“O Incêndio”: resenha do livro de Jörg Friedrich

A leitura do livro de Jörg Friedrich é essencial para qualquer um que pretenda ter um quadro completo do que ocorreu durante a II Guerra Mundial. As narrativas tradicionais daquele evento raramente dão a ênfase devida aos bombardeios anglo-americanos às cidades da Alemanha entre 1944 e 1945. Desde o final daquele conflito muito se falou do holocausto que os nazistas impuseram aos judeus e ciganos. Muito pouco se disse sobre a carnificina de civis alemães num momento em que os nazistas já estavam tecnicamente derrotados.

“O Incêndio” é dividido em sete partes. Na primeira o autor trata das armas utilizadas pelos Aliados. Na segunda é detalhada da estratégia militar que foi empregada. Na terceira Jörg Friedrich narra um pouco da história da Alemanha e lamenta a destruição do país e de sua história pelos bombardeiros Aliados. Na quarta são especificados os meios utilizados pelos alemães para se proteger da chuva de bombas incendiárias e de fragmentação despejadas sobre suas cabeças (bunkers e porões).  Na quinta parte o autor relata a atitude do povo diante dos bombardeios. Na sexta parte ele procura demonstrar como as tempestades de bombas atuaram sobre a psique das vítimas. Na última parte do livro Friedrich esclarece detalhadamente quais foram os efeitos da guerra aérea sobre os monumentos históricos destruídos ou parcialmente destruídos pelos aviadores ingleses e norte-americanos. Nesta resenha faremos um apanhado geral do livro de maneira a apresentá-lo ao leitor.

É verdade que os nazistas começaram a guerra aérea ao atacar Londres. Contudo, também é verdade que a retaliação de ingleses a norte-americanos não foi proporcional. Os aviadores ingleses reduziram a escombros mais cidades alemãs do que aquelas que foram parcialmente destruídas na Inglaterra pelos nazistas. Os pilotos norte-americanos também castigaram exageradamente os civis alemães, apesar de nenhuma cidade dos EUA ter sido bombardeada pelos pupilos de Göring.

A literatura militar justifica o ataque às cidades em razão do conceito de “guerra total”. As forças armadas de um país são abastecidas pelas indústrias do mesmo. Assim, as fábricas de armamentos são consideradas alvos militares. Como as fábricas ficam nas cidades as mesmas poderiam ser bombardeadas desde que as vidas e os patrimônios dos civis não fossem atingidos. As estradas e ferrovias também são tratadas como alvos militares porque podem ser utilizadas para o deslocamento de tropas e equipamento militar. 

O conceito de “guerra total” está intimamente ligado, portanto, ao de “bombardeio cirúrgico”. Afinal, mesmo considerando estradas, ferrovias e indústrias armamentistas alvos militares, os beligerantes não direito de bombardear civis indefesos. Note-se que desde o princípio do século XX os não combatentes eram protegidos pelas leis da guerra. Ao ler o livro o autor ficará com a nítida impressão que os norte-americanos e ingleses não estavam muito interessados em preservar a legalidade durante a II Guerra Mundial.

“Em Manheim, a zona urbana não possuía instalações industriais ou militares de relevância; era uma área exclusivamente residencial e fracamente defendida, prestando-se, portanto, ao papel de alvo experimental. Neste particular, muito contribuíra a sua nítida configuração em forma de quadrado. Suas ruas perpendiculares e seus blocos residenciais compactos, distribuídos em quadras, constituíam um verdadeiro laboratório para o estudo das ondas de choque decorrentes das explosões. Ainda não se pensava na propagação de incêndios. O alvo era o centro da cidade, e a ordem destruí-lo.”

Há uma contradição entre o conceito de “guerra total humanitária” (ataques cirúrgicos a alvos com valor militar preservando-se as vidas e o patrimônio dos não combatentes) e o bombardeio indiscriminado de cidades. É preciso entender como e porque ingleses e americanos despejaram milhões de toneladas de bombas convencionais e incendiárias em centenas de cidades da Alemanha que não tinham qualquer relevância militar. Apoiando-se em documentos da época Jörg Friedrich demonstra que os Aliados recorreram aos bombardeios ilegais por puro terrorismo.

