De Santiago, Chile
Jornal GGN – Há mais de um ano e meio, o Chile de então não poderia antecipar a avalanche de mudanças que o tornaria hoje exemplo mundial de representatividade política e participação social. O que os jovens lutaram nas ruas, no que foi uma verdadeira guerra civil, carregou como vitória um plebiscito para o povo criar sua própria Constituição e, neste final de semana, mais um capítulo dessa conquista democrática foi concluído.
Neste sábado e domingo, os chilenos escolheram os escritores da nova Constituição do país. O resultado foi uma vertiginosa derrota para a direita, centro e centro-esquerda do país, e um amplo espaço garantido a independentes, principalmente representantes de movimentos sociais, constitucionalistas e defensores de direitos humanos, e a esquerda.
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O mapa da mudança marcou essa jornada. No total, foram eleitos 88 independentes para integrar a Assembleia Constituinte, além de 17 quadros assegurados a representantes de povos originários. Já os partidos políticos obtiveram somente 50 representantes, de direita, centro e esquerda.
Uma das grandes surpresas foi a Lista do Povo, formada por líderes de esquerda das manifestações de outubro de 2019, que não quiseram se associar a nenhuma coletividade política, e que estavam fora das projeções de analistas e dos meios de comunicação. No total, foram mais de 884 mil votos para este grupo, conseguindo 24 cadeiras do total de 155 que formam a Convenção.
A derrota para os partidos de direita e centro-direita, que esperava obter um terço do total dos assentos, ou seja, 52 postos, foi também visível, conseguindo somente 37 espaços na lista governista Vamos por Chile.
Da mesma forma, os partidos denominados centro-esquerda tradicionais também não tiveram o resultado que esperavam: concentrados na chamada Lista do Aprovo, obtiveram 25 cadeiras.
Também como parte desse salto político, o que conseguiu o melhor desempenho foi a Frente Ampla, uma coalizão política de esquerda que inclui a ex-candidata presidencialista Beatriz Sánchez, o deputado Gabriel Boric e Giorgio Jackson, ambos dirigentes estudantis herdeiros das manifestações estudantis que marcaram o início dos anos 2000 no país. Em uma aliança com o Partido Comunista este ano, conquistaram 28 cadeiras na Convenção na lista Aprovo Dignidade.
Com este mapa, a obrigatoriedade de negociações para temas-chave da futura Constituição, que dependerá da aceitação de dois terços da Convenção Constitucional, estaria garantida com a soma de membros da Frente Ampla, da esquerda convencional e boa parte dos independentes, formando maioria para a esquerda nas cadeiras da Assembleia.
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A derrota do oficialismo começou ainda em 2018 e o GGN acompanhou de perto este processo. Desde as primeiras manifestações de outubro de 2019, estendendo-se por mais de seis meses de protestos diários em um violento episódio para o país, quando o Estado, comandado pelo presidente conservador Sebatián Piñera, gerou a maior repressão contra a população já vista em contextos de crise social no Chile [confira].
Antes de o mundo saber da chegada do coronavírus, ironicamente falava-se aqui de uma outra “epidemia” – a de lesões oculares. Isso porque o “triste recorde”, como se denominaram estes números, foi de 347 pessoas que perderam pelo menos um dos olhos, além de 5 mil detenções ilegais, quase 2 mil feridos, incluindo torturados com ação direta de autoridades, e 22 mortos.
A exorbitante violência policial, no dia 18 de outubro, contra grupos de estudantes que decidiram pular a catraca do metrô contra o aumento do preço da passagem, aderiu o apoio de massas, gerando a poucos dias um grito de socorro da população contra o sufocamento do modelo neoliberal, decretado na Constituição da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e vigente até hoje.
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O processo para a mudança foi longo. Além dos três meses de protestos massivos de milhões, diariamente, de segunda a segunda, nas ruas, enfrentando a truculência, o colapso social paralisou comércio e serviços, com perdas de milhares de empregos, uma instabilidade que pressionou o Congresso a aprovar um plebiscito para uma nova Constituição. Era o único “basta” que seria aceito, a população deixou claro [entenda].
Exatamente um ano depois, 25 de outubro de 2020, a pandemia não esvaziou o objetivo. No país cuja participação sufragista não é obrigatória, um recorde de 7,459 milhões de chilenos marcaram presença no plebiscito nacional, o primeiro desde a ditadura e o único em regime democrático, marcando outro momento histórico: 78% escolheram “aprovar” a nova Constituição escrita pelo povo [relembre aqui].
Se mais da metade dos eleitores (50,95%) – outro recorde de sufrágio – aprovou escrever a nova Constituição, há mais de um ano de pandemia e com o aumento do número de casos de Covid-19 no país, a participação de eleitores para escolher aqueles que irão escrever a nova Carta, neste final de semana, foi um pouco menor (37%, segundo dados preliminares), ainda que significativa em comparação a eleições anteriores e superior a todas presidenciais até hoje.
Já na noite deste domingo (16), chamada de “Noche negra de La Moneda”, a derrota se materializava no discurso do presidente Sebastián Piñera. “Não estamos sintonizando com a cidadania”, admitiu, em pronunciamento de quem já não aplicaria truculência para responder à força popular.
“[O resultado da Constituinte] nos passou uma mensagem clara e forte ao Governo e também às forças políticas tradicionais, sintonizando adequadamente com as demandas e desejos dos cidadãos. E estamos sendo desafiados por novas expressões e novas lideranças”, afirmou Piñera, em rede nacional.
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Aracelis Garagnani
17 de maio de 2021 4:21 pmSe pesar bem, a direita chilena consegue ser mais feroz que a brasileira. Se as esquerdas de lá conseguiram então nos resta esperança.