A imprensa e a desconstrução do Conhecimento, por Luciano Martins Costa

“Nunca leio jornais, apenas os folheio. A manchete basta como notícia, o conteúdo dela está sempre ultrapassado e é bem conhecido” 
(Connie Palmen, escritora holandesa , em “As Leis”, livro premiado com o European Novel of the Year Award, 1997)

Cap. 1

Os meios de comunicação estão destruindo o mundo real, pela imposição de simulacros que fantasiam a própria existência, e preparam o futuro de um consenso absoluto, cenário apropriado para o triunfo da estupidez. Ao aceitar o jogo dos meios eletrônicos, os jornais e as revistas renunciam à vanguarda do processo civilizatório e se submetem ao jugo da cultura pop. O avanço acelerado da Internet e a presença impositiva do computador no cotidiano da sociedade são apenas fenômenos naturais de ocupação física do vácuo deixado pelos meios escritos ao abdicar do seu papel. Hoje e daqui por diante, o meio será a mensagem, e a mensagem é a simulação. A nova linguagem criada pelo casamento do computador com a teletransferência total é um desafio mortal para a alma dos meios escritos: a reflexão. Isso porque somos condicionados à resposta imediata, à racionalização alimentada pelo impacto emocional da mensagem. É preciso, portanto, reinventar a linguagem do Jornalismo, tarefa que a Imprensa tradicional não pode, não quer e não tem qualificação para assumir. A Imprensa estará morta num prazo muito curto, a menos que busque o conflito, semeando a dúvida e o questionamento pela ação guerrilheira no coração do inimigo da civilização – a certeza. O conhecimento construído, diariamente, por meio das sucessivas edições de notícias, é na verdade um processo de manipulação da realidade que produz ficção. Por exemplo, a Imprensa prefere fazer escândalo com cada crime que move emoções do que acompanhar e procurar diagnósticos para a violência endêmica na sociedade, principalmente aquela praticada sistematicamente pelo aparato de segurança do Estado.

A desaparição do conhecimento na forma como nos é familiar, à última geração educada na linguagem escrita, acontece na proporção e velocidade em que os meios se confundem: o conhecimento está sendo substituído pelo entretenimento. O ser humano, quanto mais civilizado se considere, mais e mais se vê propenso a aceitar como real o simulacro de conhecimento que se propaga por todos os meios. Tornou-se consenso que se vive desde a década de 1980 em um universo pós-moderno, cuja característica fundamental seria a descaracterização dos signos. Os meios convencem o receptor de que é possível recriar os significados no exato momento em que a comunicação se processa, e que ele, receptor, torna-se autor individual de uma nova História ao participar dessa simulação gerada pela substituição progressiva dos significados por metáforas aleatórias. Contraditoriamente, a primeira simulação se processa no eixo da notícia, que é o veículo transcendental do conhecimento. Mais ainda do que a televisão, os meios impressos são os portadores eficazes dessa semiologia bizarra, tanto mais nociva quanto mais se crê na palavra impressa. A ilusão que os meios propagam, de que o indivíduo “informado” nesses termos tem mais valor na sociedade, corrói não apenas a realidade, substituindo-a por simulacros desconexos entre si, como, em conseqüência, vai despindo de significados o próprio discurso baseado na palavra. Esse processo, que consiste em representar e significar idéias inconscientes por meio de outras idéias inconscientes ou “conceitos de fantasia”, não apenas está na raiz do atual estágio de ignorância arrogante que transpira da maioria dos textos de Imprensa, como vai progressivamente transformando a própria palavra numa excrescência quase fisiológica. Nem a literatura escapa dessa maldição, na medida em que editores e escritores se sentem compelidos, às vezes prazerosamente, a aceitar e justificar rótulos e “tendências” selecionados segundo valores de momento. Nem se pode dizer que a imprensa seja refém ou vítima de uma revolução tecnológica que acelera as comunicações num ritmo jamais imaginado pelo senso comum. Não há, nunca houve, o alardeado conflito de meios: a Imprensa abdicou de sua alma, a qualidade de produzir reflexão, antes mesmo de a televisão ou a Internet serem tidas como ameaças ao negócio de distribuir informação pela impressão de palavras e imagens. A Imprensa é, antes de tudo, cúmplice e autora do processo que vem reduzindo celeremente sua relevância.

