Os líderes das fake news, seus seguidores e as lutas do pós pandemia, por Arnaldo Cardoso

A que ganhou maior repercussão, cultivada sobretudo por Trump e Salvini, foi a de que o vírus SARS-CoV-2 teria sido desenvolvido num laboratório chinês e, por extensão, que faria parte de uma estratégia chinesa “comunista” para dominar o mundo.

Os líderes das fake news, seus seguidores e as lutas a serem travadas no pós pandemia

por Arnaldo Cardoso

A rede britânica BBC divulgou dias atrás uma lista dos políticos que mais disseminaram fake news sobre o coronavírus e, na liderança se encontram Trump, Bolsonaro e Salvini, nada menos que o presidente dos EUA, do Brasil e o ex-Ministro do Interior e ex-vice Primeiro Ministro da Itália e hoje senador, figuras públicas que, antes mesmo de competência deveriam ter decência e senso de responsabilidade pelo poder que exercem, quer seja por ocupar elevados cargos públicos e ter prerrogativa de tomada de decisões quer por seu poder de influenciar milhões de pessoas.

Entre as muitas fake news plantadas e/ou disseminadas por esses políticos no contexto da gravíssima pandemia que ainda abala muitas nações do planeta – com destaque às destes políticos –, a que ganhou maior repercussão, cultivada sobretudo por Trump e Salvini, foi a de que o vírus SARS-CoV-2 teria sido desenvolvido num laboratório chinês e, por extensão, que faria parte de uma estratégia chinesa “comunista” para dominar o mundo. Juntou-se assim uma fake-news com uma teoria da conspiração, artefatos muito utilizados na ação política do chamado “populismo digital” desses líderes de extrema direita.

No mencionado programa da BBC, Reality Check, o jornalista Chris Morris explicou que, embora as fake news se propaguem pela internet, nas redes sociais e demais plataformas de comunicação on-line, os políticos tem desempenhado papel relevante na validação e estímulo à sua propagação, quando não, na própria produção delas.

No caso do merecido lugar conquistado pelo presidente brasileiro na nada auspiciosa lista ele se deu especialmente pela sua aparentemente desproposital e, sobretudo, irresponsável defesa do medicamento cloroquina para o combate do coronavírus, não sendo ele médico e nem sequer demonstrando compreensão do que defendia e sem fazer qualquer menção aos possíveis e sérios efeitos colaterais do uso do medicamento utilizado no tratamento da malária. Essa mesma propaganda da cloroquina já havia sido feita pelo presidente norte-americano, a despeito das várias declarações contrárias de diferentes autoridades médicas quanto a não evidência de efeitos benéficos na adoção da medicação no tratamento da covid-19. A decisão de uma autoridade pública não pode basear-se em meia dúzia de casos particulares, dependendo de testes em maior escala para embasar uma decisão responsável. Nesse contexto é o anti-intelectualismo e o negacionismo que se fazem operantes.

No programa citado (https://www.youtube.com/watch?time_continue=173&v=zZ4BUc_64vs&feature=emb_logo&fbclid=IwAR2iKjKYQSlLQiUAcHS4XnAbYOoh85TDslEhI3mu4BEDPJ2WCTVFwBUa6Wc ) o jornalista da BBC não deixou de expor a insólita situação em que um presidente da república, no caso, Bolsonaro, tem suas mensagens sobre o uso da cloroquina removidas pelo Facebook, Instagram, Twitter e Youtube por conterem informações falsas em meio a uma escalada de mortes em seu país e no mundo.

Tanto no caso da tese do vírus fabricado em laboratório quanto no da suposta eficácia da cloroquina no tratamento da covid-19 as fartas referências científicas como as matérias publicadas nas renomadas revistas especializadas Lancet e Nature Medicine, resultante da investigação de pesquisadores do Scripps Research Institute demonstrando que o vírus não fora produzido por humanos e os resultados de várias pesquisas com testes realizados com pacientes de covid-19, especialmente dos EUA, que não atestam os efeitos positivos do referido medicamento, não servem de argumentos para a contraposição às correspondentes fake news. Contra elas os argumentos científicos não funcionam.

