A defesa da reputação não tem prazo de validade, por Francisco Celso Calmon

Não se assaca contra a reputação de ninguém. Reagir sempre, especialmente quando há o ovo da serpente. Mesmo que seja angustiante a demora e as vezes até aquém do esperado, pois fica o exemplo.

A defesa da reputação não tem prazo de validade

por Francisco Celso Calmon

Ao ler a vitória do Luís Nassif sobre a revista Veja, veio imediatamente a minha lembrança a ação movida contra o Jornal do Brasil, quando o jornal estava no auge, em 1995, que havia me caluniado e difamado, na coluna Informe JB, com a titularidade na época da Dora Kramer.

Não aguardei 12 anos, somente 2, se tivesse demorado 12 teria sido angustiante, mas a vitória revigorante. E se não tivesse processado, seria como disse a filha do Nassif para ele – Pai, se você não enfrentar os ataques, você vai morrer de desgosto.

Quem sofre ataque a sua reputação, se não enfrentar, sucumbe ao desgosto.  Por isso, sempre enfrentei, pincipalmente quando visualizamos por trás do ataque à nossa reputação o ovo da serpente, como enxergou o Nassif.

No dia 26 de julho de 1995 fui acordado por uma amiga dizendo: venha imediatamente para a Câmara (Municipal do Rio de janeiro), antes leia o Informe JB.

O que dizia a nota da desqualificada jornalista que pregou uma notícia sem ouvir as partes, no caso eu e a suposta vítima? O título era Lobo Mau, em negrito, e informava que eu seria afastado da instituição por ter assediado uma funcionária, da qual era o chefe.

Ao chegar já havia jornais e rádios no local.

Subo a minha sala. A suposta assediada chega a minha sala e me diz que não tinha nada a ver com a notícia e perguntou o que eu queria que fizesse, respondi: diga apenas a verdade, depois podemos conversar.

Nas entrevistas, inclusive ao JB, respondi que a notícia era consequência do que vinha fazendo na Câmara, era uma fritura política.

Em 1993 fui convidado pelo primeiro secretário da mesa diretora, do PT, Adilson Pires, para realizar sob minha coordenação três projetos: moralização, modernização administrativa e informatização. Era desafiador. Me desliguei da minha empresa e fui, com mais dois colegas, cedidos, respectivamente, um pelo IPlan-Rio e outro pelo Tribunal de Contas do Município.

Em dois anos de trabalho implantamos controle de frequência ao descobrir que havia cerca de 400 funcionários fantasmas que recebiam sem trabalhar; entre esses, gente que morava no exterior, editor do JB, parentes de vereadores.

Ninguém mais receberia sem ter a presença registrada. Nos primeiros dias a Cinelândia ficou lotada de gente na fila para registrar a presença através das catracas eletrônicas. No espaço interno da casa não coube os agora funcionários vivos e não mais fantasmas. A reação foi de toda ordem, sabotagem nas catracas, ameaças, intrigas e outras baixarias.

No plano de cargos e salários reduzíamos uma gratificação que os assessores jurídicos recebiam duplamente, por uma jabuticaba incluída na Lei Orgânica, e diminuíamos o quantitativo de assessores para cada vereador, de 35 para 13. Indexamos o salário mais baixo com o mais alto, de forma que não podia aumentar os mais altos sem elevar os mais baixos, e a diferença entre eles não poderia ser maior do que sete vezes. Tudo sustentado tecnicamente.

Descobrimos diplomas falsos que haviam possibilitado promoções a cargos mais elevados, inclusive de parentes de vereadores, da mesa diretora, e até de esquerda. Abrimos inquéritos e solicitamos rebaixamento e devolução dos ganhos por fraude.

Mais ameaças e a mesa diretora claudicou e o primeiro secretário fez acordo e nos traiu.

No processo de licitação para aquisição dos computadores fomos assediados pelas grandes empresas, repelimos, orientei a ninguém do setor de informática aceitar sequer uma canetinha de brinde. E acompanhamos com lupa o processo licitatório, venceu o menor preço com os recursos técnico exigidos. A IBM esperneou, mas não recorreu, ganhou a Digital. Para desenvolver o software tentamos ir pelo mesmo caminho, ficou complicado e optamos por desenvolver com os recursos próprios. Para isso, fizemos o que a casa nunca havia realizado, concurso público, contrariando muitos vereadores, que já tinham indicações de nomes para contratação via cargos comissionados.

Continuamos a mexer no vespeiro da corrupção, quando armaram a notícia criminosa no JB.

O inacreditável: após eu e a suposta vítima darmos várias entrevistas desmentindo, no outro dia não houve desmentido claro de nenhum periódico e nem uma linha no JB. O primeiro secretário fugiu da imprensa e nada esclareceu. Internamente na casa foram dias de tensão entre nós três que coordenávamos os projetos e a mesa diretora. Propostas corruptas nos foram feitas, uma delas era que eu sairia com outro emprego garantido e um dos meus assessores assumiria a chefia.  Repelimos e pedimos exoneração juntos.

No mesmo dia dei procuração a um colega advogado para solicitar direito de resposta e indenização. Alguns meses depois recebi a informação de que a inicial não fora recepcionada, por erros técnicos grosseiros.

Eu tinha lido no jornal que um escritório de advocacia havia ganho uma ação contra uma revista, cujo autor era o Caetano Veloso, indenização de dois milhões.

Consegui chegar ao escritório por meio de um amigo comum. Aceitaram o caso, sem pró labore, só com honorários de sucesso e sucumbência.

Expliquei tudo com fartas provas e disse que queria o direito de reposta e processar a jornalista por danos morais. Me fizerem ver que deveria processar o jornal, que não teria como alegar falta de recursos financeiros, no caso de uma indenização vultosa, e que, com o resultado, haveria mídia querendo contar o caso vitorioso e eu teria dinheiro para escrever um livro. Roteiro integralmente realizado. Ganhei, dei entrevista à Folha de São Paulo e lancei o livro “Sequestro Moral. E o PT com isso?”

Não se assaca contra a reputação de ninguém. Reagir sempre, especialmente quando há o ovo da serpente. Mesmo que seja angustiante a demora e as vezes até aquém do esperado, pois fica o exemplo.

Parabéns, inicialmente a filha do Nassif, ao próprio, pelo exemplo de destemor e proteção à honra e a veracidade, ultimamente tão avacalhado em tempos de bolsonarismo.

Francisco Celso Calmon, administrador, advogado, escritor, da coordenação do canal Resistência Carbonária.

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