Fala, FADS: O diálogo como via para o esperançar

O Fala, Fads desta quarta-feira (26/01) discute o dialogo como via de esperança para o futuro do pais. Assista no canal da TVGGN.

Card Fala, Fads! desta quarta-feira (26/01)
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O diálogo como via para o esperançar

por Leandro Giatti

Atualmente temas de interesse urgente, em âmbito nacional e global, vem sendo resultando em extrema polarização, o que sistematicamente acaba por transformar qualquer assunto em acalorados debates sobre “controvérsias científicas”.

As aspas não são destaque, de fato estão para assinalar que grande quantidade de desinformação tem sido colocada em falsa equivalência com os melhores conhecimentos científicos disponíveis. Isso pode ser verificado na forma de fragmentação da sociedade em torno de crises como a emergência da pandemia de Covid-19 e as mudanças climáticas globais. 

Incertezas, sempre presentes quanto a crises emergentes, devem motivar o aprimoramento da produção científica e promover constantes reflexões entre sociedade e ciência. Todavia, determinados grupos hegemônicos ou atores ligados a certos projetos políticos tendem a selecionar o conhecimento que lhes interessa para justificar condutas e decisões e, para isso, podem se valer do uso indevido de conhecimento tendencioso ou da manipulação das incertezas.

Por exemplo, pessoas de elites econômicas que se veem protegidas de uma pandemia podem se posicionar contra o isolamento social que prejudica a atividade produtiva, ignorando assim que a classe trabalhadora esteja mais exposta e vulnerável.

Também, o grande setor econômico global do petróleo pode se colocar a favor de controvérsias quanto ao aquecimento global e sua causa antropogênica. Ocorre que hoje os grandes embates associados a controvérsias e projetos políticos não estão restritos ao âmbito político de discursos dominantes, essas rupturas alcançaram a esfera proximal dos grupos familiares, de amigos e de colegas de trabalho.

Assim, discussões negacionistas quanto a Covid-19 (rejeição ao uso de máscaras e ao isolamento social, desabono à eficiência e importância de vacinas) demarcam uma séria ruptura social que permeia nossas relações cotidianas com pessoas muito próximas.

Do mesmo modo cabe o paralelo da rejeição quanto às mudanças climáticas, sua constatação enquanto fenômeno corrente e origem em ações humanas, e todo um conjunto de medidas de cunho ambiental que se fazem urgentes para preservar a própria condição de vida humana no planeta.

A polarização e as elevadas tensões em torno desses e outros temas de interesse político vem indicando impossibilidade de dialogar com pessoas do lado oposto.

Porém, defendemos a necessidade de aprimorar, qualificar e viabilizar o diálogo diante dessas crises e controvérsias. Para isso, resgatamos preceitos do pensamento de Paulo Freire na busca de processos circulares de interlocução com reflexão conjunta e aprendizagem entre atores notadamente situados em posições distintas no que diz respeito à apropriação de conhecimentos científicos.

Se é necessário ter consciência sobre essas crises emergentes e complexas, devemos propiciar que a conscientização inerente a cada indivíduo possa ocorrer por meio de reflexões mediadas pelo diálogo equilibrado, baseado na tolerância e no reconhecimento das distintas formas de conhecimento e engajamento político. Nessa perspectiva, devemos conceber o conflito como combustível para o diálogo. O diálogo deve pautar a busca pela compreensão sobre o outro, sua cultura, valores e crenças e isso deve conduzir a uma reflexão que também permita compreender a nós mesmos.

Tudo isso remete a fazer melhor uso e reflexão conjunta sobre os mais qualificados e assertivos conhecimentos científicos para o equacionamento das crises. O conhecimento científico deve ter uma possibilidade de se resignificar para ser apropriado pela sociedade.

De fato, há diversos fatores que demarcam a dificuldade de diálogo entre ciência e sociedade, um deles remete à hegemonia do saber científico e à consequente marginalização das outras formas de saber. Mas hoje, com o avanço expressivo do fenômeno da hiperconectividade e uso das redes sociais digitais, temos também outro agravante, a infodemia, um grande volume de desinformação (fake news, teorias conspiratórias e negacionismo científico) operando de forma a dificultar a resolução de um determinado problema. 

A infodemia tem sido utilizada no Brasil como arma e estratégia política baseada na deliberada ruptura da sociedade por meio da desinformação. Globalmente essa estratégia tem sido amplamente utilizada por grupos políticos, geralmente alinhados à extrema direita, e consiste do negacionismo e descrédito da produção científica voltada a temas de elevado interesse político.

No Brasil, no caso da Covid-19, observamos a condução de uma política de disseminação da doença sob a falsa justificativa de tentativa de “salvar a economia”. No caso das mudanças climáticas e dos temas ambientais inerentes, vemos o avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado como exemplos de condutas políticas suplantando não apenas a ciência ecológica, mas também todo um arcabouço legal e institucional voltado à preservação e importância sistêmica de nossos biomas. 

A forma de parte da sociedade se apropriar da desinformação para se posicionar radicalmente tem anulado possibilidades de diálogo. Mas a infodemia e suas ações correlatas podem estar cobrando um preço muito alto para esta fragmentação e radicalização política.

No caso da Covid-19, os insucessos da política de prevenção e controle da doença, atraso na aquisição de vacinas, insucessos no isolamento social e minimização da pandemia podem ter custado centenas de milhares de mortes evitáveis. O cenário da infodemia e de seu uso político não parece trazer muito otimismo, mas devemos observar que, para uma parcela da população, será inevitável a constatação de que o negacionismo foi um erro.

Talvez essa possibilidade de constatação seja uma chance de abertura para o diálogo, trazendo oportunidades para reconstruir caminhos de reflexões conjuntas e necessárias aprendizagens sociais sobre os efeitos colaterais da hiperconectividade.

O diálogo deve reemergir a partir das crises e rupturas da atualidade, reconduzindo a uma via de colaboração, reflexões e esperança em uma racionalidade benéfica, de âmbito planetário. 

Leandro Giatti, professor associado da Faculdade de Saúde Pública da USP

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