A Operação Pan Americana, relembrando a diplomacia altiva de JK

Há muitas referências à Operação Pan Americana na Internet. Essa história se baseou em uma entrevista com o diplomata Celso de Souza e Silva. Não entrou no livro “Walther Moreira Salles"

Há muitas referências à Operação Pan Americana na Internet. A história abaixo se baseou em uma entrevista com o diplomata Celso de Souza e Silva. Não entrou no livro “Walther Moreira Salles – o banqueiro e embaixador e a construção do Brasil” por problema de espaço.

O vice-presidente Richard Nixon havia sido recebido a ovo podre no Peru e a pedrada na Venezuela, provavelmente porque não havia ovo suficiente para tanto protesto. Bastava abrir a boca, e lá vinha ovo, demonstrando uma inédita capacidade de antecipação da opinião pública latino-americana sobre a americana.

Augusto Frederico Schimidt improvisou sobre o tema com a agilidade de um repentista, planejando uma carta de Juscelino ao presidente americano Dwight Eisenhower, alertando para os riscos de uma ampliação do distanciamento entre os Estados Unidos e a América Latina.

Como todo poeta, Augusto Frederico Schmidt dizia que poesia vem do grego improvisação. De improviso em improviso começou a ser constituída a Operação Pan Americana, que com o tempo formou um corpo doutrinário, representando a mais audaciosa iniciativa da diplomacia brasileira.

Trabalhou na carta o diplomata João Paulo do Rio Branco. Mais tarde, Schmidt chamou o também diplomata Celso de Souza e Silva para ajudar a traduzir a carta para o inglês. Celso era uma língua ferina, provavelmente herança do pai, fundador de “O Malho” e “A Careta” que infernizaram os políticos da República Velha.

Celso convidou o colega Araújo Costa, que tinha um inglês mais seguro do que o seu, e Alfredo Valadão. Por outra porta, entrou o embaixador Sette Câmara, chefe de gabinete de JK.

Estava constituído o grupo que Lacerda passou a denominar de “petit Itamaraty” e que passaria a ditar a política externa brasileira no governo JK.

Na carta assinada por JK, Schmidt alertava Eisenhower de que o incidente com Nixon refletia um profundo mal-estar no Continente. Seria útil que se fizesse uma reavaliação sobre as razões dessa incompreensão. O que parecia um improviso audacioso começou a ganhar impacto quando Eisenhower respondeu à carta e enviou ao Brasil seu subsecretário Ruboton para conhecer melhor o pensamento do governo brasileiro.

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Em decorrência do primeiro contato, vieram em seguida John Foster Dulles e Thomas E. Dewey—posteriormente o homem mais importante do Departamento de Estado. Houve uma reunião entre assessores para preparar um comunicado conjunto da visita de Dulles. JK teria um encontro com Dulles para acertar os termos finais do comunicado. O encontro foi no Palácio Laranjeiras , mas o que era para ser breve acabou sendo esticado noite a fora. JK trancou-se numa sala com Dulles e o tradutor. Na sala do gabinete civil, apenas o caçula do grupo, Celso Souza e Silva, com Autran Dourado, escritor e ghost writer dos discursos de JK.

Num certo momento JK saiu da sala com um papel na mão, procurando alguém. Não encontro, viu Celso e dirigiu-se irritado a ele. O papel estava cheio de propostas, mas Dulles insistia numa declaração anticomunista, na linha do Manifesto de Caracas, em consequência da queda do governo da Guatemala. Dulles havia apresentado 9 propostas de texto; JK recusado as 9. A última, que JK trazia à mão, falava em “países democráticos farão tudo para manter suas tradições”.

– O que você acha? indagou JK a Celso.

– Presidente, ele veio aqui no fundo para isso. Acho que alguma concessão deveria ser feita.

JK, meio emburrado, acabou aceitando. Combinou-se então uma reunião em Washington, a nível de chanceleres ou representantes pessoais de vinte países da América Latina. A delegação brasileira foi chefiada por Schmidt e instituiu-se o “Comitê dos 21” da Operação Pan Americana. Os improvisos começavam a ganhar forma.