Cap. 2

Esse tráfico simoníaco das essências da comunicação humana está criando uma nova semântica em praticamente todos os idiomas em cujos territórios a Imprensa tem sido instituição culturalmente importante. Não apenas o computador e a Internet têm dado origem a uma linguagem específica, como decorrência natural de sua interferência nos modos de fazer registros e trocas e da necessidade de descrever o universo virtual: os agentes dos meios escritos, a quem competiria resguardar os valores e a semântica do mundo real, se antecipam e decretam o fim do substantivo. O êxtase da adjetivação nos lança no interior de um globo habitado por personalidades auto-referentes e eventos repetitivos, ambiente do qual a originalidade e a criatividade estão banidas, no qual o bobo-da-corte vale tanto quanto o rei, num simulacro de democracia em que o poder real se dilui na impossibilidade de se reconhecer interesses coletivos entre a multiplicidade dos desejos individuais e verdades eventuais. Vivemos, como antecipou nos anos 70 o filósofo transnacional Villén Flusser, o fim das relações interpessoais pela impossibilidade da caracterização dos interlocutores: as pessoas estão sendo substituídas pelos eventos. Segundo Flusser, ao colocar as pessoas em movimento constante, os meios dissolvem a individualidade a tal ponto que já não a reconhecemos senão sob a forma de notícia, ou de evento público. O evento torna-se simulacro de relação social, as emoções se banalizam, e já nem se pode falar em um movimento dialético dos tempos, uma vez que a teia de simulações não admite o compromisso com idéias. Falta-lhe materialidade e, no ambiente culturamente difuso que esse universo origina, tudo pode ser qualquer coisa. Basta que os meios o referendem, e aquilo que antes era banal se torna essencial, aquilo que era fundamento se transforma em banalidade. A especulação é tratada como ciência, o boçal é ungido sábio, a violência vira entretenimento Flusser gostava de destacar a diferença entre gesto e atitude como exemplos daquilo que denominava “movimentos-signo”, para ensinar aos seus alunos, candidatos a jornalistas, publicitários, cineastas, um princípio que considerava essencial para aqueles que pretendiam fazer parte do “povo do meio”. Para estes, o gesto seria um luxo que jamais se poderiam conceder. Para estes, o único movimento-signo aceitável seria a atitude, porque afirmativo e sempre carregado de um “significado ativo”. Jamais o gesto, jamais o movimento-signo vazio de ação. Certa vez, durante uma aula na Fundação Armando Álvares Penteado, Flusser derrubou uma mesa e quebrou seu cachimbo ao encenar, sem palavras, a diferença entre os dois movimentos. “Sob ditadura, alienar-se é subverter”, afirmou. O linguista Antônio Sodré Cancela Cardoso, autor de “(O) Culto Idioma”, propôs uma sintaxe de resistência contra a deterioração do Português nos meios de comunicação.

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Ele decompõe os fonemas e os recompõe em novos significados, tomando como guia sua configuração gráfica e os sons que representam. Ele pretendeu formular um antídoto contra o empobrecimento da língua, oferecendo ao “povo do meio” um jogo pelo qual o ato de escrever se tornasse uma permanente remissão às fontes de cada palavra, ainda que essas origens pudessem ser reinventadas a cada ato de escrever. De certa maneira, a Imprensa se apropria perversamente do jogo proposto por Sodré Cardoso: o idioma é reinventado a cada edição, ao sabor dos eflúvios da moda, simulacro de ideologia nestes tempos de massificação. O compositor é semi-analfabeto? Não, trata-se de um reinventor da linguagem, ícone da liberdade contra os grilhões da gramática. O artista não estudou composição? Não, sua genialidade está exatamente na coragem de romper os limites do visível e propor uma nova pulsação para as tonalidades, e estamos conversados. Saiu no jornal, foi publicado na revista. Não haverá quem diga que o rei está nu, e, olhando de perto, não é grande coisa.

