Democracia.com.br (atualizado), por Izaías Almada

A difusão de fatos e acontecimentos que se espalham em minutos, segundos, por todo o mundo, muitos deles inventados, criados mesmo para confundir e que fazem parte da contemporânea guerra de ideias, está criando uma paranóia coletiva

Protestos por democracia no Brasil em maio de 2021 [Antoniani Cassara/Mídia Ninja]

Democracia.com.br (atualizado)

por Izaías Almada

“Domingo é dia, de pescaria, lá vou eu de caniço e samburá. O mar ‘tá cheio, fico na areia, porque na areia dá mais peixe que no mar…”

Sucesso de carnaval da minha infância, a letra acima era uma brincadeira para os foliões – como, aliás, muitas das marchinhas de carnaval do passado – e fazia referência aos “peixões” (gíria da época) que enfeitavam as areias de Copacabana e não só.

Inevitável lembrança para quem, como eu, já vivi sessenta anos bem vividos da vida política nacional. Desde a campanha do “Petróleo é Nosso!”, do golpe civil/militar de 1964 ao circo parlamentar de Eduardo Cunha, ao golpe contra a presidente Dilma Rousseff e as peripécias inconstitucionais de juízes embriagados pela mídia e uma justiça acovardada, sem saber muito bem como atuar (e olha que é um poder independente), isso quando não compactua ou se deixa impressionar pelas chantagens mediáticas ou milicianas.

Natural que me lembrasse da marchinha com toda a onda do bolsonarismo nas manifestações de 07 de setembro último, onde os pescadores de águas turvas estavam ansiosos para ver o circo pegar fogo.

Estamos reféns do entendimento mais primário e boçal do que seja a democracia. Uma espécie de vale tudo. Um mundo de aventuras entre cavaleiros, aventureiros, homens honrados, proxenetas, brasileiros dignos, achacadores, políticos democratas, meliantes com siglas partidárias, ateus, fundamentalistas religiosos, alienados, alienantes, neofascistas, esquerdistas arrependidos, bem intencionados, escroques, empresários sérios, outros nem tanto, malandros rentistas, etc., etc., etc…

O juizinho do Paraná, aquele que mandou prender o ex-presidente Lula, a imprensa escrachada, os religiosos que cantam de mãos para o alto em pleno congresso nacional, até os que atiram foguetes (“bombas caseiras”), deixando os rentistas e o mercado financeiro com a pulga atrás da orelha.

Ou, se quiserem inverter a ordem dos fatores: a imprensa escracha, o povo acredita, o juizinho de primeira instância que mandou prender o ex-presidente Lula e tirou umas férias nos EUA, a justiça “superior” que se esconde. O Congresso Nacional dissimula e – é quase possível garantir – a corrupção continua exatamente como sempre foi no Brasil, ou até pior, sobretudo entre aqueles que se escondem por trás de suas redações e de seus “foros privilegiados”. E dos que sonegam impostos enviando lucros para paraísos fiscais.

Empresários se reúnem com o governo, esquerdistas traíras detonam a democracia em nome da democracia, chantagens, acusações, prisões sem provas, provas sem prisões, prende-se quem já está preso, julga-se e condena-se pelas redes sociais e vamos vivendo o dia a dia das incertezas, das covardias, das hipocrisias.

Lobos em belíssimas peles de cordeiro. Bandidos mandando dentro e fora das prisões. Dentro e fora do governo. O panelaço e o cagaço de mãos dadas.

Confesso que em toda a minha memória da política brasileira, dentro ou fora dos parâmetros democráticos, nunca vivi um momento tão tenso e tão calhorda por parte, inclusive, de muitos que teriam o dever de ajudar na preservação da democracia, mesmo essa chamada representativa e com suas imperfeições.

O grau de hipocrisia e de cinismo chega a níveis insustentáveis, escancarando para o país e para o mundo a luta de classes que, não só se explicita com inegável violência, mas tira muitas máscaras dos carnavalescos mais recentes. Na direita, no centro e na esquerda. Para o bem e para o mal. “Tanto riso, ó, tanta alegria, mais de mil palhaços no salão…”.

Toda vez que a humanidade passa por grandes transformações, sejam elas econômicas, políticas e sociais, sobrevém a dúvida, a incerteza, surgem inseguranças, e com isso não estou dizendo nenhuma novidade. Nessas duas décadas iniciais de novo milênio já dá para inferir que estamos num desses momentos. A internet e toda tecnologia digital está transformando o mundo numa velocidade que quase se torna impossível calcular o que vem por aí. Sem falar na “ajuda” que a pandemia coronaviriana deu a esse estado de coisas.

A simples possibilidade de podermos agredir as pessoas e o mundo à nossa volta pelo teclado e pela tela de computadores, ipads, smartfones, em blogs, sites e redes sociais da moderna comunicação dá uma pálida ideia de um futuro próximo repleto de incertezas.

A difusão de fatos e acontecimentos que se espalham em minutos, segundos, por todo o mundo, muitos deles inventados, criados mesmo para confundir e que fazem parte da contemporânea guerra de ideias, está criando uma paranóia coletiva, no mais das vezes temperada pelo ódio e pelo medo como duas faces de uma mesma moeda: a intolerância como arma de persuasão e intimidação política.

Já vimos esse filme, mas em salas escuras e românticas de cinemas ou mesmo em televisões de tubo ou fitas VHS. Falta agora ver em edição digital, sentados numa grande e confortável mesa de refeitório com quinze comensais de cada lado e todos com seus tablets e smartfones nas mãos, sem sequer falar com o vizinho ao lado.

No Brasil, a solidariedade transforma-se perigosamente numa mercadoria cujo valor se divide, mais do que nunca, entre a impostura do poder econômico, o interesse seboso dos medíocres e a subserviência aculturada de boa parte da sua classe média.

Basta pegar o celular e digitar: www/democracia.com.br.

Quem ANVISA, amigo é!

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro. Nascido em BH, em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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