Diante desse estado de coisas, me junto àqueles que veem como necessário o reconhecimento de que os fenômenos da reprodução de fake news e da crença em teorias da conspiração não podem ser vistos simplificadamente como expressões da precariedade de formação escolar de seus receptores e disseminadores, como reflexo da ignorância (como popularmente se diz), nem tampouco resultante apenas da displicência característica da prática hoje comum de compartilhamentos automáticos de mensagens que circulam na web. Não. Para a compreensão desses fenômenos é preciso atentar para outras questões, lançando luzes sobre os que se servem das fake news como instrumentos para suas estratégias de dominação e manutenção de poder e das motivações – até mesmo inconscientes – daqueles que as recebem, compartilham e as defendem com fervor.

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Uma das avaliações que me parecem decorrer desse estado de coisas é o  fracasso aparente da ciência em tornar acessível e válido, digno de respeito social, o conjunto de valores – para além dos constituintes da técnica, pragmaticamente assimilados para fins materiais de existência – que a norteia e assim conferir-lhe legitimidade, e por outro ângulo, os sentimentos que, produzidos socialmente, tem sido invocados como referências para afirmação de  pertença do indivíduo em grupos sociais, por vezes antagonizados com a noção mais ampla de sociedade e de consensos sociais caracterizados pela diferença e pela complementaridade desses diferentes.

Recentemente na Itália, o triste episódio envolvendo a jovem italiana de 19 anos, Valentina Wang, nascida no Veneto e de ascendência oriental que foi agredida e humilhada num trem antes mesmo da evolução da pandemia do coronavírus no país, já prenunciava a campanha de ódio étnico contra chineses que veio a ganhar espaço no país, campanha estimulada por membros da extrema direita, ao mesmo tempo em que avançava a disseminação do coronavírus. Matteo Salvini fez várias postagens em suas redes sociais de mensagens anti-imigrantes e, especialmente, hostilizando chineses e culpabilizando o país asiático pela pandemia. Seus posts receberam milhares de likes e foram compartilhados por dezenas de milhares de seguidores. (Só no Facebook Matteo Salvini tem 4,5 milhões de seguidores. Hoje, 21/05, inseriu 18 posts.).

É certo que o que de mais importante e profundo se deve extrair de episódios como esse não é conjuntural, não está restrito ao contexto da crise provocada pelo coronavírus e pelo oportunismo político de figuras como Salvini. Nesses episódios encontramos traços mais antigos como o do racismo e da xenofobia presentes na sociedade e que estão sendo reinvocados e manipulados por aqueles que se servem do ódio e da insegurança, sentimentos mais primários, para engajar e galvanizar suas bases de apoio. Isso certamente não é novo, mas tem sido rearticulado e explorado ostensivamente através do uso das novas tecnologias digitais.

Muito já se discutiu e escreveu desde 2016 sobre a “surpreendente” chegada de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos e o que de mais evidente saltou aos olhos foram os meios adotados por ele durante a campanha, no enfrentamento de seus adversários políticos e para a conquista do eleitor. A estupefação provocada por sua vitória não deveria ser tão grande e nem mesmo sua conduta como presidente. O mesmo pode ser dito de Bolsonaro e Salvini.

Particularmente no caso de Trump os sinais de sua disposição e táticas de que faria uso para jogar já estavam dados muito antes de seu lançamento como candidato na campanha presidencial de 2016. O cientista político ítalo-suiço Giuliano Da Empoli em seu livro “Os engenheiros do caos” apresenta os principais elementos daquilo que viria a ser o trumpismo.