Cap. 3

A apropriação, pelos meios impressos, da linguagem e, em seguida, da elasticidade de valores da televisão, deu origem a um processo de banalização dos fatos sociais, que passaram a ser tratados sob o foco da emoção imediata e breve. O uso corriqueiro de expressões inadequadas pelos meios impressos ou a leviandade com que se apropriam de vocabulários de moda vem conferindo certo tipo de legitimidade à linguagem televisiva, da qual se espera efeito imediato de fácil assimilação e rápida disseminação, ao contrário da comunicação escrita, destinada a provocar reflexões e efeitos de longa duração. Além de causar uma desvalorização progressiva da linguagem escrita, pela superposição de significados, às vezes contraditórios, a uma mesma expressão, essa prática eleva à condição de formadores de opinião protagonistas cuja principal qualificação é justamente a falta de consistência opinativa.
Não que a Imprensa devesse ignorar a moda como fenômeno social ou assumir uma posição de Quixote contra os moinhos de vento da televisão e demais meios dedicados ao trato da imagem. Trata-se, pelo contrário, de manter na pauta os fatos ligados ao mundo do entretenimento, mas para buscar uma compreensão mais profunda das mudanças sociais provocadas e permitidas pelo ingresso de novos meios ao mundo da comunicação, sem, no entanto, abdicar do senso crítico. A credibilidade, que sempre foi a razão principal da relevância da Imprensa, se coloca sob risco quando os meios impressos se deixam “colonizar” pelos meios de imagem e som não apenas em termos de linguagem, mas por conseqüência, também em termos de valores. Ao assumir a celebridade, qualidade intrinseca dos meios televisivos, como valor superlativo e sinônimo incondicional de sucesso, a Imprensa não só promove uma distorção no seu próprio significado como empreendimento socialmente relevante, mas também gera nos profissionais formados sob o signo da TV uma tendência a buscar em primeiro lugar o destaque pessoal, antes mesmo das qualificações essenciais para um bom jornalista. Muitas carreiras construídas a partir dessa perspectiva já alteram o perfil profissional da Imprensa em muitos países. O repórter L. Bernstein, co-autor do livro “Todos os Homens do Presidente”, sobre o episódio de Watergate, tem feito referência a distorções desse tipo e à disseminação daquilo que denomina “valores Murdoch”, como referência ao jornalismo de muitos escândalos e pouca responsabilidade praticado por jornais “tablóides” como os de propriedade do empresário australiano Rupert Murdoch. Não por acaso, a onda de indignação contra os “papparazzi” acusados no caso da morte da princesa Diana acabou atingindo indiscriminadamente todos os jornais e a imagem pública dos jornalistas.

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Na confusão gerada pela própria Imprensa ao falhar em seu dever de educar, ou de informar didaticamente, o público reage como lhe foi ensinado: genericamente, emocionalmente, devolvendo sob a forma de intolerância o que faltou de reflexão no processo de comunicação. O filósofo brasileiro Sérgio de Gouvêa Franco, embora militante cristão e, como tal, preso a uma análise que tem como pressuposto a prevalência de um processo civilizatório de iniciativa e fundamentação divinas, abre caminhos para a percepção desse fenômeno que poderíamos qualificar como de desconstrução da Imprensa. Em seu livro intitulado “Hermenêutica e Psicanálise na Obra de Paul Ricoeur”, Gouvêa Franco observa que, segundo Freud, Nietzsche e Marx, vivemos “em uma situação social que camufla, disfarça e esconde”, para em seguida oferecer uma parábola sobre os meios ao confrontar a notícia da morte de Deus com a realidade da permanência desse mesmo Deus depois de Zaratustra. O filósofo questiona, então, o portador da notícia, o autor da “reportagem”sobre a morte de Deus, com a lembrança de que a repercussão do fato noticiado obscurece a compreensão do próprio fato e com uma prospecção arqueológica das razões anteriores à notícia, que ficaram soterradas pelas interpretações decorrentes. A reflexão cabe na análise da Imprensa tanto mais quando se recorda que Ricoeur é também, lembra Gouvêa Franco, teólogo, educador e psicanalista: de todas estas fontes os meios de comunicação têm se apropriado para dar valor de credibilidade e atualidade ao que se publica.

