Por Lúcio Verçoza

Diziam as mais hipertrofiadas línguas do Café Ponto Central que, durante uma reforma na casa de Julião Tavares, os pedreiros perguntaram se poderiam comer as frutas nos galhos do quintal. O patrão concordou. A obra durou poucas semanas. No dia do pagamento, Julião Tavares levou um saco misterioso. De dentro do saco cinza retirou lentamente os caroços de manga, jambo e pitomba. Contou um por um, como quem conta metal reluzente. No final, abateu do salário dos empregados a quantidade de frutas chupadas. Desde aqueles longínquos anos que o visionário Julião Tavares pratica o princípio do negociado sobre o legislado.

Mas nem sempre era assim, as mesmas línguas hipertrofiadas dos cafés de Maceió reconheciam que Julião Tavares também sabia ser generoso. Certa feita, ele serviu torradas para alguns de seus subordinados. Quando as torradas acabaram, pediu para a cozinheira trazer o peru. Todos olharam com espanto. O peru, indiferente e imponente, bicou os farelos por sobre a mesa e em seguida avançou grugulejando em direção as migalhas no colo de quem estava sentado. No final da reunião, Julião Tavares e o peru saíram satisfeitos. – Não existe torrada grátis.

Desde então, muitas décadas se passaram. Não restaram nem os ossos do peru, mas Julião Tavares continua mais vivo do que nunca e com o mesmo rosto balofo. Bacharel de direito, herdou a Tavares & Cia, tornando-se negociante influente, dono de prédios e terras, um sujeito digno de consideração por parte do Estado – ainda que seja um mau pagador de impostos.

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Depois de uma vida inteira fantasiado de diferentes colorações políticas – “Pois governo é governo” –, descobriu, em algum momento entre junho de 2013 e agosto de 2016, que era ultraliberal convicto. De lá para cá, se sente livre como um pássaro. Fez até questão de queimar um lenço encarnado e de esquecer, ou de fingir que esqueceu como, ao longo de sua existência, engordou o patrimônio da família com subsídios estatais, empréstimos a fundo perdido, perdão de dívidas milionárias e tantas outras formas de captura do orçamento público. Mesmo assim, insiste em se apresentar nos últimos anos como ferrenho defensor do Estado mínimo.

Debaixo dos respeitáveis cabelos brancos, a mente inquieta procura decifrar para qual bolso vai a mão invisível do mercado. É um analista talentoso, talvez esteja entre os maiores influenciadores digitais da atualidade. Fez campanha notável no facebook, instagram e twitter pela aprovação da reforma trabalhista de 2017: “Nos dias de hoje a escolha é entre direitos ou emprego.” Sua frase lapidar foi compartilhada por gente que não acabava mais, inclusive por robôs.  A reforma foi aprovada, direitos trabalhistas foram corroídos, mas os prometidos empregos… bem, isso não vem mais ao caso. Agora está engajado na defesa de outra reforma: “É a previdência que impede o crescimento econômico. Só haverá prosperidade com a aprovação da reforma da previdência”. Com muito orgulho, é um dos entusiastas dessa campanha. Otimista que é, até começou a investir em ações do Itaú, Bradesco e Santander.

Recentemente, entrou na polêmica sobre a educação. Apoiou o corte de verbas, escreveu que curso superior deve ser para poucos e que as universidades públicas só terão plena autonomia quando forem financiadas pelo livre mercado. Do alto de sua idade avançada, nunca imaginou que pudesse defender tais ideias à luz do dia, sem nenhum tipo de subterfúgio e ainda ser seguido por tanta gente de bem e curtidora de postagens. Imaginava estar vivendo um sonho. – A vida é mesmo surpreendente.

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Todavia, no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. As retinas fatigadas de Julião Tavares enxergaram o dia 15 de maio de 2019 como uma pedra no meio do caminho de sua utopia ultraliberal. Formou-se um rio de asfalto e gente, um grande cordão de secundaristas, estudantes universitários, crianças de colo, idosos, professores, ciclistas, escafandristas, pais, filhos de diaristas, aposentados, balconistas, desdentados, dentistas, emboladores de coco, sindicalistas, capoeiras, desenhistas, soldadores, porteiros e violeiros… gente de todo lugar. – Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar.