“O Comando de Bombardeiros era capaz de atingir em cheio seu alvo, desde que o objetivo designado fosse algo que ele pudesse encontrar. Um círculo com oito quilômetros de raio era uma superfície pequena e inútil. As metrópoles iam muito  além disto; eram tão grandes, que não se conseguia atingir, com os meios disponíveis, todos os seus prédios e habitantes. Um estaleiro, em princípio, tinha de ser reduzido a cinzas; do contrário voltaria a funcionar em dez dias, no máximo. Em uma cidade, essa precisão irreal não era necessária nem desejável; destruí-la totalmente requeria um grande esforço e muitas perdas, quando defendida, e para isso não havia forças suficientes. O possível e aconselhável seria a destruição parcial, deixando que os sobreviventes, na parte restante, tirassem suas próprias conclusões. Consoante a disponibilidade de meios e a doutrina britânicas, a cidade era o palco do ‘bombardeio moral’.”

Apesar do palavrório empregado pelos Aliados o “bombardeio moral” é uma tática terrorista. O direito consuetudinário internacional desde longa data considera ilegal a punição de civis por considerações militares ou para provocar uma reação política. Os nazistas foram considerados criminosos de guerra porque empregaram o terror nos territórios ocupados. Os Aliados fizeram o mesmo na Alemanha e só não foram condenados porque os vitoriosos raramente aplicam às suas condutas os mesmos critérios que usam para julgar os derrotados.

Segundo o autor, o “…bombardeador sempre causa um dano localizado, quer o alvo seja plotado ou não. Em princípio, atira como um canhão, só que na vertical; se às cegas ou fazendo pontaria, não faz diferença. O ponto onde a bala do canhão explode é um alvo qualquer, atingido ora intencionalmente, ora por acaso. A divisão de tarefas entre batedores e bombardeiros altera as regras do jogo. As noções de tiro e alvo mudam. A função do batedor não consiste na indicação de um ponto, mas sim na sinalização de uma área. O que se encontra no interior da área não é propriamente atingido; apenas deixa de existir, some da face da terra. O extermínio é uma visão espacial da morte. A vítima não morre, pois a morte não existiu; trata-se tão somente de estar em um espaço onde a vida deixou de existir.”

À medida que a guerra avançava o número de aviões que bombardearam as cidades alemãs foi aumentando. Em 1942 os ingleses realizaram a “operação millenniun”.

“O ataque de mil bombardeiros significava uma enorme conquista no campo da tecnologia bélica, revelando a capacidade de uma força armada. Com isso, o Comando de Bombardeiros mostrava aos céticos que sua campanha era capaz de evoluir para uma guerra com características próprias. A Inglaterra logo passaria à condição de condutora da guerra, deixando de ser uma simples vítima com alta capacidade de absorção. É tempo de retirar as luvas, observou Churchill, comunicando ao Parlamento que, no decorrer daquele ano, todas as cidades, os portos e os centros de produção bélica ca Alemanha ‘seriam submetidos a uma prova de fogo em continuidade, potência e amplitude jamais experimentadas por qualquer outro país.’”

Os problemas para realizar um bombardeio tão grande eram fabulosos. Como manter tantos aviões em formação sem que os mesmos colidissem uns com os outros?

“Em Colônia, Harris (comandante da RAF) havia conseguido uma cadência de  12 bombardeiros por minuto, considerada de alto risco. No decurso da Batalha de Berlim, no outono de 1943, os lançamentos chagaram a 16 aeronaves por minuto, durante 45 minutos. Durante a noite de 23 de novembro de 1943, 752 Lancasters, Halifaxes e Stirlings despejaram 2.500 toneladas de bombas, com uma cadência de 34 aviões por minuto, sobre os bairros berlinenses de Tiergartem, Charlottenburg e Spandau, o que significou uma aeronave a cada 1,76 segundos.”

