“Fora Bolsonaro” precisa do exército dos ressentidos!, por Marcio Valley

“Fora Bolsonaro” precisa do exército dos ressentidos!

por Marcio Valley

Vivemos uma experiência bastante desagradável no país já há algum tempo, iniciando com o golpe de 2016 que depôs Dilma, agudizado pela ato político conjunto de prisão de Lula com eleição de Bolsonaro em 2018, piorando a partir de 2020 por conta do início da pandemia e entrando praticamente no campo do terror coletivo no início de 2021 em virtude do aumento exponencial no número de contaminados e mortos pela covid. Acrescendo-se a isso e gerando uma trama de suspense dramático, em março de 2021 chega a notícia de anulação dos processos de Lula, uma ótima notícia, porém um complicador político em relação aos irresignados com sua possível inocência. A anulação dos processos da malfadada Lava Jato cria no ar um frisson político negativo, uma inquietação, principalmente vinda do andar de cima mas não somente, com a possibilidade de algo que deveria ser positivo para todos: o gradual retorno à normalidade institucional, jurídica e política.

A combinação de todos esses elementos (golpe, prisão, eleição, tragédia da covid e anulação dos processos) produz, nos dias de hoje, intensas movimentações políticas, as quais, entretanto, a cada momento sinalizam em direções opostas. Ora parece que caminhamos no sentido do regresso da normalidade e da racionalidade, ora toma o caminho do retrocesso para uma experiência ainda pior do que a atual. Nesse cenário de idas e vindas, ninguém pode prever minimamente o que acontecerá no dia seguinte. A indefinição quanto ao futuro imediato faz cada dia parecer definitivo, com a sensação permanente de que o céu está prestes a desabar sobre as nossas cabeças, atingindo todos, sem clemência e sem exceções. Todos os dias trazem novidades cuja leitura pode ser feita negativamente; tornam-se como nuvens negras que teimam em manter-se sobre as nossas cabeças. O que virá em seguida, perguntamo-nos a toda hora, atemorizados pela incerteza. Será o fechamento do sistema, um golpe militar? É possível que o que está ruim piorará para além desse nível, afundando-se no péssimo? Estaremos caminhando céleres pela estrada de retorno à barbárie da Idade Média? Ou, alvíssaras, a sanidade retornará aos homens públicos?

Sob tais temores e ansiedades continuados, o dia seguinte tornou-se um tempo longe demais no futuro, muito além do que se poderia exigir de paciência de alguém para aguardar a tomada de ações de autopreservação, seja através do combate ou da fuga. O desejo mais imediato de quem padece dessa angústia existencial é o de fugir, distanciar-se de tudo e de todos, salvar-se. Cada minuto torna mais insuportável o peso do que está ocorrendo, parece que não dá para esperar nem mais um segundo pela salvação. A depender do que vemos, porém, não há solução à vista, nem para o dia seguinte, nem para os que virão depois. A sensação, angustiante, é de estar num beco sem saída, num labirinto gigantesco no interior do qual temos ciência de que pode nos pular em cima, a qualquer momento, uma espécie de Minotauro que, quando não nos mata, deixa para trás dor e sequelas. Queremos fazer algo, tomar uma atitude, decidir por um caminho que nos leve para longe desse palco de dores insuportáveis no qual atuamos à força, sem nem mesmo saber que papel desempenhamos nessa pantomima. Não possuímos, porém, nem o novelo de Ariadne nem as asas de Dédalo; estamos irremediavelmente presos e entregues à própria sorte, faltam-nos os meios para escapar desse labirinto hediondo. Nenhum caminho parece seguro, todos apresentam-se perigosos ou fechados por poderes muito além dos nossos. Estamos à deriva em nossos próprios destinos. Não somos donos de nada, nem de nossas vontades. Se nada mudar, seremos vítimas desse Minotauro que anda livremente à solta, pois o rei Minos, o mito, não possui a menor vontade de abatê-lo. A desesperança é tamanha que a impressão que temos é que só nos resta gritar e desesperar.

A melancolia provocada pela sensação de impotência é enorme. Nem mesmo os prazeres habituais que tínhamos, e que ainda estão ao alcance, são capazes de produzir o encantamento que sentíamos. As musas, abatidas, não visitam mais o artista que há dentro de cada pessoa. A que é cantora não sente mais o ímpeto íntimo necessário para cantar; a poeta procura por inspiração para um só verso e não encontra; a costureira, habituada a fazer de sua tesoura varinha mágica que transforma simples panos em majestosas vestimentas, não encontra mais em si essa magia; a cozinheira sente-se insensível ao poder criador dos aromas necessários à elaboração de seus melhores pratos; a pintora não sente mais o incrível deslumbramento com a existência que tornava imperioso repeti-lo em suas telas. Enfim, as experiências sensíveis, as sublimes, silenciam, amortecidas por outras não generosas, nascidas do útero de um embrutecimento moral que costuma acompanhar as grandes tragédias. Sentimentos negativos prevalecem: raiva, vingança, impotência, autodestruição, eliminação do outro e etc.

Testemunhamos uma experiência de transformação no íntimo das pessoas, semelhante às que ocorrem em períodos de guerra, nos quais se grudam os ouvidos nos rádios todos os dias, na esperança de ouvir a tão ansiada notícia do fim dos conflitos ou da pequena paz de um armistício que seja. É o máximo que podem fazer: nutrir esperança e buscar aflitivamente por modos de renová-la todos os dias. Qualquer coisa além disso não depende do povo, mas de decisões superiores feitas por uma minoria com poderes de vida e de morte sobre a população. Por vezes, trata-se de uma minoria materializada em um único homem, o que se torna um problema imenso se esse alguém se revela excessivamente obstinado, ao nível da patologia psiquiátrica, incapaz de ouvir a razão e a lógica; cego para toda e qualquer orientação comportamental que não seja produto de sua própria inteligência emocional ou ausência dela. Era o caso de Hitler, de Stalin e de tantos outros, cujas decisões inflexíveis, irracionais e insensíveis conduziram à morte tantos seres humanos em tão pouco tempo, tudo por simples cegueira e surdez aos apelos de uma verdade que saltava aos olhos, explícita e gritante; porém, somente evidente para olhos saudáveis, não para uma visão embaçada pela psicopatia delirante e pela falta de empatia que disso decorre.

O povo é sempre peão nessas guerras por interesses ocultos e inconfessáveis. Via de regra, doutrinado desde o nascimento para ser ordeiro e pacato, aguarda no pasto da ignorância planejada ou da inocente resignação o comando dado pelos cães pastores da ordem institucional de seguir para o matadouro. Cães pastores que, em grande medida, sabem que participam de um erro catastrófico e indesculpável, porém seguem incondicionalmente a ordem de seu dono, ídolo e mito. Supõem-se ingenuamente capazes de escapar à sorte dos demais, por isso entram em estado de negação e fingem acreditar que o respeito à hierarquia é o que se espera de quem é reto, leal e possui fé, ou seja, de quem é “do bem”, mesmo quando, contraditoriamente, ser “do bem” signifique praticar ou não protestar contra torturas, estupros e assassinatos dos “inimigos”. Usam a fantasia da coragem ao bater nos fracos para ocultar a covardia de que padecem em suas almas. Movidos por sentimentos mesquinhos e equivocados, tocam familiares, amigos, vizinhos e desconhecidos em direção ao caminho da morte enquanto discursam para si e entre si sobre liberdade, ordem, progresso e justiça, tentando se convencer de que não são aquilo que intimamente, no fundo, no fundo, sabem ser: apenas maus. Saibam disso: a árvore do mal jamais cresce em terra que não tenha previamente sua semente e que não se apresente fértil para fazê-la brotar, prevalecer e crescer cada vez mais alto.

Nesse momento, dezenas de milhares de pessoas são infectadas todos os dias pela covid; dessas, milhares morrem diariamente; centenas de milhares já morreram até agora. As previsões são absolutamente sombrias, podendo chegar a um milhão de mortos ao fim desse ano, sem contar a impensável quantidade de infectados que, em parte significativa, padecerá com sequelas por longo tempo, algumas graves e permanentes, como amputação de todos os membros. Ainda assim, com números tão expressivos e funestos, com consequências tão graves para a população, não há um só movimento firme e positivo do único homem que detém poderes para encaminhar a solução e pôr fim à mortandade. Excessiva e patologicamente obstinado, não adota ações sinceras em direção à mobilização das forças necessárias ao combate dessa inédita tragédia humana que se desenrola diante de nossos olhos. Simula recuos em favor da razão e da ciência para, logo em seguida, retornar à retórica do obscurantismo genocida. Entra ministro, sai ministro, seu discurso continua o mesmo: não ao lockdown nacional, quase nenhum esforço para uma vacinação abrangente e rápida, charlatanismo a respeito do tratamento precoce e firmeza na recomendação da falsa necessidade de todos irem para as ruas para trabalhar. Seu posicionamento irracional não está intubando somente centenas de brasileiros todos os dias. O próprio país está asfixiando e precisa ser intubado.

Porém, como intubar um país inteiro, qual o procedimento a ser adotado? O procedimento é simples, embora não exatamente fácil: é preciso extirpar Bolsonaro do organismo político nacional, de preferência isolando-o na cadeia, com todos os seus “zeros”, por longo tempo. Contudo, para o atingimento desse objetivo fundamental para os brasileiros, em nome do bom combate, certas animosidades precisam ser superadas. Alguns embates enchem o ambiente social de ressentimentos, recriminações e inculpações recíprocas.

Coloquemos fora dessa equação os bolsonaristas, agora uma parcela minoritária da população, porém ainda expressiva e bastante barulhenta. Eles não somente não desejam Bolsonaro fora, como defendem com paixão o “legado” do presidente deles; para isso voltam-se ferozmente contra todo e qualquer um que o acuse de responsável pelos males atuais do país; sendo, em grande parte, negacionistas, vão inclusive para as ruas defender o “comandante em chefe”.

A missão, portanto, cabe as que são contra Bolsonaro, que, felizmente, tornaram-se maioria absoluta do povo brasileiro. O antibolsonarismo movimenta as redes sociais com um combate no plano do discurso, já que, massivamente pró-ciência, a pandemia impede que tomem as ruas, o que seria uma nota importante para estimular os parlamentares em direção ao impeachment. Ocorre que parte significativa dos antibolsonaristas é também antipetista e não consegue se resolver sobre para que lado pende a balança da escolha do menos pior. Esses são os antibolsonaristas impuros, em contraposição aos antibolsonaristas puros, ou seja, os que são apenas contra Bolsonaro; não são necessariamente eleitores do PT, mas votariam no partido contra Bolsonaro, visto como o mal absoluto. Já o grupo dos antibolsonaristas impuros, que abriga também os eleitores de Ciro Gomes, são adeptos do posicionamento “nem, nem”: não desejam nem Bolsonaro, nem o candidato do PT, seja Lula ou qualquer outro. Muitos desse último grupo afirmam voto nulo num eventual segundo turno entre Bolsonaro e o PT.

Há muito ressentimento em todos esses grupos, coletado ao longo dos anos por ações políticas equivocadas praticadas pela elite e pelos políticos. Como se sabe, “ressentir” significa “sentir novamente”, no sentido de manter atual um sentimento negativo, um rancor, provocado por algo do passado. Isso se torna um complicador na hora de tomar decisões, pois a raiva contra o outro faz tomar decisões não racionais, cujo objetivo não é a melhoria do sistema, mas atingir quem se odeia, vingar-se. Resolver esse entrave não é fácil, pois, se de um lado ressentimento não é um bom conselheiro para decidir questões do futuro, de outro o simples esquecimento torna possível o retorno do recalcado, como ocorreu na questão do golpe militar de 1964, cuja ausência de punição foi a grande responsável pelo novo golpe de 2016, que veio disfarçado com a capa da falsa institucionalidade civil para recolocar os militares no poder. Por conta disso, impõe-se encontrar um meio termo entre a necessidade de curar as feridas do passado, com punição ou ao menos reconhecimento penitente das culpas, e a de passar por cima desse passado para enfrentar um problema comum do qual dependa o futuro da nação. É nesse ponto que estamos travados; o meio termo não está sendo localizado.

Lula prejudicou a candidatura de Ciro em 2018? Os ciristas acreditam que sim, embora ele tenha vindo candidato e não tenha obtido votação para chegar ao segundo turno, ou seja, o povo decidiu. Seria diferente se ele tivesse mais tempo na TV? Chegamos ao mundo do imponderável. Em minha opinião, creio que não. Ciro foi agraciado com 38 segundos, um tempo intermediário entre os candidatos. Alckmin teve mais de 5 minutos e não levou, enquanto Bolsonaro, com 8 segundos, foi eleito. Ainda assim, sendo possível essa leitura, cabe a Lula tomar a iniciativa de se desculpar com Ciro, ainda que não se sinta ou não seja de fato culpado. Se o preço da paz é esse, que se pague.

Ciro Gomes foi para Paris e, de certo modo, lavou as mãos para o que ocorreria no país? Sim, ele foi e isso é um fato que é preciso reconhecer caso pretenda que se inicie o processo de sua reaceitação pelo eleitor de esquerda, principalmente o petista. E isso determinou a vitória de Bolsonaro? Claro que não. Bolsonaro seria eleito com ou sem a explicitação do apoio de Ciro. O problema não está na vitória de Bolsonaro, mas no ato em si de omitir-se, o que foi visto como traição de Ciro ao próprio povo brasileiro, não somente ao PT. E se ele assim não proceder? Isso impede totalmente, a meu ver, a formação de uma chapa com ele e alguém do PT. A mágoa é muito grande, tanto pela demonstração de pouco caso com a eleição e com o destino do povo, mas também porque se tornou um crítico ácido demais, ao ponto da injustiça, em relação à conduta do partido e de Lula, o que é inaceitável para os simpatizantes do PT. Porém, e isso é importante, a mágoa não pode e não deve impedir os petistas de votarem em Ciro no segundo turno, na hipótese de embate entre ele e Bolsonaro, se este conseguir manter a presidência até 2022. Nenhum tipo de ressentimento justifica a opção do eleitor por quem não seja o melhor para o país, nem mesmo a anulação do voto, pois anular representa sempre demonstração de indiferença quanto ao pior resultado. E o melhor para o país, sem nenhuma dúvida, é que Bolsonaro saia do poder o mais rapidamente possível. O mesmo vale para todos os que apoiaram Bolsonaro e se arrependeram. Especificamente nesse ponto, não vale o ditado “seu passado os condena”; pode condenar para outras coisas, em outro momento, mas não para apear Bolsonaro do poder. Para esse objetivo, todo auxílio é bem-vindo. Da mesma forma, não é mais cabível a adoção da falsa escolha difícil promovida pelo Estadão. Todos que percebem a loucura de manter Bolsonaro no poder tem a obrigação moral e ética de apoiar a eleição de um eventual candidato do PT que chegue ao segundo turno contra a boçalidade do “comandante em chefe”. Os que assim não agirem serão inimigos do povo, traidores do país.

Porém, há um enorme problema nessa equação pertinente aos apoios para a eleição presidencial de 2022: Bolsonaro é uma doença grave que exige ser tratada agora, não dá para esperar até a eleição para iniciar a profilaxia; até lá grande parte da população do país terá sido contaminada e morta. Os acordos políticos para retirar o poder das mãos de Bolsonaro precisam ser traçados agora, já. Eleições são um futuro ainda muito distante, sem possibilidade alguma de previsão das condições políticas que estarão presentes num tempo longínquo como esse. O Brasil não pode e não deve suportar Bolsonaro por um período além de meados desse ano; o custo em doenças, sequelas e mortes é alto demais; não podemos pagar esse preço; é a nossa existência física, a de nossos amados e a de todos os brasileiros que está em jogo.

O presidente da república tornou-se, ele próprio, o maior inimigo do país, um obstáculo gigantesco a impedir que o Brasil respire, se pacifique e se cure. Ele é uma doença política de extrema malignidade, sustentada na radicalização do discurso da polarização. Seu objetivo é dividir para conquistar; não é, nunca foi e nem tentou ser o presidente de todos brasileiros; governa somente para seus fanáticos simpatizantes, que se anularam, tornando-se incapazes de perceber o mais evidente dos desvios, o mais gritante indício de corrupção ou sua total incapacidade de tomar decisões urgentes e necessário para o país. Essa doença que se encontra na presidência impede a respiração do país e precisa ser tratada logo, sem retardos. O Brasil precisa desesperadamente dessa intubação; necessita voltar a respirar politicamente, não importa qual o procedimento médico escolhido – impeachment, decisão judicial sobre a campanha, acolhimento de denúncia criminal, seja lá o que for. Ser capaz de respirar novamente é o mais importante para o país nesse momento; tudo o mais é pequeno diante desse problema e passível de ser resolvido posteriormente.

Não é hora de experimentações e de improviso; não é o momento para egolatrias e ressentimentos. Basta de delirar politicamente imaginando que há solução normal para a anormalidade absurda que Bolsonaro já provou ser. A hora é de intubar o Brasil para que volte a respirar; o único meio de conseguir isso é com a união do exército dos ressentidos. Políticos de todo e qualquer partido – governadores, prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e também os que estão sem mandato – devem se unir para participar da cura, deixando os interesses cartoriais de lado, por esse momento que seja, para expulsar Bolsonaro. Ele “não tem governo, nem nunca terá; não tem conserto, nem nunca terá; não tem vergonha, nem nunca terá; não tem juízo, nem nunca terá”.

Num momento histórico no qual a pandemia silencia a voz das ruas, o povo precisa desesperadamente desse exército de ressentidos; necessita que seus representantes de esquerda, centro e direita gritem e votem em uníssono: FORA BOLSONARO!

Se não fizerem isso, e com urgência, serão todos cúmplices do genocídio que está em andamento. Se houver um julgamento como o de Nuremberg, e é possível que ocorra, responderão pela omissão coautora. Se não houver, a resposta do povo será nas urnas, com a perda dos mandatos nas próximas eleições.

O relógio da morte está em andamento, cada vez mais acelerado; assumam suas responsabilidades institucionais, senhores representantes do povo. A hora é agora e essa chance é final. Depois disso, o horror!

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