O Copom ameaça com a Selic, por Paulo Kliass

A elevação da SELIC apenas oferece ao sistema financeiro mais uma bela oportunidade de aumentar seus ganhos.

O Copom ameaça com a Selic

por Paulo Kliass

            Mais uma vez o comando da política monetária coloca em marcha sua estratégia da chantagem sobre a grande maioria da nossa sociedade. O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, tem afirmado em alto e bom tom que não medirá esforços para continuar na trilha de elevação da taxa referencial de juros, “caso seja necessário”. Estamos a uma semana da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), que será realizada durante os dias 21 e 22 de setembro.

            A reunião do colegiado nada mais é do que um encontro especial dos próprios integrantes da diretoria do BC, que se sentam à mesa a cada 45 dias para discutir assuntos de política econômica e monetária e para decidir a respeito da SELIC. Ao que tudo indica, a 241ª reunião deverá elevar mais uma vez o patamar da taxa oficial. As apostas no interior do financismo variam apenas a respeito de qual seria o montante da subida.

            O fato é que o COPOM na atual gestão tem adotado, ao longo dos últimos meses, uma postura bastante dura no quesito do arrocho da política monetária. Depois de ter levado a SELIC de 6,50% a 2,00% entre o início de janeiro de 2019 e agosto de 2020, o comitê ainda a manteve nesse patamar baixo até março de 2021. No entanto, a partir de então, a cada um dos últimos quatro conclaves, a decisão foi por um novo aumento, de forma que a taxa está atualmente em 5,25%.  Para esse pessoal, pouco importa se o desemprego está atingindo mais de 14 milhões ou se estamos retroagindo nosso PIB para meados da década passada. O que interessa é o “pulso firme” na destruição da economia real, das empresas e das famílias.

            O argumento surrado de sempre utilizado pela direção do BC é o risco da volta da inflação descontrolada. É bem verdade que os índices de preços têm registrado elevações expressivas ao longo dos últimos meses. A meta oficial para o índice oficial de preços para 2021, tal como definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3,75% ao longo do ano, com um intervalo 1,5% para cima e para baixo. Assim, o teto superior seria 5,25%. É fato conhecido que o IPCA acumulado dos últimos 12 meses está bem acima desse teto. O indicador apurado pelo IBGE registra quase o dobro, ou seja, 9,68%.

            No entanto, os principais fatores que levaram a esse aumento nos preços estão associados a movimentos sobre os quais a elevação da taxa de juros tem muito pouco ou quase nenhum efeito. O modelito de planilha que opera nas cabeças dos tomadores de decisão no governo econômico de Paulo Guedes ainda remonta aos diagnósticos da inflação supostamente causada por aquilo que o economês chama de excesso de demanda. Assim, nestes casos, os manuais de macroeconomia da ortodoxia fora de época e de lugar recomendam promover a elevação da taxa de juros oficial. A hipótese subjacente é de que os ditos “agentes econômicos” retirariam os recursos inicialmente destinados ao consumo e os redirecionariam para algum tipo de poupança, atraídos pela maior rentabilidade financeira. Como se a maioria da população ainda tivesse alguma sobra em sua renda ao final do mês para promover a tal da “alocação ótima de recursos”.

Alta da SELIC prejudica os mais pobres.

            Enfim, a racionalidade implícita é que, face à suposta redução na demanda agregada por produtos e serviços, os preços tenderiam a cair de forma generalizada. Santa ingenuidade ou enganação safada? Cada um que fique com sua hipótese de trabalho. O fato concreto é que o processo inflacionário atual passa longe daquele por eles idealizado. No Brasil de hoje, ninguém vai reduzir consumo de eletricidade por conta dos juros. As contas de luz recentemente majoradas já promovem essa diminuição automaticamente, em especial e de forma trágica para população de baixa renda. Ninguém vai comprar menos alimentos por conta da elevação da SELIC. As dificuldades em controlar as despesas domésticas, em ambiente de recessão e desemprego, também se encarregam desta triste decisão no âmbito das famílias.

            A elevação da SELIC apenas oferece ao sistema financeiro mais uma bela oportunidade de aumentar seus ganhos. De um lado, pelo aumento da remuneração financeira da rolagem da dívida pública, uma vez que ela é a taxa de base que opera como referência para esse mercado de títulos públicos. De outro lado, pelo aumento dos “spreads” cobrados nas operações de crédito e empréstimo oferecidas pela banca. Aliás, é importante registrar que o financismo tupiniquim nunca se deixa abalar por decisões no âmbito monetário. Sempre ganha, e muito. Ao longo do período em que a SELIC caiu de 6,5% para 2,0%, por exemplo, o “spread” médio do sistema financeiro caiu apenas de 18 para 15 pontos percentuais, segundo informações do próprio BC. Ou seja, o taxa oficial caiu para menos de um terço, ao passo que o ganho do sistema esteve longe disso – foi reduzido em apenas 20%.

Governo deveria atuar na oferta.

            O combate ao crescimento de preços verificado atualmente deveria passar por ações do governo na dinâmica da oferta e não da demanda. No caso dos alimentos, por exemplo, a responsabilidade toda por esse descalabro cabe ao superministro da economia, que resolveu eliminar a importante e estratégica política de estoques reguladores. Esse é o mecanismo existente na grande maioria dos países do mundo, uma vez que a alimentação é essencial e a população não pode ficar à mercê de eventos climáticos, quebras de safra e pressões especulativas no mercado internacional. Assim, com os estoques em seu poder, o governo pode entrar aumentando a oferta de determinados produtos em momentos de crise ou carência. Mas isso já seria demais para a mente liberaloide de quem acredita piamente apenas nas leis de oferta e demanda como solução para a busca de equilíbrios idealizados.

            Já no caso dos combustíveis, os problemas remontam à decisão genial de Temer & Meirelles, ainda em 2016. Naquele momento optou-se por atrelar a política de preços da Petrobrás às variações do preço do petróleo no mercado internacional. Uma loucura! O Brasil diminuiu drasticamente sua capacidade de refino e passou a exportar óleo bruto e a importar os produtos derivados, como gasolina e diesel. Com isso, passamos a sofrer diretamente os efeitos da desvalorização cambial e dos aumentos especulativos do petróleo no mercado internacional de “commodities”. Esse movimento afetou diretamente a nossa economia de forma horizontal, dada a dependência de nossa matriz produtiva e de consumo aos derivados. Os transportes individuais, coletivos e de cargas tornaram-se cada vez caros e o gás de cozinha afetou gravemente a vida das famílias.

            Mas isso em nada altera o olhar obtuso das autoridades do comando da economia. Elas insistem na ameaça da elevação da SELIC como a única solução possível para enfrentar a alta de preços. Em tom dramático, Campos Neto afirmou a seus pares, em evento organizado pela nata do financismo:

(…) “Vamos levar a Selic para onde precisar levar” (…)

            Ao que tudo indica, para esse povo das finanças, o céu continua sendo o limite. Pouco importa quais os efeitos destruidores que tal decisão possa causar no cotidiano da grande maioria da população. O importante para os que estão na direção da política econômica é assegurar que não haja perdas para os poderosos detentores do estoque de riqueza financeira. E o restante da sociedade? Bem, isso tudo se espera que seja acertado, no mais breve intervalo de tempo, por meio da busca do sacrossanto equilíbrio entre as curvas de oferta e de demanda.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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