Dois heróis do capitalismo de vigilância, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Uma das características marcantes das últimas décadas é o predomínio cultural avassalador dos heróis de HQ.

Dois heróis do capitalismo de vigilância

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um dos personagens secundários mais interessantes da saga Matrix é o Maquinista (The Trainman). Ele vive na malha subterrânea de metrô e usa vários relógios. O Maquinista sabe exatamente onde cada trem está a cada momento. Portanto, ninguém consegue ter sucesso ao persegui-lo, É impossível  capturá-lo ou interromper sua ação. Ele está sempre algumas jogadas adiante, pois tem informações que não estão à disposição dos demais. 

O Maquinista também construiu um desvio ferroviário. Na estação de metrô que existe nesse desvio ele guarda programas que são transportados em sigilo. Neo fica preso nessa estação e rapidamente descobre que, mesmo sendo extremamente poderoso, ele não consegue nem fugir nem sobrepujar seu adversário. 

Quando tenta entrar à força num trem, Neo é violentamente repelido pelo Maquinista. Ele diz que construiu aquele lugar e que ali ele é um deus. Esse personagem secundário é uma metáfora perfeita para os algoritmos que, sem serem percebidos, entram em ação sempre que nós usamos o Google, Facebook, Twitter, TikTok, etc. Eles coletam nossas informações, relacionam-as às informações sobre nós que estão guardadas e fazem predições sobre o que nós veremos em seguida para determinar que propagandas terão mais chances de atrair nossa atenção. 

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Ao navegar nós acreditamos controlar nossas ações, mas elas são de certa maneira controladas pelos algoritmos. Eles são capazes de antecipar nossos próximos movimentos de maneira a garantir os negócios dos anunciantes e os lucros das plataformas de internet. Antecipando e condicionando nossos hábitos de consumo eles estruturam o mundo transformando-o num imenso labirinto em que cada um de nós ficará preso numa estação em que os algoritmos são divindades tão poderosas quanto o Maquinista da saga Matrix.

Façamos agora um retorno ao tempo em que a vida ainda era analógica. Superman foi, sem dúvida alguma, uma das sagas cinematográficas de maior sucesso no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. No primeiro filme dela, a personagem Eve Teschmacher está a serviço do vilão. Ela eventualmente se apaixona pelo herói e ajuda-o a se libertar do colar de kryptonita. 

O nome Teschmacher soa como Thatcher Market. A referência à primeira ministra neoliberal inglesa que colocou o lucro acima de qualquer interesse público me parece evidente. Naquela época Margaret Thatcher era tratada como se fosse uma heroína pela imprensa ocidental. Todavia, o estrago que ela provocou no tecido social ao desmantelar o Estado de bem estar social é evidente. O neoliberalismo era um vilão e Thatcher Market era sua mais fiel assistente.

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Voltemos ao presente. Uma das características marcantes das últimas décadas é o predomínio cultural avassalador dos heróis de HQ. Eles saíram dos guetos das revistas em quadrinho para conquistar as telas de cinema, as TVs a cabo e, mais recentemente, as programações dos portais de streaming TV. 

Os super-heróis são comercialmente onipresentes. Eles  vendem quase todos os tipos de produtos. Eles também são mercadorias, fornecem modelos de comportamento e influenciam até o que as pessoas irão comer e vestir. Todavia, o universo em que eles se expandem ao infinito dominando o espectro visível (e tudo aquilo que pode ou deve ser desejado) é paradoxalmente controlado por dois personagens secundários criminosos. 

Nos subterrâneos da rede mundial de computadores e invisíveis aos usuários do Google, Facebook, Twitter, TikTok, etc, o  Maquinista e a senhorita Teschmacher (ou Thatcher Market) atuam em conjunto para coletar dados, controlar os fluxos de informações, elaborar e refinar perfis individuais de consumo e definir as propagandas que serão vistas por cada usuário. Eles trabalham de maneira incansável para condicionar as compras e vendas virtuais. 

Enquanto centenas de milhões de usuários são hipnotizados pelos super-heróis de HQ sempre que ligam seus computadores, smartphones, tablets, notebooks e smart TVs, dois violões garantem o luxo e o bem estar dos capitalistas de vigilância. Escondidos em nossos gadgets o Maquinista e a senhorita Teschmacher movimentam diariamente trilhões de dólares. São eles que garantem a concentração crescente da riqueza nas mãos dos oligarcas ocidentais e asiáticos. Na verdadeira Matrix, os personagens secundários são os únicos que realmente importam. 

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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