De Santiago, Chile

Jornal GGN – As ruas centrais de Santiago, capital do Chile, já viviam o caos pouco mais de 4 horas da tarde desta quarta-feira, o quinto dia consecutivo de manifestações.

As estações de metrô, que haviam sido parcialmente liberadas pelo presidente Sebastián Piñera, estavam com portões trancados e os ônibus não ousavam percorrer o trajeto normal de um dia de semana. “Nós também precisamos chegar bem às nossas casas, senhora”, explicou o motorista a uma passageira que insistia, indignada, sem saber como atravessaria o centro de Santiago.

Caminhei 2,8 quilômetros, desde o ponto onde o ônibus conseguiu parar até a rua Londres, no centro da capital, para ouvir o representante do movimento que deu início ao que o Chile protagonizava hoje: o adolescente do ensino médio Victor Chanfreau, porta-voz da Assembleia de Estudantes Secundários (ACES), que há mais de 10 dias começou os protestos pelo aumento da passagem do metrô.

“Nós entendemos que os dirigentes das organizações, as vozes públicas, não somos quem para dizer quais são as demandas que hoje clamam em todos os territórios. Acreditamos nisso, por mais que tentem obter crédito político de todo este processo de mobilização, nós vamos continuar escutando os territórios, as demandas reais e o que o povo quer exigir para o governo”, disse o representante.

Foram os alunos do ensino médio que começaram as reivindicações, mas a esta altura admitiram não representar todas as vozes que entoavam o maior colapso social do país, a duas quadras dali, em três concentrações já dispersadas violentamente pelas Forças de Segurança no início daquela tarde: uma próximo à Biblioteca Nacional na avenida Santa Rosa, o máximo que conseguiram se aproximar do Palácio de La Moneda; mais abaixo alguns grupos pelas ruas transversais Tarapacá e Curicó, e a maior delas na Plaza Itália.

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No caminho ainda distante dos manifestantes, forte cheiro de gás lacrimogêneo misturado à fumaça das barricadas, focos de incêndio, poças de água por todas as ruas centrais, carregando lixo, pedras e destroços pelas ruas. Me encontrei com Victor Saavedra, da Carta Maior, e depois de retirar o salvo-conduto para jornalistas, fomos em direção à Universidade Católica.

Foto: Patricia Faermann

Era o meio do trajeto da Greve Geral realizada horas antes, quando fomos surpreendidos por um dos principais confrontos diretos, pouco depois das 5 da tarde. De um lado, uma viela abrigava cerca de 30 manifestantes, que como em uma guerra civil, avançava em direção à uma tropa protegida com capacetes e anti-balas de cerca de 10 militares das forças de segurança especial. De um lado, pedras eram a sua arma. Do outro, dezenas de bombas de gás lacrimogêneo, disparos de balas de borracha e de chumbo e, dos tanques, fortes jatos de água eram arremetidos pela avenida O’Higgins frente a qualquer tentativa de aproximação.

Foto: Patricia Faermann

Encurralados, atravessamos o confronto, em um segundo de pausa, com as devidas identificações e com as mãos levantadas, o sinal de que estávamos a trabalho. Foi naquele momento que percebemos que não havia exceções para jornalistas e que os jatos do tanque militar também continham alguma substância que afetava a vista e provocava vertigem, mais do que as altas concentrações de lacrimogêneo. Corremos na avenida em direção a outra viela para nos recuperar dos efeitos. No caos, alguns moradores saíam de seus edifícios para oferecer água e  bicarbonato de sódio para os olhos. Estávamos ainda a uma quadra da Plaza Itália, o vulcão dos protestos, renomeada pouco depois para “Plaza de la Dignidad”.

Ao chegar naquela grande rotatória, a vista alcançava algumas centenas de pessoas que ainda resistiam do lado esquerdo e, à direita, militares das operações especiais, o GOPE, armados e disparando, acompanhados de 5 carros de respaldo, com as munições, as bombas de gás lacrimogêneo e os tanques de água. Precisávamos tomar uma decisão: para qual lado seguiríamos o trabalho.

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A quantidade de militares naquele local não continuava a lógica dos ataques anteriores, poucos homens contra, no mínimo, 300 manifestantes. Horas depois, percebemos que a 200 metros abaixo, pela avenida Vicuña Mackenna, uma concentração de 100 militares dava assistência a um repórter de famosa rede de televisão nacional, que filmava ao vivo uma pequena barricada, em crítica aos protestos.

Mas os 6 homens do GOPE e outros 9 policiais, na Plaza Itália, indicavam que as munições e os tanques valiam por cem, afinal, os manifestantes só tinham pedras para atirar. As táticas de guerra eram claras: um deles na liderança, dava ordens quando era momento de avançar, disparando em conjunto, segundos antes de o tanque de água dispersar a multidão. Conseguiam um recuo de 100 metros dos manifestantes a cada ataque. Todos armados, revezavam com as bombas de gás. Do outro lado, todos eram inimigos. E como nenhum crachá de jornalista bastava, fizemos a cobertura atrás dos militares.

Deixamos o local antes de começar a noite, longe de uma previsão de quando aquele confronto iria acabar. Da cena de guerra para o protesto familiar no bairro de Ñuñoa, antes que escurecesse, uma criança abraçava uma estátua pintada com a frase “Renúncia Pinochet”.

Foto: Patricia Faermann

 

 


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1 comentário

  1. Agradeço ao GGN e à Patricia Faermann por trazer noticias diretas do Chile e tantas imagens. Pinera não caiu e não parece que vai renunciar e, mesmo que não o faça, a população chilena mostrou que tem força. Avante.

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