Esquerda e direita numa mesma frente?, por Francisco Celso Calmon

Diante da tríplice crise, a sociedade e algumas instituições começam a externar a sua indignação, na virtualidade e na realidade das ruas.

Esquerda e direita numa mesma frente?

por Francisco Celso Calmon

Retorno neste texto a temática das frentes, a qual já foi por mim abordada em outras publicações*, tendo em vista a sua importância e o meu entendimento sobre a necessidade de aprofundar a reflexão sobre a sua função e o papel de todos nós, democratas, no momento histórico atual.

Não se formam frentes políticas somente pelo motivo de ampliar e somar esforços.

A razão de ser de uma frente política é o seu objetivo e o alvo a atingir.

Quando há objetivo comum, há possibilidade de unir as forças para conquistá-lo.

Na conjuntura da tríplice crise, sanitária, econômica e política, no país, a soma de esforços é necessária, sendo possível somá-los sem estar na mesma trincheira, mas do mesmo lado, tendo o inimigo comum no lado oposto.

Podemos ter o mesmo alvo, sem, entretanto, estar no mesmo bunker estratégico.

Os inimigos da esquerda são o lavajatismo e seu produto bastardo que é o bolsonarismo.

O lavajatismo entrou em contradição com o bolsonarismo.

Diante da tríplice crise, a sociedade e algumas instituições começam a externar a sua indignação, na virtualidade e na realidade das ruas.

Puxadas pelas torcidas de futebol, um fenômeno que expressa a situação de desmobilização dos partidos e movimentos sociais, contagiou e alguns movimentos populares começaram a aderir e as ruas estão de volta, parece que com vigor, apesar das restrições sanitárias.

Os partidos de esquerda permanecem em estado letárgico, ausentes, e os sindicatos esboçam uma reação tímida, mas a demanda da conjuntura é pelas necessárias e urgentes participações.

Cabe à esquerda assumir o protagonismo e organizar a Frente Popular Antifascista e Democrática – FPAD, em ritmo veloz, antes que o PIG e o lavajatismo, se apropriem ou deformem o movimento espontâneo (lição de 2013).

Contribuir para que o povo se organize e se levante contra o bolsonarismo, promotor desse fascismo nativo, é fundamental, especialmente se o objetivo for derrotá-lo, sem nublar a visão histórica de que o bolsonarismo é produto do lavajatismo.

A Frente Ampla da Globo – FAG, com Ciro, FHC e Marina, é corresponsável pelo resultado do segundo turno da eleição que elegeu Bolsonaro/Mourão, entretanto, aparentemente, tem como alvo o Bolsonaro. Nessa frente não cabe a Esquerda, nem politicamente e nem ideologicamente, mas, não deixa de ser uma trincheira pela destituição (ou apenas desgaste?) do Bolsonaro.

Por ser uma frente de oportunismo, vai caminhar como um pêndulo aos ventos da correlação das forças internas da direita e das forças populares e de esquerda.

A FAG, se for adiante, deve incorporar outras lideranças da chamada direita democrática, e, se mantiver o alvo no Bolsonaro, estará somando, sem necessidade de juntar com a frente da esquerda.

Se ambas as frentes tiverem a concordância de que não basta a saída do presidente, mas, sim, dele e do vice, isto é, a necessidade de um pacto por recompor a democracia ultrajada, então, o caminho será o de novas eleições.

Havendo consenso entre as frentes de que cabe a soberania popular, por meio do voto, corrigir o erro, induzido por fraudes e irregularidades da campanha da chapa vencedora, então, estará dada a razão para a constituição de uma Frente Ampla e Única por novas eleições.

Conquistando esse objetivo, seja via impeachment, seja via cassação da chapa ou por outro remédio institucional, provavelmente as duas frentes entrarão em contenda democrática no processo eleitoral.

O bolsonarismo, através de seus quadros, sejam os que estão no governo, sejam os das milícias, os dos militares e os da agitação e propaganda, continua a intrigar, incitar, desafiar os poderes republicanos, cometendo delitos continuados.

As instituições têm que cumprir os seus papéis definidos na Carta Magna e nas legislações próprias, e, por conseguinte, reagir.

Foram longe as pregações pelo AI5 sem reação legal. Afinal, o AI5 significou o Estado terrorista, com licença para sequestrar, torturar, matar, fechar Congresso, emparedar a justiça, censurar a imprensa, portanto, pugnar por um novo AI5 é atentar contra o Estado democrático de direito.

Flexibilizar crimes, por conta de estratégia e tática política, é flexibilizar o Estado de Direito.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; ex-coordenador nacional da RBMVJ; autor dos livros  Sequestro Moral e o PT como isso? e Combates pela Democracia (2012), autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

https://jornalggn.com.br/politica/frentes-por-que-e-pra-que-por-francisco-celso-calmon/

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