Jornalismo miserável se nega a investir em pesquisa, por Gustavo Conde

A gente costuma dizer que o bolsonarismo é diversionista, que cria cortinas de fumaça (e é, e cria), mas a grande proprietária intelectual desse protocolo é a nossa mídia convencional.

Jornalismo miserável se nega a investir em pesquisa

por Gustavo Conde

O diretor do MAM no Rio de Janeiro, diz que a “degradação” no entorno do Museu “espanta” o público.

O que esperar? A população de rua cresceu vertiginosamente depois do golpe. Na falta de coragem para noticiar esta que é a notícia principal, a imprensa fica “dando voltas” e destacando os efeitos pontuais, com viés classista, sem informar o verdadeiro problema.

Isso se chama desinformação.

A gente costuma dizer que o bolsonarismo é diversionista, que cria cortinas de fumaça (e é, e cria), mas a grande proprietária intelectual desse protocolo é a nossa mídia convencional.

Décadas de obstrução da realidade, de fantasia, de proliferação de um sub noticiário asséptico (e preconceituoso – o problema é a visitação do MAM e a “degradação” em seu entorno) fizeram escola e pariram Bolsonaro.

Por isso, São Bolsonaro é o patrono da imprensa brasileira. É seu produto, seu rebento e sua inspiração.

Esses jornalistas vendidos, serviçais de patrão, insistiram tanto que, finalmente, conseguiram instalar na presidência da República alguém que representa sua face, seu corpo e sua alma.

Óbvio que eles jamais irão reconhecer isso, porque eles mesmos não sabem o que pensam nem o que são, como poderia dizer Lacan. Tudo é tão espontâneo que dispensa compreensões (e autocrítica).

Faz-se uma matéria, escreve-se com afinco, revisa-se o texto, passa-se pelo crivo do editor, segue-se o manual de jornalismo empoeirado escondido no fundo da gaveta e ignora-se a quem e a quê aquela reportagem serve, a que pressões de ordem histórica ela está submetida e qual narrativa ela instala artificialmente na crônica burguesa do cotidiano.

O jornalismo deveria ser mais do que publicar matérias de “denúncia” ou de “utilidade pública”. Em tempos de explosão de textos no universo digital, o jornalismo teria de se reinventar em sua dimensão supostamente factual e “linkar” os temas específicos com temas maiores, políticos, econômicos, produzir a interface crítica das matérias, ter sempre um contraponto humanístico, uma voz não especializada, um mosaico de visões que possa minimamente contemplar a demanda vertiginosa por sentido das novas gerações.

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É paradoxal: há um excesso de material jornalístico sendo produzido em escala digital, mas há um déficit de sentido e de conexões na estrutura desses textos. É essa descompensação que tem produzido a sensação de desterro e deriva nas sociedades humanas. O sentido se torna rarefeito, a leitura se torna automática e o senso se torna “quebradiço”.

Uma sociedade precisa ser “viva”, precisa de movimento, de insatisfação, de ousadia. A experiência da leitura participa desse conjunto irradiador de interpretações e possibilidades de inovação.

A inovação não opera apenas no campo da tecnologia, ela também é possível na dimensão das linguagens. A linguagem é uma “tecnologia”, a mais sofisticada tecnologia inventada pelo ser humano.

Perguntem-se: quem logra êxito e toma a dianteira das ações no mundo da produção de sentido, de riqueza intelectual e de tecnologias?

Resposta: quem ousa. Google, Facebook, Apple e todos os seus executivos que não têm medo de proporcionar experiências cognitivas novas ao consumidor de informação, de arte e de conhecimento, embora ali, a repetição também faça parte do negócio.

Mas há espaço para liberdade, porque a liberdade (de ousadia) passa a ser um ativo dessas empresas que se alimentam de inovação.

Essas gigantes ‘gerenciam’ toda a produção de texto que circula no mundo hoje, seja ele jornalístico, acadêmico ou literário. Elas codificam, aglutinam, redistribuem e potencializam seus efeitos.

Quem permanece enclausurado dentro das próprias “caixinhas” apodrece e migra docemente para o papel coadjuvante de apoiador passivo dessa grande engrenagem tecnológica e conceitual que viceja no gerenciamento do bilhões de usuários de redes.

Inclua-se nesse rol da preguiça, o jornalismo convencional, todo ele, e o jornalismo alternativo, todo ele.

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As exceções são justamente o sujeito dono de si mesmo, os youtubers, os provedores solitários, os “influencers”. E por quê? Porque estão livres da cultura corporativa obsoleta (no Brasil, subdesenvolvida), ainda fundamentada na relação patrão-empregado e em toda a velharia conceitual embutida.

É por isso que o mundo da informação passa por essa crise gigantesca de credibilidade. Ele sequer tenta se desvencilhar das armadilhas presentes no mercado do texto. Serve gentilmente às gigantes, sem um pingo de ambição em participar da receita monumental desse bolo e passa horas do dia reclamando da onipresença de Google e Facebook (que é dono do Instagram e do WhatsApp).

Todo o centro nervoso das operações de jornalismo vai ficando para o Google que já vale US$ 1 trilhão e que não tem mais aonde acumular valor agregado.

Essas gigantes mudaram as regras do jogo, são mais poderosas que Estados-nação e buscam, na verdade, desocupar o volume de poder acumulado, uma vez que o conceito de poder também mudou (e os executivos precarizados do mercado bem como os analistas de maneira geral ainda nem começaram a entender isso).

Poder agora é massa de usuários, engajamento e tráfego digital. Ao entender apenas isso, o bolsonarismo deu um goleada em todos nós, vítimas fáceis e analógicas dos manuais de jornalismo e da política vintage.

A hora, agora, é de re-significar ‘democracia’ e ‘soberania’. E é bom a gente se apressar, senão Google, Facebook e Youtube vão fazer até isso – afinal eles têm gente qualificada e grupos imensos de pesquisadores buscando respostas para os desafios do presente.

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Isso explica muita coisa, inclusive a covardia estrutural que caracteriza uma geração inteira que se acostumou a “respeitar as regras”.

Eu perguntaria: “que regras?”, mas essa resposta eu vou deixar para um próximo texto (assim, quem sabe, eu fidelizo vocês).

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