O patriota Julião Tavares, o digital influencer Julião Tavares, de lá para cá anda preocupado e sem saber ao certo o que vai postar. O ultraliberal na economia Julião Tavares, o conservador nos costumes Julião Tavares, o visionário das reformas… a pedra no meio do caminho é difícil de decifrar. Pode se transformar em montanha, pode fazer o vento virar.

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1 comentário

  1. HIPOCRISIA PARLAMENTAR E A ESPERANÇA SUICIDA DOS ECONOMISTAS

    Todo início de governo federal é a mesma falsa tentativa de ser criado uma equipe econômica ‘top para tirar o Brasil do atoleiro financeiro. Assim que empossada, marca-se reuniões para marcar outras reuniões para dizer que há necessidade de conter o aumento do dólar …reduzir a carga tributária…construir obras…negociar dívidas estaduais… e num passe de mágica o Brasil decola alcançado os 5, 6, 7 aumento percentuais no PIB.
    Resultado final: ciclicamente governos de esquerdas implantam o hiper-keynesianismo e após alguns anos governos de direita cortam o financiamento exacerbado dos esquerdistas na cruzada pela moralidade econômica. E o imbecil coletivo vai tendo esperança a ponto de discutir com familiares ou sair na mão no boteco dizendo que umas das teses é a ideal.
    Esse economista inglês, John Maynard Keynes, fez um grande sucesso quando fez parte de um grupo de pensadores com objetivo de tirar os EUA do buraco financeiro depois da crise de 1929, daí surgiu o ‘New Deal’, que foi o maior pacto trabalhador-governo-empresariado de que se tem notícia, mas não a figura de Keynes está sempre atrelada na filosofia da gastança nem que o mundo se acabe, sorte da direita que sempre vai ter esse álibi como instrumento de persuasão das massas.

    COMO ABOLIR ESSA CRÔNICA DA (DES) ESPERANÇA ETERNA NA ECONOMIA

    A solução passa única exclusivamente na mudança de Cultura financeira dos brasileiros, seja empregado ou empregador, ambos sofrem de medo de empobrecer, por isso o comando é sempre o mesmo: aquisição de imóveis ociosos, de modo que quanto mais tiverem menos risco de falirem ou morrem a míngua, haja vista o lucro que obtiveram com a reforma CLT sem converter compromisso algum em converter isso na geração de empregos, seja por causa de um confisco parcial ou de Poupança ou uma previdência de Capitalização que não deu certo em lugar nenhum.
    Um dia desses algum estudante-loko vai desenvolver uma tese de Doutorado constatando no quanto criminosos de baixo escalão movimentam a economia injetando dinheiro roubado em seu consumo, justamente por não terem como investi-los. Esse paradoxo xinfrim serve de ilustração para mensurar o quanto a sociedade brasileira carece de sabedoria, isso sendo bem mais acentuada em seus representantes hipócritas na política que enfiaram em seus eleitores goela abaixo a terceirização e a quarteirização dos empregos, que não melhorou serviços nem a vida do trabalhador em nenhum lugar do mundo, o excesso de Municípios que não resolveram em nada a vida urbana ou rural dos munícipes, o atestado de antecedentes criminal e civil (Serasa), que não reabilitaram quase nenhum infrator e inadimplente, a construção de verdadeiras muralhas de alvenaria nas escolas que ajudaram a distância o aluno da sensação de liberdade que é inerente nele, na invenção da aberração da Supersafra de monocultura que destrói a subsistência da esmagadora maioria dos agricultores que acabam migrando para cidade sendo humilhado diuturnamente até no que diz respeito a seu linguajar, o serviço de Zona Azul que não traz segurança a veículo algum, além de desestimular o acesso aos comércios locais…
    O Brasil emergencialmente deve discutir sobre as diretrizes básicas para seu funcionamento sem as amarras da hipocrisia política, isso turbinado pela falta de criatividade de seus gestores

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