A voz do vendedor da esquina não sairia nos jornais, por Maíra Vasconcelos

Não sei o seu nome. Ouvi dizer que a voz do vendedor da esquina foi ecoada no tempo: a família perpetuou sua memória.

A voz do vendedor da esquina não sairia nos jornais, por Maíra Vasconcelos

*leitura da a-crónica aqui: 110219_001

Voz todo mundo tem. Achar que a voz literária é mais trabalhosa do que a voz do vendedor da esquina é um problema de delírio ou ilusão. A voz metafórica não cai dos céus. Ademais, tanto da voz do outro está e faz a literatura: essa presença viva. Enquanto o eu-sujeito está e não está. Entende? Falavam disso ontem nos jornais.

A voz morre ou também não morre. A nossa e a do vendedor da esquina. Falo do vendedor da esquina para demonstrar a busca por encontrar uma voz para escrever no jornal. Mas me desencontro com o vendedor da esquina, entendo seus resquícios, até seus sofrimentos, suas necessidades vitais. No entanto, não o encontro, realmente, e assim prossigo essa busca.

Para escrever no jornal parece ser muito importante desencontrar e manter a tão famosa movimentada procura. Como circular em cidades, escreveria Cortázar. Se já tivesse encontrado uma voz para escrever no jornal, não falaria do vendedor da esquina. Aqui não se sabe onde ele mora, o que vende e quanto tempo demora no ônibus para chegar ao trabalho. O vendedor da esquina pode ser apenas uma dessas formas da fantasia insistir em se pensar na realidade das coisas.

Até onde sabemos, falo do vendedor da esquina sem que ele realmente exista. Não sei o seu nome. Ouvi dizer que a voz do vendedor da esquina foi ecoada no tempo: a família perpetuou sua memória. Toda voz pode ser ecoada no tempo. Como também a voz do vendedor da esquina que morreu de paralisia do coração. O que muda é o raio de ação. Entende? Até onde irá cada voz?

A voz do vendedor da esquina, por alguma daquelas razões pouco conhecidas, não sairia nos jornais. Aqui fala apenas a fantasia que abraça a realidade e depois solta. A realidade não permanece sempre aqui. Entende? Realidade não é amor, é apenas um lugar para onde se deve olhar, inevitavelmente. Depois sair de lá e escrever alguma coisa que se pareça a contar que o vendedor da esquina morreu de paralisia do coração. Porque isso não sai nos jornais.

Mortes de paralisias do coração são a vida apenas tão comum, é como uma questão familiar. Quase todos podem contar esse caso acontecido com algum amigo ou parente. Tudo isso é próximo demais, mesmo que ninguém agora possa ver o vendedor da esquina, nem mesmo a sua própria família o vê mais, mesmo sabendo que ele não é completamente uma realidade. Entende?