No começo da guerra de bombas o esforço dos Aliados foi superado pelo dos alemães. O que os ingleses destruíam era reconstruído. Fábricas inteiras foram desmontadas e transferidas para outros locais. Os alemães haviam aprendido a lição do Marechal Foch.

“Enquanto o aparato militar se industrializava, a indústria se militarizava. As perdas faziam parte do negócio. Podia-se remendar,  relocar batalhões de mão-de-obra e convocar substitutos. A indústria não era mais um ramo pacífico, a lamentar suas perdas. Causar e reparar danos eram rotinas que se alternavam, na batalha, sem um final à vista. Como dissera o marechal Foch, vitorioso em 1918, as guerras eram ganhas com as sobras.”

Já vimos que Aliados não estavam preocupados em fazer uma “guerra total humanitária”. Ao bombardear indiscriminadamente as cidades da Alemanha ingleses e norte-americanos pretendiam desmoralizar o inimigo. Entretanto, o bombardeiro a civis indefesos para obrigá-los a derrubar o regime (eufemismo para terrorismo) não surtiu qualquer o “efeito moral”. As práticas terroristas adotadas por norte-americanos e ingleses somente fizeram aumentar a resistência dos alemães e seu apoio a Hitler. Inconformados, os Aliados passaram a usar bombas incendiárias, a realizar uma verdadeira “guerra desumana”.

“Os dois ataques a Essem, no mês de março, deixaram 198 e 470 mortos; no segundo, a cifra atingida foi um recorde. Nas duas noites, foram lançadas 343 mil bombas incendiárias. Tamanha quantidade de bastões condutores carregados de térmita, pesando 1,7 quilogramas, não pode pressupor, em termos práticos, uma busca por alvos pontuais. O incêndio é uma arma que age de maneira muito diferente, e um bombardeiro assim carregado traduz a intenção de aniquilar uma superfície.”

O uso de bombas incendiárias indica claramente que os Aliados deixaram de fazer distinção entre combatentes e não combatentes. O incêndio provocado num local se propaga rapidamente para outro desde que existam materiais combustíveis. Assim, mesmo que os aviadores ingleses e norte-americanos despejassem suas bombas incendiárias sobre indústrias bélicas (o que de fato não ocorreu, como veremos) os incêndios se propagariam e atingiriam indiscriminadamente as populações das cidades atacadas.

Alguns dos encarregados de calcular os desumanos ataques incendiários Aliados tinham consciência de estar cometendo crimes de guerra. Mesmo assim, seguiram adiante porque nada poderiam fazer. Conforme “…a listagem da Conferência de Casablanca, o alvo era a cidade, o espaço onde se mora, vive e trabalha, que deveria ser danificado até o ponto em que dele só restasse o mínimo possível. Considerando que a arma disponível, no estágio atingido em 1943, não podia faze-lo de uma só vez, a experiência foi repetida 262 vezes em Colônia, 272 em Essem, 243 em Düsseldorf e 299 em Duisburg. ‘Me fazia mal’, escreveu Dyson, em 1984, ‘saber de tudo aquilo. Cheguei muitas vezes à conclusão de que tinha a obrigação moral de sair às ruas e dizer ao provo britânico os desatinos que estavam sendo feitos em seu nome, mas não tive coragem para tanto. Continuei sentado à mesa, até o fim, calculando a maneira mais econômica de matar outras cem mil pessoas.”

O relato emocionado e arrependido de Freeman Dyson, físico do Centro de Pesquisas Operacionais do Comando de Bombardeiros, é notável. Não só os governantes e militares ingleses e norte-americanos mataram intencionalmente milhares de alemães indefesos como mentiram para suas populações. Ninguém deve estranhar o fato de Bush II e seu poodle Tony Blair terem feito o mesmo para convencer seus conterrâneos a autorizar uma guerra contra Saddan Hussein por causa de armas de destruição em massa que não existiam. A mentira oficial pode ser considerada uma tradição anglo-americana que remonta à II Guerra Mundial.

