclusive, um fenômeno que se alastra por todas as sociedades humanas de tempos em tempos – fenômeno também chamado de fascismo.

A ‘economia’ dos sentidos

Lula, a rigor, fala por todos os poros de seu corpo. Ele transborda sentido. Domina todos os registros da linguagem e mobiliza, com sua verve, toda a cena interlocutória que o cerca. Ele é um fenômeno da natureza.

Destaque-se mais uma vez um acorde das cifras teóricas que perpassam esse corpus irradiador de sentidos aqui arrolado: para a análise do discurso francesa, o sentido é muito mais amplo do que a mera consulta a um dicionário ou mesmo a um conjunto de dicionários.

A re-codificação do sentido produzido por um sujeito encravado na história exige uma mobilização cognitiva muito mais complexa  do que rezam as gramáticas e as teorias de interpretação defasadas das faculdades de comunicação social.

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O sentido de um discurso exige a compreensão mínima de seu tempo histórico de emergência, a compreensão mínima acerca dos diversos contratos conversacionais ritualísticos presentes em determinada cultura, a superação básica dos diversos preconceitos linguísticos presentes na sociedade (pois eles bloqueiam o sentido), o desprendimento ético das regras obsoletas e insuficientes da pesada normatização linguística e social e, ainda, um mínimo dispositivo antidogmático de apreensão do discurso do outro.

Os princípios básicos da boa educação presentes na cultura popular do trabalhador humilde, portanto, não são dispensáveis se se quiser uma interpretação de texto de qualidade.

O sentido das palavras e dos discursos é muito mais afeito e se sente muito mais à vontade e soberano junto ao povo, que é sua origem e seu destino. A produção massificada de sentido de uma sociedade ocorre no seio do povo trabalhador, assim como a produção de riqueza.

O fosso entre o mundo da alta cultura artificial – tão erudito quanto hermético – e o mundo do sentido real presente em uma sociedade é tão grande quanto o fosso existente entre a riqueza estancada dos financistas e a generosidade compartilhada e ampla – e em ‘escala’ – do povo humilde que tem uma relação concreta com o trabalho.

Esse fenômeno, tão evidente quanto denegado pelos nichos de poder que o temem, rege, por assim dizer, as democracias mundo afora e se impõe como um ameaça a tudo aquilo que signifique a perpetuação do ‘mesmo’, a saber, a perpetuação da porção minoritária e acumuladora de valores de uma sociedade, sejam eles materiais ou intelectuais.

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[Continua]

Aqui, os links do ensaio:

O apanhador no campo do sentido – Vol.1

O apanhador no campo do sentido – Vol.2

O apanhador no campo do sentido – Vol.3

O apanhador no campo do sentido – Vol.4

O apanhador no campo do sentido – Vol.5

O apanhador no campo do sentido – Vol.6

O apanhador no campo do sentido – Vol.7

O apanhador no campo do sentido – Vol.8

O apanhador no campo do sentido – Vol.9

O apanhador no campo do sentido – Vol.10

O apanhador no campo do sentido – Vol.11

O apanhador no campo do sentido – Vol.12

O apanhador no campo do sentido – Vol.13

 

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1 comentário

  1. Bom dia Profº Gustavo Conde.

    Bom dia Profº Gustavo Conde. A série O apanhador no campo de sentido porque o senhor não lança no formato de livro, o título é interessandérrimo.

     

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