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O Comitê era algo esdrúxulo em relação à Organização dos Estado Americanos (OEA). A OEA era visto como um organismo morto, “máquina de rezar”, como a definia o incorrigível Schmidt. Mas o aparecimento do Comitê dos 21 acabou gerando conflitos com o órgão.

Schmidt não falava inglês, apenas francês. Na reunião, Botto  levantou-se e Schmidt interpelou-o:

– Mr. Botton., sente-se!

E Botton sentou-se.

A ideia central era a de que a OPA se constituísse numa espécie de Plano Marshall para a América Latina. propunha privilégios aduaneiros, empréstimos em condições especiais e investimentos diretos no continente. Propunha um amplo diagnóstico para identificar os gargalos econômicos, para que a AL saísse de sua posição de “coro incaracterístico” (povo que fica cantando no fundo da igreja).

A reunião logrou inclusive acertar um programa que seria discutido na reunião seguinte do Comitê, em Buenos Aires. Dulles não compareceu mas enviou Thomas E. Dewey, num encontro em que a grande estrela foi o recém-empossado presidente cubano Fidel Castro. Houve mais uma reunião em Bogotá, onde o representante americano foi Christian Heart, que tinha dificuldades de locomoção.

Em Bogotá obteve-se o único resultado concreto que foi a criação do Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), uma vitória doutrinária dos latinos, já que os EUA não admitiam a possibilidade de se falar em planejamento.

Foi uma demonstração extraordinária da capacidade da diplomacia brasileira. JK reunia-se freqüentemente com todos os embaixadores das Américas, estava constantemente escrevendo cartas para seus colegas presidentes, instruindo embaixadores para levar documentos às chancelarias de todos os países. O movimento ganhou tal vulto que Carlos Lacerda passou a chamá-lo de “o petit Itamaraty”.

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Havia resistências inclusive no Itamaraty, que sempre se comportava como um corpo independente dos governos. A ponto de certa vez JK dirigir-se ao seu “petit Itamaraty”:

– Agora “ocês” me fizeram entender que eu assumi meu governo, porque eu não sabia que o Itamaraty fazia parte do meu governo.

A OPA serviu de base para a tese do não alinhamento automático com os Estados Unidos. O primeiro exemplo veio na invasão do Líbano em 1958. Os EUA pediram apoio, mas Schmidt convenceu JK que antes precisaria analisar as conveniências. Por sua influência, JK reuniu-se com três ministros militares—entre o quais o Ministro da Guerra Henrique Teixeira Lott. Julgava-se imprudente, dada a convivência pacífica no Brasil entre colônias árabes e judaicas. O apoio acabou saindo, mas o tabu do alinhamento automático acabou.

A iniciativa da OPA incomodava profundamente os Estados Unidos. A diplomacia americana não estava acostumada com iniciativas diplomáticas da América Latina. Quando terminaram os governos JK e Eisenhower, Kennedy e Jânio invertam o sinal. DO lado do Brasil, não interessava a Jânio prestigiar uma iniciativa de JK. Muito menos a Afonso Arinos. Como também não fazia parte do esquema mental dos Estados Unidos. A saída encontrada foi o lançamento da Aliança para o Progresso, que permitiu aos Estados Unidos recuperar a iniciativa, conferindo ao programa um aspecto muito mais assistencial.

 

http://www.fgv.br/Cpdoc/Acervo/dicionarios/verbete-tematico/operacao-pan-americana-opa

http://www.funag.gov.br/ipri/btd/index.php/12-mestres-irbr/903-a-operacao-pan-americana

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292008000200001

https://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/relacoesinternacionais/article/view/1749

http://www.projetomemoria.art.br/JK/biografia/3_operacao.html

 

http://www.brapci.inf.br/index.php/article/download/19600

 

http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300877063_ARQUIVO_SNH2011-TextoIntegral-HenriqueAlonsoPereira.pdf

https://periodicos.ufsm.br/interacao/article/view/12699

 

https://periodicos.furg.br/biblos/article/view/404

 

 

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