A guerra aérea parece empolgante nas telas de cinema. Na vida real ela não tinha nenhum glamour. Os aviadores norte-americanos e ingleses levavam horas para chegar aos locais em que deveriam despejar toneladas de bombas sobre os civis indefesos. Se o tempo estivesse encoberto e o alvo não fosse localizado, as bombas seriam jogadas em qualquer outro local disponível dentro do raio de ação dos aviões. Com exceção dos pilotos de caças, que davam rasantes para metralhar os civis, as tripulações dos bombardeiros não viam suas vítimas. Às vezes, entretanto, seus aviões eram vistos pelos inimigos.

Os bombardeiros Aliados eram alvos das baterias antiaéreas e dos caçadores inimigos. Com o tempo, entretanto, passaram a despejar suas bombas tranquilamente porque já não existia mais qualquer resistência aérea ou terrestre aos ataques. Jörg Friedrich ressalta que os “…danos infringidos aos bombardeiros provêm, sobretudo, da ação dos caçadores. A aviação de caça tem de ser perseguida; é preciso destruir seus aeródromos, seus hangares e sua produção de peças e combustível. Obtida a supremacia aérea, não é difícil chegar às indústrias-chave, e tudo é reduzido a pó. Sem defesas, o adversário torna-se um objeto de castigo. Um alvo é algo que se destrói; o objeto é uma condição. No outono de 1944, os alemães chegaram à condição de entrega total ao castigo. Foi quando caiu sobre eles a maior densidade de munição.”

A inexistência de resistência nazista às incursões de bombardeiros Aliados faz presumir que doravante os alvos seriam criteriosamente escolhidos e que os ataques indiscriminados às cidades deixariam de ocorrer.  Jörg Friedrich  demonstra que não foi isto que aconteceu. Ao contrário. No momento em que a Alemanha estava mais vulnerável os norte-americanos e ingleses concentraram todo seu poder de aéreo na destruição sobre as cidades indefesas. 

“Entre janeiro e maio de 1945, um rolo compressor voltou a varrer o país; desta feita, praticamente desligado de objetivos militares e livre de  todos os riscos de combate. ‘Tínhamos de destruir novamente as cidades’ escreveu Harris, ‘a fim de eliminar alguns focos industriais que ainda resistiam. Na maioria delas, o que podia queimar já se transformara em cinzas, sobre as quais só era possível lançar as bombas de fragmentação que eu havia preparado para esse fim, em tempo oportuno e nas quantidades necessárias. Tratava-se, naquela altura, de agir contra ruínas, em cujos porões as pessoas haviam se escondido.’”

Em janeiro de 1945 o fim da II Guerra Mundial na Europa com a vitória dos Aliados já eram certos. Ingleses e norte-americanos avançavam por terra a partir da França e da Itália. Os exércitos soviéticos ganhavam rapidamente terreno empurrando novamente para a Alemanha os restos maltrapilhos de exércitos alemães que ousaram cometer o mesmo erro napoleônico. Hitler estava confinado no seu bunker sobre a Chancelaria do Reich e sua última aparição em público havia sido patética.

“Em fevereiro de 1945, o valor estratégico de Pforzheim crescera ao máximo, uma vez que consistia, pura e simplesmente, na sua total inutilidade para fins militares. Seus principais atrativos eram os bairros periféricos, a profusão de arenito, os becos estreitos e tortuosos do centro e as casas coladas umas às outras, sem paredes mestras. Não possuía defesa aérea, e a estrutura de combate ao fogo era modesta.”

A exemplo  de várias outras cidades alemãs Pforzheim foi sumariamente executada pelos aviadores ingleses e norte-americanos.

“A execução durou das 19h50 às 20h12. O furacão veio bem depois, começando com uma forte corrente de ar, seguida de um vácuo gelado e turbulento, no meio da fornalha, que até as 23h30 já havia incendiado toda a cidade, derretendo metais cujo ponto de fusão chegava a 1.700 graus. Após 22 minutos de atuação do mestre Swales, abatido no retorno, por um caça alemão remanescente, Pforzheim estava reduzida a lava incandescente, como se tivesse sido esmagada pelo punho de um ciclope de outras eras.”

