Anarriê, alavantú XVII – O Grande Equívoco, por Rui Daher

Amigos poucos e a multidão de leitores me garantem, sim, houve golpe no Brasil, mas ele ocorreu em 2018, formato novo

Anarriê, alavantú XVII – O Grande Equívoco

por Rui Daher

Anarriê! (pra trás). Fosse caso de celebrá-lo como pilhéria, o dia oito passado comemoraria as “criativas” músicas novas sertanejas. Para mim, seria injeção de potássio na veia. Enquanto o suicídio não estiver nos planos imediatos, prefiro não as ouvir. Assim como nenhum tesão me desperta ver a (?) Anitta no “Faustão” de Luciano Huck, em trajes íntimos, disfarçados por redinhas furadas, que a alemã Marlene Dietrich (1901-1992), com classe, usou no filme “O Anjo Azul” (1930), do diretor expressionista austríaco Josef von Stemberg (1894-1969).

Vamos lá. Creio que dentro de meus frequentes propósitos já destruí inimigos suficientes e divulguei dados passados de personagens de valor histórico. Característica do ínfimo colunista. Dado o período do rito momesco, no último AA (Vixe! A veia ‘galhofética’ sempre surge) mandei pera em certa colunista da Folha que se autoelogiava por ter deixado o alcoolismo, em apoio aos AA (Alcoólicos Anônimos). Coincidência nas iniciais? Quais mais? Os dos canaviais da região Mogiana, em São Paulo (agronegócio incidental no texto, como em músicas)?

Percebi no AA anterior ter esquecido de Paulo da Portela e Beto sem Braço (Vila Isabel e Império Serrano). Não deixarei de lembrá-los a qualquer nova menção ao grande Calos Cachaça.

Alavantú! (pra frente). Todas as pessoas com mais de um neurônio se equivocaram ao celebrar os resultados da operação da Polícia Federal, Tempus Veritatis. Algumas obviedades crônicas. A única atividade real foi a continuidade de promover o fascismo no Brasil, conhecida há anos, golpistas desde sempre, açulados ou afrouxados pelos poderes incumbentes, em qualquer época.

Amigos poucos e a multidão de leitores me garantem, sim, houve golpe no Brasil, mas ele ocorreu em 2018, formato novo, eleições supostamente democráticas, sem o personagem principal, a caserna precisar ir às ruas, interrompendo suas tantas atividades internas como caiar meios-fios.

Desta vez, tão estúpido era o títere nominado que nem pra boi de piranha das Forças Armadas serviria. Os que se expuseram a acompanhá-lo viraram água límpida em brejo lamacento, tão expostos (né Augusto Heleno?), que sofreram visitas, apreensões e prisões pela Polícia Federal, simulacro de que o Estado Democrático de Direito estaria salvo e seus inimigos punidos. Foi assim?

Em países de democracia pouco sólida, como o nosso, o mais recente golpe de Estado moderno (sem intervenção das Forças Armadas) vem de 2018 e o principal usurpador, escolhido pela classe dominante e a mídia, foi o juiz de primeira instância Sérgio Moro, que se autodenominou “Exterminador da Corrupção”, assim como Fernando Collor de Mello, se fez “Caçador de Marajás”. Os dois usaram a sensibilidade da palavra corrupção junto ao imaginário nacional, crentes serem diferentes os mecanismos de corrupção em países desenvolvidos e não.

Qualquer anêmona da política pensa assim. O golpe foi construído, ano após ano, pelas elites econômica, empresarial e midiática brasileiras. Esqueçam as milícias. Tirem-nas do seu imaginário. O buraco é mais embaixo, ou acima.

Desconhecemos aqueles que, realmente, desejam viver numa nação de direitos equalitários. Valem nada e estamos descartados. Os ataques safados a Lula, Janja, Haddad, Flávio Dino e outros, logo virão por aí e estaremos juntos seguindo o doloroso funeral da igualdade cidadã, aos passos lentos da perpetuação burguesa.

Ou acham fácil para nós “classe mérdia” (apud a filósofa Marilena Chauí – minha excepcional ‘fessora’ na USP) passar do uísque Red Label pro Black, sem aquela inveja?

Afinal, como saudoso amigo baiano, colecionador de cachaças, dizia “a burguesia tem seus encantos”.  Todos meus amigos da EAESP-GGV, mais esquerda (difícil) ou menos, lembrarão do Clóvis e seu irmão Benê, recrutas da minoria econômica, mas culturalmente supremacistas.    

Tanto como o “golpe” do oito de janeiro não passou de uma manifestação de vândalos que, apoiados por instituições de direita, não queriam Lula e o PT no governo, como os que acreditaram estar matando o ovo da serpente fascista, secularmente instalado no Brasil, apenas abriram ainda mais o espaço do novo poder incumbente. A operação da Polícia Federal pré-Carnaval, promoveu apreensões, invasões e prisões de elementos de uma quadrilha tão conhecida que nem mesmo amedrontaria Tio Patinhas, Pateta, Cebolinha e Cascão, tão frequentes em vídeos e noticiários ao lado do capo di tutti, um Jair Messias, ano após ano, exposto, por vontade própria, em crimes contra a democracia.     

Seu programa de matar a democracia era “moderno”: desmonte do Estado, deslegitimação da autoridade dos demais poderes republicanos, das urnas e resultado das eleições, apoio direto e frequente aos motins (“manifestações antidemocráticas”), espionagem, aparelhamento de órgãos policiais e de “inteligência”, guerra psicológica.

Previsto, em pesquisa, o resultado da eleição presidencial, autorizou seus apaniguados bloquearem centenas de acessos no Nordeste, onde a vitória de Lula era inconteste. A pedido da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o desbloqueio geral, em 31 de outubro. Tarde, Bolsonaro, conivente e quieto, desde confirmada a derrota eleitoral, apenas no dia 2 de novembro publicaria mensagem de vídeo “pedindo” aos insurrectos que liberassem as rodovias, dizendo que estava “com eles”. Então, fugiu,

Em novembro, houve manifestações expressivas nas portas do Quartel-General do Exército, em Brasília, toleradas ou protegidas por generais e insufladas por oficiais do Exército, como se vê em mensagens descobertas nos celulares de Mauro Cid. Em dezembro, houve tentativa de invasão da Polícia Federal e de ataque terrorista ao aeroporto de Brasília. Organizava-se a intentona do 8 de janeiro. Caíam torres de transmissão de energia elétrica? Tontos, bucéfalos, só eu perceberia o ovo do marreco implodir. Riam. É Carnaval, voltam Oscarito (1906-1970) e Grande Otelo (1915 -1993), nos filmes da Atlântida.

Corrobora comigo (estranho) Vinicius Torres Freire, em sua coluna da semana passada, na Folha de São Paulo:

“Nada disso era um raio em dia de céu azul. Bolsonaro fixara um objetivo, em público, ao menos desde 2021: o resultado da eleição presidencial seria aceito apenas em caso de vitória dele. Trabalhou para criar condições para que a campanha do golpe tivesse sucesso. Se fracassou, não foi por falta de vontade e ações”.  

É o que penso.

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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Rui Daher

2 Comentários

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    1. Toda a razão, caro Paulo. Até acredito que houve outros que não citei. Mas esse do “Antagonista “ foi essencial. Obrigado pelo comentário e abraços.

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