Cap. 4

A apropriação de disciplinas ou de partes delas, prática comum na história dos meios de comunicação, ganha, com o processo crescente de massificação, proporções tais que se torna difícil encontrar os limites ou diferenças entre elas. A linguagem psicanalítica se mistura a expressões de linhas pedagógicas distanciadas nas perspectivas de tempo e das diversas realidades culturais, a teoria marxista se transforma em convenção inócua, a filosofia e a história desaparecem sob a avalancha de citações fora de contexto utilizadas para justificar opiniões tomadas a priori e sempre destinadas a reafirmar a irrealidade. Nesse ambiente sem paradigmas, pode-se questionar até que ponto as doutrinas e disciplinas que formam a história da evolução do pensamento humano têm contribuído de fato para o processo civilizatório, uma vez desconstruídas pelo meio. Ou, numa abordagem a partir do meio, está explícito que até o pensamento precisa ser referendado pelos meios para existir. Por mais que essa cultura mediática renegue o contraditório, não há como dissimular que sua essência é uma contradição: no ambiente em que se supõe predominar o liberalismo mais absoluto não há lugar para o livre-pensar. Só é reconhecível aquilo que traz ou foi precedido por suas próprias referências, no círculo acrítico que se formou. Nascida no berço do livre-pensamento, a Imprensa agoniza no leito politicamente correto do pós-modernismo, que insiste em chamar de pós-modernidade. O meio rejeita a idéia de uma História em curso, decreta o fim da ideologia e se deleita com a hipótese da perenidade que dura uma edição. Talvez porque seus agentes, incapazes de entender aquilo que não seja relatado linearmente, tenham necessidade de criar uma nova hermenêutica que dispensa a dialética e o controverso, pela qual se revela uma erudição feita de simulacros, mas ainda reconhecível no ambiente mediático sempre autorreferente. Na verdade, a circularidade desse sistema de valores remete a sociedade mediada de volta ao Renascimento, mais propriamente ao período do Idealismo, uma vez que a suposta ausência de preconceitos constitui de fato um predominante e fatal preconceito: o de que só existe aquilo que é noticiado. O aspecto religioso de que se revestia a criação artística na visão dos críticos idealistas se repete na era da massificação, quando tudo exige a unção do meio e o ritual da celebrização. Todas as qualidades desaparecem quando a celebridade se impõe. Depois que se torna célebre, todo fato, pessoa ou instituição perde as características de que era formado para se tornar grandiosa e simplesmente uma celebridade. Tudo se torna evento, e aquilo que era qualidade deixa de existir. Será preciso, daí por diante, justificar a permanência sob as luzes do meio com mais movimento, e sábio será aquele ser mutante que souber eleger entre os rótulos disponíveis aquele que justifique sua permanência entre os eleitos. Melhor: que o eleve à grandeza de musa, ícone, referência.

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Um dos fenômenos que se pode prever nesse contexto é o sequestro do campo intelectual: a imprensa vai se transformar num sistema totalitário a determinar o que é válido ou não como arte, música, literatura, pensamento. Assim, se sua veia musical está seca, escreva um livro sobre sua veia musical. Deixe que digam, que pensem, que falem que se trata de uma biografia, depois escreva artigos e conceda entrevistas revelando que na verdade é pura ficção, ou que você acaba de inventar a biofictiografia, explicando que o trabalho artístico (já, então, ninguém duvidará de que se trata mesmo de arte) é uma expressão de uma idéia pré-existente. Se algum chato ainda se lembrar de que isso soa a teologia, não perca a oportunidade para fazer polêmica. Diga que você é pós-estruturalista e que na verdade seu livro é a desconstrução da sua obra anterior, que, reconstruída em uma expressão diferente, constitui uma obra nova e inovadora. Anuncie, então, seu novo disco, que, naturalmente, será uma referência ao seu livro. Só não cometa o pecado de confessar que sua veia musical estava vazia, que você gastou seu talento inventando movimentos, que você acabou se transformando em uma eventualidade e que perdeu importância: todos aqueles críticos que vivem na sua órbita irão odiá-lo por ter furado a pauta. Você se tornou uma unanimidade. Você está morto.

*Este texto foi produzido originalmente no dia 25 de fevereiro de 1998. Para os amigos que cobram novas manifestações de um ex-observador da Imprensa, um texto ensaiado em 1998 e atualizado em 2012.

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3 comentários

  1. Em suma, talvez seja o

    Em suma, talvez seja o seguinte: comunicação e visão do ser e do mundo é uma só coisa, a pauta.

  2. Imprensada Impressionista da imprensa Impressionou-me!

    Professor Luciano, muitíssimo agradecido pelo que pude entender pelas suas reflexões no Observatório da Imprens, o qual acompanhava encantado!

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