À Pforzheim seguiu-se Hamburgo, onde foram “…queimadas entre quarenta e cinqüenta mil pessoas; setenta por cento dessas mortes ocorreram no centro…”. Em Hamburgo ocorreu uma verdadeira tragédia humanitária.  “Sete mil crianças e jovens perderam a vida; cerca de dez mil ficaram órfãos.”

Em Pforzheim e em Hamburgo os Aliados conseguiram atingir um objetivo que perseguiam há algum tempo. Bombas incendiárias e de fragmentação foram empregadas para produzir um turbilhão de fogo que aumentasse o potencial destrutivo da carga lançada sobre o alvo.

Em Hamburgo  os “… estreitos pátios se transformaram em calabouços ardentes, onde os prisioneiros sem saída, esperavam pela morte. No zênite do turbilhão, a simples irradiação de calor queimava as casas de uma só vez, de cima para baixo, reduzindo-as a uma língua de fogo. Como uma gigantesca bomba, as rajadas de vento sugavam todo o oxigênio dos porões das casas. Em seis horas de turbilhão, dois bilhões de toneladas de ar puro devem ter sido consumidas na chaminé se sete quilômetros de altura, ao redor da qual a velocidade horizontal do vento chegou a 75 metros por segundo. Sob tais condições, as pessoas perdiam o equilíbrio. Árvores de raízes profundas foram arrancadas, ficando apoiadas sobre a copa. Álamos foram vistos vergados até a horizontal. As equipes de resgate que recolheram os restos dos mortos por asfixia ou carbonização tiveram que esperar dez dias para que os escombros esfriassem.”

Os bombardeios indiscriminados tiveram um efeito indesejado antes do dia D.

“Na fase preparatória da invasão, a ofensiva dos transportes tirou a vida de 12 mil franceses e belgas, quase o dobro do total das mortes produzidas pelo Comando de Bombardeiros em todo o Reich no ano de 1942. Nas três primeiras semanas da invasão, morreram 7.704 soldados aliados; entre os alemães foram dez vezes mais. As opiniões eram unânimes: jamais houvera uma operação militar tão perfeita.” Durante a fase final da guerra, os bombardeios às cidades alemãs se intensificaram. Em conseqüência, milhares de franceses, italianos, holandeses, russos, poloneses, belgas, etc que estavam presos na Alemanha ou trabalhando nas fábricas daquele país também foram mortos. “No bombardeio de civis, conforme se constata, a diferença entre amigo e inimigo não chega a ser significativo. A guerra moderna pouco se importa com noções arcaicas do tipo inimizade. Isso faz parte da propaganda política, ao passo que as medidas de cunho militar se orientam pela conveniência.”

Sempre que tratam da II Guerra Mundial os historiadores se referem ao insidioso ataque a  civis com bombas V1 e V2 realizadas pela Alemanha nazista. Raramente o número das vítimas destes ataques é referido ou comparado ao que foi produzido pelos Aliados na Alemanha. Pois bem… O INCÊNDIO demonstra que as V1 e V2 alemãs mataram bem menos civis entre os Aliados do que os bombardeiros feitos para preparar o dia D, os quais liquidaram 12 mil franceses e belgas. Na “Grã-Bretanha, as V1 e V2 mataram 8.938 pessoas…”. Realmente é impossível comparar numericamente as vítimas das V1 e V2  às produzidas pelos bombardeiros Aliados na Alemanha.

“Quando o tema era a guerra aérea, os debates sempre terminavam com a elaboração de uma listagem contendo os nomes das cidades a serem atacadas, cuidadosamente escolhidas. Se o mau tempo interferia nos planejamentos, como no  outono de 1944, os impacientes norte-americanos abriam mão dos alvos logísticos de transportes e combustíveis, despejando sua munição sobre as localidades. No período correspondente à parada da invasão terrestre, entre setembro e dezembro de 1944, as forças aéreas aliadas mataram 107 mil pessoas; no mesmo período do ano anterior, haviam sido 23.500.”