Em 2010, início do primeiro mandato do presidente Barack Obama, Trump retirou dos ambientes mais tóxicos da extrema direita norte-americana uma especulação em torno da nacionalidade de Obama e usou de seus meios privilegiados para dar maior visibilidade a isso, alimentando uma típica teoria da conspiração. Lançando dúvidas sobre o local de nascimento de Obama, Trump alimentou questionamentos sobre o direito de Obama ter sido eleito presidente.

Nesse momento Trump já estava abrindo espaço junto a determinados setores radicais ou radicalizáveis da sociedade norte-americana donde futuramente sairiam seus eleitores e seguidores.

Numa reflexão muito bem conduzida sobre a base que daria sustentação ao projeto político de Trump, Da Empoli escreveu “Em primeiro lugar, o sinal de fumaça convocando a base do eleitorado tradicional, branco, impregnado de preconceitos e de racismo, que experimentou a eleição de Obama como uma aberração. Ao colocar em questão as origens do presidente, sob o véu sutil do argumento legal, Trump contesta, na realidade, a legitimidade que tem um negro para ocupar a Casa Branca.”

Respeitadas as diferenças, eu arrisco defender que é cabido, na mesma linha da análise de Da Empoli, um paralelo com os sentimentos de parte da sociedade brasileira em torno da eleição de Lula à presidência do Brasil. Conhecidos setores da sociedade brasileira, mesmo que oportunisticamente “colaborativos” durante o governo de Lula, sempre estiveram pré-dispostos a qualquer oportunidade de contestar a legitimidade da chegada de um nordestino, originário da classe social mais humilde, com limitada formação escolar, à presidência do país. Os preconceitos se estendem também ao seu partido, o PT, o primeiro no Brasil de base popular.

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É bastante revelador que o incômodo venha especialmente da classe média brasileira, sempre precária, desejosa de reproduzir modelos europeus e depois norte-americanos, escorada por alguns privilégios resultantes de uma sociedade patriarcal, racista e injusta, e empenhada a estender esses mesmos privilégios à sua prole. Para uma tal classe média, a vitória de um homem do povo com trajetória diferente da cartilha seguida e falsamente defendida como expressão de meritocracia, nunca seria bem digerida. Vê-lo denunciado e desconstruído foi sentido por essa precária elite como a restituição de seu direito ao autoengano e aos privilégios – poucos, mas distintivos de classe perante uma massa de miseráveis –.

Diferente de análises que identificam em circunstâncias excepcionais (combinação singular de fatores) as eleições de figuras como Trump, Salvini e Bolsonaro, tão caricatas do homem medíocre, orgulhoso de sua ignorância e preconceitos, considero importante analisá-las sobretudo como expressão do fracasso de muitos projetos políticos de sociedade. Que a chegada de cada um deles ao poder, ao posto de representação da “maioria” seja vista como a vitória de uma visão de mundo – que espero não seja definitiva –.

Diante do argumento de que foram eleitos, me parece válido apontar que o que tem se dado é uma perversão da igualdade inspiradora do regime democrático apontado por Tocqueville, que se degenerou em tirania da maioria.

Se o anti-intelectualismo da classe média – em tese aquela que, sob a democracia liberal, seria portadora dos anseios de desenvolvimento social – não é novo, nos dias atuais ganhou forma mais definida e violenta materializada na figura do ignorante empoderado.

Se como proposto ao longo deste texto o fato do fenômeno das fake news e das teorias conspiratórias encontrar em governantes e lideranças políticas seus principais propagadores e aproveitadores – como o programa da BBC britânica também sugere – e o fato de seus acríticos receptores, indivíduos de diferentes grupos sociais, as consumirem e disseminarem, nos levarem a inúmeras indagações, um ponto que me parece merecer redobrada atenção é o lugar dos terços da sociedade que assim se encontram divididas, como são exemplos o Brasil, os EUA e a Itália, só para ficar com os países dos quais provém os políticos apontados na matéria da BBC britânica como líderes na propagação das fake news.

