O racismo nosso de cada dia: “o banco agiu pela segurança da própria cliente”, por Frederico Firmo

Segundo a nota, o banco é contra qualquer forma discriminatória e a funcionária e/ou funcionários agiram segundo as normas.

O racismo nosso de cada dia: “o banco agiu pela segurança da própria cliente”

por Frederico Firmo

Um leitor do GGN disse que o racismo hoje é muito leve diante do passado. Imagino que tenha escrito isto com a vivência dos tempos onde o racismo era extremamente explícito e  aceito socialmente,  sob a máscara do discurso de um escravismo afável e uma democracia racial. Mas devo discordar, pois o que temos é apenas a continuidade histórica.

Em passado recente o racismo explícito sequer era considerado como tal. No caderno de empregos dos jornais as firmas colocavam o terrível termo: “Exige-se boa aparência”.
Esta era a senha para negar trabalho para algumas gerações  de negros e pardos.  Se bem me recordo este tipo de anúncio persistiu até a década de 80.  Os filhos destas gerações de pais quase inempregáveis, hoje entram na Universidade e vêem contestadas as políticas de cotas. Filhos dos que colocavam estes anúncios , ou usufruíram  destes, questionam as cotas, dizendo que não são responsáveis pela  escravidão.  O  rei da propaganda Kamel, que é considerado por alguns, um intelectual, escreveu um livro sobre a inexistência do racismo no país. Não sei por quais deserto caminha Kamel, mas sei o que fez no verão passado.

O fato de existirem coisas horríveis no passado não previne a existência de coisas mais horríveis no futuro e de coisas terríveis no presente.  A população negra e parda fica sempre em sobressalto esperando desde agressões gratuitas , revistas da polícia, visitas forçadas a delegacias, ou  balas “perdidas”.

Neste caso do Itaú, porquê a polícia não verificou o documento ali mesmo no banco? Porquê o gerente da conta não foi consultado, ou se foi consultado porquê não reconheceu a cliente?  Diante da foto e do documento a atendente diz que não reconheceu a pessoa por causa do cabelo.  Imagino que não reconheça Neymar de um jogo para outro.

Quando é conveniente dizem que  os negros são todos iguais, indiscerníveis. Quantos negros inocentes foram identificados e até presos por causa de um  falso reconhecimento? Um professor negro foi agredido no interior de um hotel por um outro hóspede, cuja desculpa foi que havia pensado ser uma outra pessoa. Se processado, será provavelmente absolvido. Mas a funcionária do banco não achou Lorena sequer parecida consigo mesma.

Negros e pardos, independente da condição social, entram em lojas, shoppings, mercados temerosos pois podem a qualquer momento serem vítimas de algum constrangimento. Jovens negros podem ser seguidos pelos seguranças de forma ostensiva com o simples objetivo de constranger. Seguranças recebem ordens para deixar explícito que ali não são bem vindos. Mas se questionados dirão descaradamente que seguiam o indivíduo por atitude suspeita. Em outras situações seguranças vão as vias de fato. O mais terrível é que este mesmo segurança pode ser negro ou pardo. O racismo se impregna em todas as cabeças.  Da mesma forma que brasileiros desconfiam de brasileiros, negros desconfiam de negros.

Afora o ato discriminatório e todo o nosso debate intelectual  sobre o racismo, resta a dor e o sofrimento tão doído, que muitas vezes tem que ser  negado por quem sofre isto cotidianamente.  Hay cosas que ayudam a vivir…. É preciso ir em frente, não deixar isto tomar conta da vida. Tem-se que ir em frente com a certeza de que inevitavelmente vai se deparar com mais um destes atos,  que podem ser mais  gravosos ou , como dizem, uma simples bobagem sem importância.

Qual é a dor de uma pessoa que quer ardentemente pertencer a uma sociedade que cotidianamente nega este pertencimento.  Imaginem a dor de Lorena, orgulhosa de tudo que conquistou, bonita com seu cabelo afro e provavelmente, naquele momento, totalmente despreparada para o que viria. Um ato corriqueiro para qualquer cidadão. Mas o ataque como sempre é inesperado e deixa a vítima paralisada, sem resposta. Imaginem o temor ao ser levada pela polícia a uma delegacia.  Delegacias não são locais afáveis para nenhum cidadão, muito menos um negro.  Quando liberada, um policial justificando a desculpa esfarrapada do banco ainda lhe diz para mudar sua carteira de identidade por causa do cabelo.   Lorena queimou sua carteira não por esta razão, mas  porque inconscientemente gostaria de queimar de sua vida este momento tão cruel e tão dolorido. O delegado aproveitou para então  mudar sua versão e provavelmente vai atribuir a queima a uma atitude suspeita. Isto será suficiente para inocentar o banco .

A amoralidade de grande parte da mídia apenas noticia os fatos. Sem análises e ou manifestações vão  transformar o ato do banco num ato corriqueiro, isto é, o banco é agora uma vítima de toda esta situação   e em dúvida pró réu. Um caso que se tornou rumoroso devido a internet  mereceu do banco uma resposta protocolar e final.  Segundo a nota, o banco é contra qualquer forma discriminatória e a funcionária e ou funcionários agiram segundo as normas. Num toque de perversidade,   afirma que agiu em nome da segurança da conta da própria cliente.

Cada uma destas palavras do delegado e do banco  devem estar ferindo a  alma de Lorena e de toda uma comunidade. Devem funcionar como pregos perfurando a pele sob os olhares complacentes de grande parte de nossa sociedade.

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2 comentários

  1. Em primeiro lugar foi depois de sair da delegacia, onde um delegado já havia examinado e liberado. Foi um erro queimar o documento, mas como disse no texto. Seria o documento que a ajudaria numa provável ação. Porém imagino seus sentimentos por um documento que foi a pretensa causa do racismo .do constrangimento e da dor . Para mim é implausível que uma pessoa vá até o seu banco para gerenciar algo de sua própria conta e leve consigo um documento falso. Mais ainda estranho que depois de queimado o delegado apareça com um laudo percial, quando pelos relatos iniciais ele apenas examinou o documento e a liberou. Em que momento foi feita a perícia?

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