O autor relata de maneira precisa como e quando ocorreu a destruição de dezenas de cidades. Dentre as quais se destacam Hürtegenwald, Düren, Jülich, Essen, Duisburg, Dortmund, Colônia, Bochum, Rostock, Bremen, Hamburgo, Kiel, Nuremberg, Kassel, Würzburg, Osnabrück, Münster, Telgte, Hannover, Munique, Düsseldeorf, Trier, Koblenz, Heilbronn, Bonn, Krefeld, Hildesheim, Magdeburg, Leipzig, Darmstadt, Berlim, Stuttgart e Dresden. Nesta última, segundo Ellgering, que foi citado pelo autor “… foram construídas, com vigas de ferro, enormes grelhas, cada qual com a capacidade para cerca de quinhentos cadáveres, onde os corpos eram amontoados, encharcados com gasolina e queimados. Na história do nosso século, as fogueiras do Mercado Antigo de Dresden constituem um estigma que dificilmente encontrará paralelo. Quem testemunhou jamais esquecerá o cenário horripilante.”

Durante os bombardeios os alemães se protegiam em bunkers, construídos ou improvisados, e nos porões dos casarões. Muitos morreram asfixiados, queimados ou soterrados dentro dos seus abrigos. Muitos mais morreram em suas casas por acreditarem que não seriam bombardeados.

“Os moradores de Hildesheim acreditavam, como os de muitas outras cidades alemãs, que seriam poupados das bombas. A população local nutria grande simpatia pelas potências inimigas; diversos emigrantes alemães haviam participado da Guerra de Independência dos Estados Unidos da América; as boas relações entre a Inglaterra e o Nordeste da Alemanha eram tradicionais; e, por fim, ninguém iria macular a fama internacional de Hildesheim como monumento à cultura medieval. Os fatos, entretanto, não apontavam nesta direção, posto que, para a VIII Força Aérea dos EUA, Hildesheim era um terminal ferroviário cercado por uma cidade.” Em razão desta notável interpretação espacial, que colocava no centro das operações de bombardeio toda a cidade, seus monumentos e população civil, no dia 22 de fevereiro de 1945 Hildesheim foi atacada pela primeira vez. Um mês depois a destruição prosseguiu  “…quando 235 aeronaves e 446 toneladas de munição do Comando de Bombardeiros liquidaram a cidade em 18 minutos.”

Segundo Jörg Friedrich muitas das localidades citadas foram destruídas depois que os Aliados já estavam em território alemão.

“As aparências talvez enganem, mas, no último trimestre da guerra, os nichos históricos e militarmente irrelevantes, como Hildesheim, Magdeburg, Dresden, Würzburg e Nuremberg, foram destruídos em série. Ao que tudo indica, de forma racional. Por acaso não seriam os principais atores? Eram cidades que mostravam ao povo alemão as suas origens, vinculadas a castelos e entrepostos comerciais, oficinas e palácios, catedrais e mercados, mosteiros e becos, universidades e hospitais, pontes e diques. Tudo isso era anterior à existência de um Estado. O Estado que chamavam de ‘Reich dos Mil Anos’ havia se apropriado dos mil anos anteriores, o que explicava seu culto a Nuremberg. Porém, a História transformada em culto foi terraplenada. Não era ela a fiadora da nação alemã, a mais jovem da Europa imperial? Para que realmente nada restasse, as cinzas ainda voltariam a ser revolvidas, até abril; duas vezes pelos americanos e uma vez pelos britânicos.”

Encerro aqui esta breve resenha. Sugiro ao interessado que leia a obra. O autor dá detalhes de como os Aliados destruíram desnecessariamente as universidades, catedrais, bibliotecas e museus da Alemanha. Como disse o autor a “…guerra incendiária não se apossou do papel na medida em que se poderia supor em razão de sua natureza altamente inflamável, ainda que o tenha eliminado em quantidades antes nunca vistas. Entretanto o papel irá dela se apossar, pois tem mais fôlego que o fogo.”

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