Trump, Salvini e Bolsonaro, como indicam pesquisas de opinião realizadas em seus países, contam com um terço do eleitorado como apoiadores cativos. Um segundo terço é formado por convictos opositores, e um outro por indecisos, desiludidos com a representação e participação política, céticos, niilistas, egoístas e desconectados das noções de coletividade, que ironicamente se tornam o fiel da balança.

Deste último terço depende a formação de maioria, de acordo com as especificidades de cada regime e sistemas político e eleitoral. (Não é casual que nesse momento crítico no Brasil, mais uma vez, seja o chamado Centrão que se converteu em tábua de salvação para a governabilidade. Mas como muitos analistas têm apontado, nesse Centrão não podem ser encontradas as virtudes da moderação, mas sim o oportunismo político e o descompromisso com projetos para o enfrentamento dos reais problemas do país).

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Na literatura política, encontramos em diferentes autores, de diferentes perspectivas, a discussão sobre o sujeito social da ação. O Partido? O Estado? As instituições? A classe trabalhadora? O governante? Os intelectuais? As vanguardas culturais? Os movimentos sociais? O povo?

Da história dos últimos dois séculos podemos extrair lições sobre diferentes acontecimentos em que diferentes atores ocuparam a cena principal em momentos conturbados como o presente, com seus respectivos resultados.

A premiada jornalista brasileira Eliane Brum, voz que se destaca pela contundência e coragem com que expõe suas ideias, iniciou um artigo publicado em 01/01/2020 no jornal El País, intitulado Os Cúmplices, com as seguintes afirmações “nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. Logo adiante Eliane Brum completa “Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação.”

Diante de tudo que está posto a omissão é a pior escolha. Há muitas formas de ação para a promoção de mudanças.

Há um tanto de confiança hoje depositado nas ações configuradas pela tecnopolítica. Se começamos esse texto tratando de fake news que circulam no ciberespaço, é importante lembrar que não são só as milícias digitais da extrema direita que povoam a web, há gente com sérios e sinceros propósitos liderando ações virtuosas amparadas pelas tecnologias digitais na web que produzem impactos sociais positivos para milhões de pessoas pelo mundo. Em meio a essa pandemia ficou ainda mais evidente que o espaço virtual se tornou real e que há uma luta nesse espaço. A política do ódio, do confronto, da intimidação, busca impedir a liberdade de pensar e compartilhar publicamente ideias. Mas diariamente se levantam vozes individuais e coletivas ocupando espaços.

Mas certamente essa é só uma das frentes da batalha que precisa ser empreendida contra a exploração, a desigualdade, o obscurantismo, o ódio, a discriminação e  o negacionismo das conquistas civilizatórias alcançadas por meio de lutas que trouxeram melhoras em vários aspectos para a vida das populações.

Devemos estar prontos para no pós-pandemia voltarmos a ocupar as ruas e as praças mais que as fábricas e os shoppings.

A luta será mais do que nunca necessária pois os sinais já emitidos pelos que estão no comando são de conluios entre lideranças políticas antidemocráticas e de grandes corporações industriais e de serviços organizadas oligopolisticamente assim como os poderosos agentes das finanças mundiais. Nova onda de pressões sobre o trabalho, para descontratualizar as relações entre trabalho e capital avançarão na esteira da recessão econômica global.

Ocupar o espaço com ideias e novas parcerias, propostas para melhores formas de uso dos recursos e disposição para a ação serão ações necessárias.

Persistir na luta pelo empoderamento daqueles que acreditam e podem contribuir para uma reconstrução das sociedades, por todos e para todos, deve ser a utopia a animar a todos. E que seja então uma utopia para realistas, no sentido de tornar possível aquilo que ainda não foi experimentado, mas que encontra na realidade elementos que lhe permitem a construção.

Arnaldo Cardoso, cientista político

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