O baile da vendeta e da morte, por Paulla Newton

 

Do Justificando

Amarrado e despido, Cleidenilson abandonou a existência física em alto grau de degradação humana. Cleidenilson Pereira da Silva e um adolescente foram linchados, no Maranhão, por algumas pessoas enfurecidas. Souberam que ambos estavam supostamente envolvidos em uma tentativa de assalto. Apenas o adolescente sobreviveu. 

 Entre os linchadores, encontrava-se o “Senhor Y”, devoto pai de família com reputação irrefutável que, ao escutar os rumores sobre o envolvimento de ambos em uma suposta tentativa de assalto, imediatamente decidiu contribuir, desferindo alguns golpes com cacos de garrafas, previamente quebrados e utilizados como armas letais. Conclusos os atos, “Senhor Y” prosseguiu com a sua rotina. Sorriso satisfeito, esboçando deleite por haver exterminado parte da delinquência que assola o País, expurgando para sempre estas migalhas da sociedade. Enfim, havia cumprido o seu dever como cidadão honrado e pagador de impostos.

Enquanto isso, em algum recôndito anônimo nas terras de Santa Cruz, uma conhecida atriz televisiva proclama, em mídia nacional, o seu incômodo, rejeição e repulsa por mulheres gordas.

O que ambas as situações possuem em comum ? os fossos da intolerância. 

Os linchamentos, físicos ou morais, recordam-me à “praga da dança”, uma espécie de febre delirante que espalhou-se em Estrasburgo, na França, em julho de 1581, matando centenas de pessoas. A epidemia do baile fez com que várias pessoas bailassem continuadamente e exaustivamente até a morte. E quanto mais as pessoas dançavam, outras prontamente associavam-se em histeria coletiva. Os seres dançantes não conseguiam parar até o último suspiro.

Ora, pois, há anos estamos sendo bombardeados por doutas opiniões, ideias e construções que apregoam a redução da maioridade penal, a pena de morte ou outras variedades inflamáveis de punições que incitam variantes da violência. Propala-se um contínuo apelo à sociedade para adentrar aos palcos para o bailar da intolerância. 

Afirmo em letras garrafais: nenhum discurso de ódio, menosprezo, intransigência ou fúria será capaz de trazer paz e harmonia à sociedade.

Nesta seara, preocupa-me saber que a redução da maioridade penal é alçada à condição de pedra filosofal no combate à criminalidade. Tudo ao contrário, vaticino um efetivo holocausto para as nossas crianças e adolescentes em risco de exclusão, posto que o assédio pelo crime, iniciar-se-á cada vez mais precocemente.  E tome violência que gera mais criminalidade. 

Concentrar-nos em revenge hate não nos livrará das violações e abusos reinantes como o toque mágico da varinha do mago Merlin. Ao contrário, seremos conduzidos a um abismo animalesco. 

Temo imaginar se algum tipo de delírio lancinante acometesse àquelas pessoas que, de alguma forma, sofreram perdas e prejuízos decorrentes da atuação comissiva ou omissiva de alguns representantes políticos e as conduzisse às vias de fato para recobrarem suas vinganças pessoais. Isso mesmo, imaginemos, grupos de homens e mulheres, armados com pedras, paus e foices, invadindo às Câmaras do Congresso para recobrarem vingança pelas centenas de pacientes mortos nos corredores dos hospitais mantidos pelo sistema público de saúde porque os recursos foram desviados, as milhares de vidas  ceifadas nas estradas do país porque o dinheiro para investimento  foi parar em contas obscuras em um distante paraíso fiscal ou as centenas de crianças em condição de exclusão porquanto os valores destinados aos programas de educação integral foram  ilegitimamente dissimulados para contas estrategicamente armadas para o locupletamento de uns poucos. Ainda assim, sendo uma representativa parcela de autoridades políticas responsável por uma série de crimes atrozes contra a população e de forma massiva, absolutamente nada justifica nenhum tipo de barbárie. Nem em nossas fantasias mais nefastas. 

Algum leitor mais hostil poderá questionar que as minhas palavras tão complacentes resultam do fato de nunca ter sofrido agressões ou violência. Pelo contrário, já fui vítima de assaltos e tentativas, variados delitos, tentados e consumados, algumas vezes, por menores e adultos nas ruas do meu Brasil. E já fui vítima de vários tipos de violações aos meus fundamentais direitos, em um número incontável de vezes, por humanos engravatados camuflados de representantes democráticos do povo brasileiro nas altas câmaras do país. E  repito, com exatidão, minha ênfase inicial: nem por isso desejo participar, instigar ou induzir qualquer tipo de ideia que possa ferir, machucar ou macular à vida ou à integridade física e emocional de outrem. Minha sanha não é de revenge, mas sim de justiça, no mais pleno sentido que o vocábulo possa comportar. Prefiro voltar meus discursos mais inflamados para toda uma conjuntura adversa que, paulatinamente, necessita ser extirpada. Os investimentos em educação e a fiscalização austera dos recursos empregados devem pautar-se como chave de ouro para os tórridos debates e as nossas responsabilidades ativistas. 

Por sua vez, no sacrossanto repouso dominical, os nossos já conhecidos protagonistas introdutórios do presente texto o “Senhor Y” e a renomada atriz assistem, horrorizados e comovidos, mais uma reportagem sobre os impiedosos assassinatos praticados pelo grupo  alcunhado de Estado Islâmico, enquanto suspiram e lamentam, desiludidos, por tanta violência a alastrar-se pelo mundo. 

E o baile prossegue ao compasso alucinante de ritmos frenéticos e sucessivos de reverência ao ódio e a vendeta. Aceitas o convite?

Paulla Christianne da Costa Newton tem Mestrado e Doutorado Europeu em Direito do Trabalho e Previdência Social pela Universidade de Valência| Espanha, com instância de investigação na Universidade Clássica de Lisboa | Portugal; Autora, organizadora e coautora de diversas obras e coletâneas jurídicas, entre as quais Direito à Diversidade, da Editora Atlas e Empleo y sexismo: medidas de protección e inserción sociolaboral de las mujeres víctimas de violencia de género en el seno de la pareja, da Editora Tirant Lo Blanch. Professora de Direito do Trabalho da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPE).

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora