Indicadores econômicos, a fantasia chilena, por André Motta Araújo

Os indicadores devem sempre ser usados como instrumento auxiliar, e não como o centro do pensamento econômico, que é o que fazem os chamados "economistas de mercado"

Foto: Patrícia Faermann

É impressionante o domínio de economistas fixados em indicadores nos jornais, rádios e TVs. Não têm nenhum outro lastro cultural na cabeça, só indicadores com micro detalhes de centésimos de um por cento para qualquer bobagem que não tem qualquer significância REAL no mundo REAL. Não querem dizer nada para ninguém, é o fascínio pela matemática na economia, algo nascido a partir dos anos 70 nas universidades americanas.

Sempre se usou indicadores na economia mas como ferramenta auxiliar, e não como o centro do pensamento econômico ou como base única.

Quando Wesley Mitchel fundou o NATIONAL BUREAU OF ECONOMIC RESARCH, em 1920, teve início o uso do ferramental de indicadores na medição da economia, processo depois acelerado na mesma instituição pelo russo SIMON KUSZNET (Prêmio Nobel de Economia de 1971) a partir dos anos 40, com a medição da renda que foi a base da construção do mecanismo de medição do PIB. Alan Greenspan, o “Maestro” da economia americana por duas décadas, sempre soube usar indicadores com ceticismo, confrontava muitos deles com a realidade percebida de forma sensorial, o faro e a intuição são importantes sensores da realidade. John Rockefeller escapou da crise de 29 quando viu que seu engraxate estava acompanhando cotações da bolsa – “tolos metidos com ações, isso não pode dar certo”.

Fui aqui há muitos anos crítico absoluto do famigerado BOLETIM FOCUS, uma feijoada de índices projetados que tanta gente leva a sério, a começar do próprio Banco Central. Coleção de chutes de “economistas de mercado” que raras vezes acertam alguma coisa, a começar do crescimento sempre superestimado. A mídia repete esse boletim como papagaio, como se fosse o oráculo de uma economia que está estagnada há 5 anos.
Leia mais aqui e aqui.

Os indicadores devem sempre ser usados como instrumento auxiliar, e não como o centro do pensamento econômico, que é o que fazem os chamados “economistas de mercado”, que não têm nenhum capital intelectual mais profundo para entender economia. Sua muleta são os indicadores.

Leia também:  Guerra de facções num mundo sem povo, por Rogério Mattos

Seria como alguém que não entende nada de medicina usar um medidor de pressão para saber como anda o paciente, só isso e nada mais.

OS INDICADORES DO CHILE
Pelos indicadores, o Chile virou o “modelo neoliberal do mundo emergente” citado em prosa e verso nas universidades americanas, nos INSPER da vida, nos Institutos Millenium e Von Mises, na Casa das Garças, na PUC-Rio e obviamente, por via reflexa na GLOBONEWS, e pelo seu “time de economia” (ah, ah, ah) que conhece tanto pensamento econômico como astrofísica quântica, elogiados pelos Tecos, Padovanis, Mailsons, Zés Marcios, Miriams.
Afinal o Chile seguiu à risca a cartilha de Chicago, como não dar certo? O chato é que não deu certo. A renda per capita é 60% maior que no Brasil mas a divisão do bolo é muito pior: 57% da riqueza do País ficam com 5% da população, e o Presidente Piñera se preparava para dar 800 milhões de dólares de novos benefícios fiscais a esses 5%.
A “maior fábula do neoliberalismo” é achar que colocando mais dinheiro nos ricos, eles vão investir e criar empregos. Essa é uma das bases do “neoliberalismo” vendido ao mundo como a ideologia do progresso, fábula desmentida não só nos países emergentes. Isso NÃO ACONTECE NEM NOS EUA. Os ricos tendo mais dinheiro NÃO CRIAM EMPREGOS, eles fazem outras coisas com o dinheiro em excesso, o MERCADO não é um projeto de País, e isso nem é ruim por si só, NÃO É OBRIGAÇÃO DO MERCADO OPERAR EM BENEFÍCIO DO PAÍS e do conjunto de sua população.
O mercado é por definição filosófica GANANCIOSO E EGOÍSTA, o mercado não tem,  porque não é seu objetivo, NENHUM COMPROMISSO COM O PAÍS.
Tanto é verdade que o sistema de mercado opera muito bem em tempos de guerra, no meio dos piores conflitos, no meio de crises de todos os tipos, no meio da miséria, das epidemias, nas ondas de migrações, no meio de qualquer desgraça, o MERCADO É NEUTRO PARA O BEM OU PARA O MAL. Só o ESTADO é o ente, por mais imperfeito que seja, com a visão do todo de um País, do conjunto de sua população, pobres, classe média e ricos e só o ESTADO pode coordenar o complexo conjunto de interesses, situações, necessidades e objetivos.
Isso parece claro para pessoas inteligentes, mas hoje em dia não temos neoliberais inteligentes como Milton Friedman, cujos livros poucos leram, só temos “neoliberais de seita ideológica”, toscos e primários, que propõe “vender todas as estatais do País”, algo que nenhum Estado fez na historia econômica mundial. Ou será que não sabem que a Eletropaulo foi recentemente comprada por uma estatal italiana, a CPFL por uma estatal chinesa? Por que será que países maduros e inteligentes têm estatais? Por que será que o Estado francês controla uma das mais poderosas estatais de eletricidade do mundo, a EdF?
Algum desses países está propondo “vender todas as estatais”? Os “neoliberais de varanda gourmet” não têm noção nem de Estado, nem de história e muito menos de economia. São do mesmo nível de sectários que acham que a terra é plana e que vacina é uma conspiração de comunistas.
OS INDICADORES COMO FERRAMENTAS
Os indicadores são úteis MAS COMO FERRAMENTAS AUXILIARES, não como base exclusiva de decisões. Estas dependem muito mas de SENSIBILIDADE, faro político, percepção de movimentos na sociedade, mas principalmente de economistas-estadistas, com espírito de solidariedade e generosidade, com uma clara formulação de um Projeto de País, onde queremos chegar, como se ficará nossa posição no contexto global, QUAL O FUTURO DE NOSSA PRÓXIMA GERAÇÃO?
Sem essas percepções, entregar o futuro da economia de um grande País a amadores toscos é opção pelo suicídio nacional.
Está aí  o Chile bem arrumadinho nos indicadores, como advertência a quem queira aprender alguma coisa com a realidade fática e atual.

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7 comentários

  1. André, quando você mencionou os toscos, vendo o nome do Teco Medina ( nem o genial Dias Gomes imaginaria um apelido tão perfeito prum economista tosco ) me lembrei que ele entrou no lugar da Mara Luquet. E confesso que deu uma saudade do quadro de humor involuntário ( e por isso mesmo tão bom ) que ela e o escada Carlos Alberto Sadenberg faziam. Não tinha como você não deixar de rir com as dicas delas, como ir ao gerente pra pagar menos taxas de banco numa época em que agência bancária tá virando peça de museu ; ou então ela dizendo aqueles casos de superação como da secretária trilingue demitida de multinacional e que se recolocou no mercado ao descobrir que ela tinha o dom de vender açaí. Só de pensar já dou risadas. Até esse programete de humor os Marinhos nos tiraram. Agora de todos o mais insuportável é o careca Alex Schwartzmann, adorador dos centésimos de um por cento, e que morrerá dizendo que,se deixassem o Levy como ministro da economia até o final, o Brasil hoje seria uma Suíça . Aliás, a sua careca é a única coisa que faz da sua cabeça brilhante.

    • Tem uma outra da Mara, digna da Praça é nossa. Ela recomendou que metalurgico aposentado do ABC ficarria muito melhor se mudando para a Costa Rica porque lá a vida é mais barata do que em
      São Bernardo e ela falava sério. O chamado “time da economia” do Jornal das Dez da GLOBONEWS
      é digno de exme para entrar no ginasio, eles repetem o boletim FOCUS sem piscar e para ai.

  2. Magnífica análise! Derrubando os patéticos mitos neoliberais. Vivi no Chile, sei bem sobre as mazelas do país rico que abandonou seu proletariado à deriva.

  3. Sumiram todos os INSPER’s da vida !! Onde estão? Assim como haviam sumido GloboNews e JN e suas críticas diárias, da porta da Casa Rosada, quando Cristina estava lá. Esqueceram dos ‘Hermanos’ durante a mediocridade Macri. Mas o pior é constatar que nestes 40 anos de fraudulenta e farsante Redemocracia LatinoAmericana, como foi imposto o impressionante domínio destes economistas. Por que será? Onde estão os Socialistas Progressistas AntiCapitalistas que fariam Política sem apego pessoal algum, combatendo a corrupção e o nepotismo? Onde estão as consequências e resultados destas décadas todas? Quem ‘entrou de cabeça’ em saquear estas Nações, durante estes anos todos? Como disse Paulo Maluf : ‘Perto do Lula, eu sou um comunista’. Gostem ou não, em qual outro período da história brasileira, os bancos ganharam tanto dinheiro? Papa Francisco canonizará os Santos da Rede Bancária : Santo FHC, São Lula e Santa Dilma. A culpa é de quem? Do Mercado? Do Trump? Do Aquecimento Global? Receberam as Estatais, sendo 100% Brasileiras. Em outros países, sendo 100% nacionais. O ‘Anão Diplomático’ tem uma Elite Parasitária que não sabe cuidar nem do seu quintal, da sua porta. Os países pequenos, como ‘irmãos menores’, ficam esperando a atitude do ‘irmão maior’, ‘mais velho’ para seguir seus conselhos e exemplos. Pobres crianças !! Seguir um Guia Cego? A Elite, que diz não se enxergar Elite, mas sim Socialista AntiCapitalista até hoje está toda desfrutando das Potências Capitalistas e Colonialistas que sempre recriminaram. Uma vida, futuro, cidadanias na Europa ou EUA. Do Brasil, só a garantia da manutenção do cabresto e dos altos rendimentos garantidos pelas benesses do Estado e Partilhas de PRIVATARIAS do Território e Estatais Brasileiras. Para o bem da Nação, é claro !! O que importam as políticas fascistas de Trump? O que importa a xenofobia americana e europeia? O que importam seus interesses colonialistas? Tem cada Shopping Center?!! Cada Stand de Prática de Tiro?!! Cada Hotel e Viagens Aéreas baratas !! Não é verdade Jean Wyllys? Não é, Marcia Tiburi? A culpa desta barbárie que assola o Chile, véspera do Brasil é o Mercado? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  4. Algumas matérias da mídia “hegemônica”, ou ” mainstream”, ou de direita…ou burguesa..ou oliguarca ( ou de esgoto, mesmo):
    Os estrangeiros estão maravilhados com a reforma da previdência!
    ( Money times, 25/10)
    Chile é o maior sucesso econômico da América latina!
    ( Infomoney, 24/10/2019 – tem que colocar o ano atual para dar uma dimensão da hipocrisia).
    Afora isso, temos que ouvir falar sobre os ” terroristas” chilenos que querem tomar o país….

    Estamos ou não na “Matriz”????

  5. O problema não é o neoliberalismo, é o capitalismo. O neoliberalismo é apenas uma circunstância agravante. A solução é o Socialismo

  6. Caro AMA, parabéns pela análise, coisa rara de se ver hoje em dia. Não seria a hora de contrapor essa turma, utilizando as mídias e canais de internet? Vejo que no Brasil tem muita gente boa que poderia furar essa bolha se “associando”, fazendo semanalmente um programa, no entanto, vejo q ficam todos espalhados, o que faz perder amplitude e alcance desse contraponto. Veja a questão dos blogs, cada um tem o seu, já imaginou a união de alguns desses? Mesmo c eventuais diferenças e discordâncias. Poderia, criar um grande veículo/canal de comunicação mais plural e progressista.

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