“Acabou, porra!”. E os policiais federais aplaudiram. Mito!, por Armando Coelho Neto

Pensar o todo, refletir sobre o social, contextualizar o Brasil na geopolítica internacional faz parte da aula que não receberam.

Foto: Marcos Corrêa/PR

“Acabou, porra!”. E os policiais federais aplaudiram. Mito!

por Armando Rodrigues Coelho Neto

“Quando entrei na PF, ser gay era proibido, depois passou a ser tolerado. Vou me aposentar antes que se torne obrigatório”, disse um velho lobo policial, a propósito da existência de homossexuais na Polícia Federal. Atualmente a gente vê candidatos à carreira usando até “melissinha”, retrucou um outro às gargalhadas.

Não lembro da última formatura de policiais que fui. Eu estava lá, salvo engano, em mais um daqueles cursinhos Walita promovidos pelos DEA da vida, sigla do “Drug Enforcement Administration”, encarregado da repressão e controle de narcóticos (EUA). Cursos que servem para engordar currículo chinfrim, inclusive o meu.

O curso coincidiu com o encerramento de uma grande turma de policiais federais. Eu estava ao lado de outro velho lobo policial que me chamou a atenção: “Armando, meu caro. Onde estão os negros?”. Boa pergunta. Onde estavam os negros, os baixinhos, os feios, os índios, os homossexuais… Mulheres? Poucas.

Houve tempo no qual a Polícia Federal reprovava até pela altura. Baixinho só era aprovado se fosse gênio. Na hora da entrevista, se o candidato passasse abaixo da fita crepe pregada no portal da sala, já estava reprovado. Era uma manobra para driblar a Constituição Federal que proíbe discriminações.

Na prática, o candidato teria sido reprovado na entrevista, por não apresentar aptidões objetivas, etc e tal, e não por ser baixinho, enclenque e setemesinho (obrigado João Cabral de Melo Neto), negro, por ter “um jeitinho assim”. Sem contar que abria espaço para outras subjetividades casuísticas (como aprovar “os nossos”).

A Academia Nacional de Polícia (ANP), centro de formação de policiais federais é referência. Foi inspirada nas melhores do mundo, entre elas as formadoras de policiais do FBI (Polícia Federal do EUA) e Scotland Yard (Inglaterra). Pelo ronco, alguns métodos foram superados e outros nem tanto. A cor da pele é um deles.

A fitinha crepe no portal tem origem na desigualdade social vigente. A PF é mero reflexo, cujos barnabés sentem-se ricos (e o são perante miseráveis), o contingente negro sente-se menos negro ou um pouco mais branco, por terem chegado lá – na PF ou no serviço público em geral. Claro, que há exceções.

Lá estão os egressos da classe média – aquela que configura “uma aberração cognitiva” no dizer de Marilena Chauí (seja lá o que e ela quer dizer com isso); comeram três vezes por dia, tiveram as melhores escolas, já foram à Disney (obrigado Ariano Suassuna), já sentaram em sofá de mil reais de boates paulistas…

As melhores escolas (privilégio da maioria branca e nutrida) abrem portas dos “mesmos” para a Academia Nacional de Polícia. São brilhantes do ponto de vista formal, consciência política e social zero e aprendem na ANP as melhores técnicas para enxugar gelo. Alma pura, vão querer mostrar serviço. Haja gelo!

Muitos acreditam em capitalismo samaritano e que doações eleitorais são doações mesmo sem contrapartida. Acreditam que os 3% dos que detém a riqueza do mundo estão legitimados por que “dão emprego”. Abominam a esquerda, mas não abrem mão das conquistas sociais da esquerda, nem de seus “privilégios”.

Pensar o todo, refletir sobre o social, contextualizar o Brasil na geopolítica internacional faz parte da aula que não receberam. Uma vez, perguntaram para o dramaturgo Nelson Rodrigues que conselho daria para os jovens. E ele respondeu: “envelheçam depressa”. O pior é que nem isso é possível dizer aos novos federais.

A PF vive um envelhecimento precoce e doentio. Ao se dizer republicana, membros da corporação faziam tiro ao alvo na Dilma impunemente, agitavam comitê eleitoral para o impoluto Aécio Neves… Outros publicavam no Feice: “Polícia Federal a única e real oposição ao PT”. Daí que não dá sequer para dizer: “envelheçam”.

Escrevo a propósito de vídeo divulgado por Dudu Bananinha de mais uma formatura de novos policiais federais. Com as características de sempre, teve como convidado o estrupício da República. Após um rococó grito de guerra dos formandos, seguindo o protocolo oficial, coube ao Bozo a palavra final: “Acabou porra”.

Imagine o leitor, ao final de um curso de pretenso alto nível, de um curso de grau superior, um reitor, um professor doutor encerrar um curso com um “acabou porra”. No caso, delegados federais, por lei, são tratados por excelência. O curso tem a pretensão de equivalência de “quase grau de doutor”, se é que isso existe.

Tudo muito crasso, à altura do ex-terrorista que queria explodir quartéis, fuzilar FHC, matar mais de 30 mil (já deixou morrer quase 200 mil), metralhar petista no Acre, fez apologia à torturador e transformou o Brasil em pária internacional. Um ser que encarna as ironias com as quais abri a fala de hoje.

Pior. A vergonha final e mais grave ficou mesmo por conta de boa parte dos formandos, que gritaram “mito mito mito!”. Fez lembrar formandos da Academia Nacional das Agulhas Negras (Aman) onde houve o mesmo surto psicótico diante do Bozo. Se aquilo (Aman) deu nisso, o que esperar da nova safra da PF?

Exceções à parte, o encerramento do curso de formação de policiais federais da Academia Nacional de Polícia mais pareceu um curso de formação de meganhas, nesse trágico final de ano. De tão melancólico, seria digno da boca torta de Boris Casoy dizendo, “isso é uma vergonha”.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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