De Santiago, Chile

Jornal GGN – As ruas centrais de Santiago, capital do Chile, já viviam o caos pouco mais de 4 horas da tarde desta quarta-feira (23), o quinto dia consecutivo de manifestações.

As estações de metrô, que haviam sido parcialmente liberadas pelo presidente Sebastián Piñera, estavam com portões trancados e os ônibus não ousavam percorrer o trajeto normal de um dia de semana. “Nós também precisamos chegar bem às nossas casas, senhora”, explicou o motorista a uma passageira que insistia indignada, sem saber como atravessaria o centro de Santiago.

Caminhei 2,8 quilômetros, desde o ponto onde o ônibus conseguiu chegar, até a rua Londres, no centro da capital, para ouvir o representante do movimento que deu início ao que o Chile presenciava hoje: o adolescente do ensino médio Victor Chanfreau, o porta-voz da Assembleia Coordenadoria de Estudantes Secundários (ACES), que há mais de 10 dias começou os protestos pelo aumento da passagem do metrô.

“Nós entendemos que está bem que se sumam os movimentos sociais, mas os dirigentes das organizações, as vozes públicas não somos quem para dizer quais são as demandas que hoje em dia se estão solicitando em todos os territórios. Como ACES, acreditamos nisso, por mais que não seja compartilhado por muitos setores que hoje tentam tirar crédito político de todo este processo de mobilização, nós vamos continuar escutando os territórios, as demandas reais e o que o povo quer exigir para o governo”, disse o representante.

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Mesmo tendo iniciado as reivindicações, a Assembleia admitiu não representar todas as vozes que estavam manifestando, a duas quadras dali, em três concentrações já dispersadas pelas forças de Segurança no início daquela tarde: uma próximo à Biblioteca Nacional na avenida Santa Rosa, o máximo que conseguiram se aproximar do Palácio de La Moneda; mais abaixo alguns grupos pelas ruas transversais Tarapacá e Curicó, e a maior delas na Plaza Itália.

No caminho ainda distante dos manifestantes, forte cheiro de gás lacrimogêneo misturado à fumaça das barricadas, focos de incêndio, poças de água por todas as ruas centrais, carregando lixo, pedras e destroços de vidros. Me encontrei com Victor Saavedra, da Carta Maior, e depois de retirar o salvo-conduto para jornalistas, fomos em direção à Universidade Católica.

Foto: Patricia Faermann

Era o meio do trajeto da Greve Geral realizada horas antes e um dos principais confrontos diretos que ocorria pouco depois das 5 da tarde. De um lado, uma viela abrigava cerca de 30 manifestantes, que como em uma guerra civil, avançava em direção à uma tropa protegida com capacetes e anti-balas de cerca de 10 militares das forças de segurança especial. De um lado, pedras eram a sua arma. Do outro, dezenas de bombas de gás lacrimogêneo e um ataque militar de água que atravessava a avenida O’Higgins, dispersando com os fortes jatos qualquer tentativa de aproximação.

Foto: Patricia Faermann

Atravessamos este confronto, em um instante de pausa, com as devidas identificações e com as mãos levantadas mostrando que estávamos a trabalho. Foi naquele momento que percebemos que os jatos do tanque militar também continham alguma substância que afetava a vista e provocava vertigem, além das altas concentrações de lacrimogêneo no local. Corremos na avenida em direção a outra viela para nos recuperar dos efeitos. Em meio ao caos, algumas pessoas saíam de seus edifícios para oferecer água para sede e mistura bicarbonato de sódio para os olhos. Estávamos a somente uma quadra da Plaza Itália.

Ao chegar naquela grande rotatória, a vista alcançava algumas centenas de pessoas que ainda resistiam do lado esquerdo e, à direita, alguns militares das operações especiais, o GOPE, armados e disparando, acompanhados de 5 carros de respaldo, com as munições, as bombas de gás lacrimogêneo e os tanques de água. Precisávamos tomar uma decisão: para qual lado seguiríamos o trabalho.

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A quantidade de militares naquele local parecia desproporcional: haviam mais homens das forças armadas no confronto anterior, neste eram no mínimo 300 manifestantes. Horas depois percebemos que a 200 metros abaixo, pela avenida Vicuña Mackenna, uma concentração de 100 militares dava assistência a um repórter de famosa rede de televisão nacional, que filmava ao vivo uma pequena barricada, criticando os protestos.

Mas os 6 homens do GOPE e outros 9 policiais, na Plaza Itália, indicavam que as munições e os tanques valiam por cem, afinal, os manifestantes só tinham pedras para atirar. As táticas de guerra eram claras: um deles na liderança, dava ordens quando era momento de avançar disparando em conjunto, segundos antes de o tanque de água dispersar a multidão. Conseguiam um recuo de 100 metros dos manifestantes a cada ataque. Todos armados, revezavam com as bombas de gás. Do outro lado, todos eram inimigos. E como nenhum crachá de jornalista era suficiente para evitar riscos, fizemos a cobertura atrás dos militares.

Deixamos o local antes de anoitecer, longe de uma previsão de quando aquele confronto iria acabar, e nos dirigimos ao bairro de Ñuñoa, aonde outra manifestação ocorria pacificamente.

Foto: Patricia Faermann

 

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1 comentário

  1. Agradeço ao GGN e à Patricia Faermann por trazer noticias diretas do Chile e tantas imagens. Pinera não caiu e não parece que vai renunciar e, mesmo que não o faça, a população chilena mostrou que tem força. Avante.

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