Crianças mimadas no reino das samambaias floridas, por Felipe A. P. L. Costa

A distância entre as samambaias (Pindorama) e as árvores (Gringolândia) é grande. Mas nada é tão ruim que não possa piorar

Crianças mimadas no reino das samambaias floridas

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

A edição de segunda-feira (2/9) do programa Roda Viva (TV Cultura) deu (e tem dado) o que falar. Sobretudo por conta do comportamento vexatório dos jornalistas encarregados de entrevistar Glenn Greenwald (The Intercept Brasil), o convidado daquele dia.

Não assisti. Mas uma coisa me parece óbvia: A despeito do viés ideológico, o baixo nível dos profissionais brasileiros é notável e espantoso. Vale para os jornalistas – GG sozinho faz o que uma redação inteira não faz –, mas vale também para qualquer outra área de atuação.

Veja os médicos cubanos, cada um dos quais sendo capaz de fazer o que 10 médicos brasileiros não fazem. Veja os físicos russos, cada um dos quais a resolver problemas que 20 físicos brasileiros não resolvem. E veja os escritores portugueses, cada um dos quais a escrever o que 30 escritores brasileiros não escrevem. E a lista prossegue…

O problema não é de hoje. Boa parte disso, eu arriscaria dizer, tem a ver com o baixo nível e a apatia de nossas universidades. (E estou aqui a me referir às nossas ‘melhores universidades públicas’. Pois as faculdades e universidades particulares, com uma ou duas exceções, são meras arapucas e deveriam estar fechadas, a bem da saúde pública.)

A distância entre as samambaias (Pindorama) e as árvores (Gringolândia) é grande. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: Sem mudanças políticas profundas, a distância entre o centro e a periferia (assim como a distância entre ricos e pobres) só tende a aumentar. Para quem não está familiarizado com a apatia de nossa vida acadêmica, deixo aqui uma provocação.

Considere a densidade intelectual que se experimenta na Universidade da Califórnia (EUA). Embora talvez seja a maior ou uma das maiores universidades do mundo, com seus múltiplos campi (Berkeley, Davis, Los Angeles, San Diego, São Francisco etc.), trata-se apenas de uma entre dezenas de grandes instituições acadêmicas existentes na Gringolândia.

Pois a balbúrdia que se promove na Universidade da Califórnia é bem superior à balbúrdia que todas as universidades brasileiras juntas são capazes de oferecer. Mas não se iluda: A distância entre nós e eles não tem a ver só com diferenças orçamentárias. Tem a ver, antes de tudo, com diferenças de estilo e propósito: Enquanto por lá a água ferve, por aqui ela permanece estagnada. E água estagnada costuma apodrecer.

De resto, somos muito mais provincianos e infantis do que eles [1]. (Não é só Jair Bolsonaro que é uma cópia de segunda mão de um bufão estrangeiro…)

Sem uma vida intelectual dinâmica e vigorosa, nós estamos condenados a continuar vivendo como crianças mimadas. Pois não foi justamente isso que o Roda Vida da última segunda-feira ofereceu aos seus telespectadores: Um adulto – mal e exageramente maquiado – em meio a um bando de crianças mimadas e analfabetas?

Pois, então. Trata-se de um genuíno retrato da sociedade impossível (como diria Jorge de Lima [1893-1953]) em que vivemos – O reino das samambaias floridas.

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Notas

[*] O autor está a lançar O que é darwinismo (2019) – ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] A idiotia e a infantilização da vida pública não são, evidentemente, privilégios da sociedade brasileira. Para algumas considerações a respeito do problema, veja a entrevista com a filósofa estadunidense Susan Neiman (nascida em 1955) no vídeo abaixo. (Legendas podem ser acionadas.) Neiman é autora, entre outros, de O mal no pensamento moderno (Difel, 2003) e Why grow up? (2015).

[https://www.youtube.com/watch?v=JeNQVJ781ig]

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