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Crônica

O velho conhecido e o bilhete premiado, por Carlos Motta

O velho conhecido e o bilhete premiado

por Carlos Motta

A pequena, religiosa e conservadora Serra Negra, interior de São Paulo, onde moro, tem apenas duas casas lotéricas no Centro. 

Uma delas está sempre cheia, muitas vezes com fila na calçada, prova de que as pessoas acreditam que a vida delas pode mudar num instante, não importa o quanto humildes, pobres e desesperadas elas sejam.

Gente de todo o tipo vai fazer a sua fezinha: até os que são vistos como bem-sucedidos aguardam com paciência a sua hora de entregar à moça do outro lado do vidro o seu volante da Mega-Sena, o jogo mais comum e generoso, ou mesmo da Lotofácil, de prêmio inferior, mas de maior probabilidade de acerto.

Outro dia vi um velho conhecido bem no meio da fila.

Ele parecia mais cansado, mais acabado, dava até para perceber algumas olheiras em seu rosto de traços fortes e duros. 

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Trabalho após a morte, por Janderson Lacerda

Trabalho após a morte

por Janderson Lacerda

Edgar morreu aos 81 anos, enquanto operava um torno de CNC, vítima de um infarto fulminante. Apesar de ser “Católico Apostólico Romano” (como gostava de dizer) seu funeral não foi realizado por um padre. Isso porque, a Igreja Católica terceirizou o serviço das missas de corpo presente. Por conta disto, um pastor neopentecostal foi enviado; e apesar das diversas recomendações e preces do sacerdote, Edgar acordou no purgatório com o barulho ensurdecedor de uma sirene. Confuso e transpirando muito, viu um homem baixo, barrigudo, de capacete, segurando com a mão direita uma prancheta, aproximar-se rapidamente.

— Levante-se, levante-se! Está pensando que aqui é um SPA?

— Em que lugar eu estou? (Questionou Edgar).

— Você morreu e está no purgatório.

— Eu?

Não, minha mãe! É claro que é você! E olha se quiser ir para o descanso eterno, já vou lhe avisar: terá que trabalhar muito!

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Iluminismo da escuridão, por Sérgio Saraiva

iluminismo

Por Sérgio Saraiva

Vivemos uma época em que o sal da terra causa hipertensão e a luz do mundo provoca câncer de pele.

Bloqueadores solares, antiansiolíticos e uma tomada de energia para recarregar as baterias de lítio. Oásis e paraísos artificiais.

Dos campos do senhor, as pragas nos alimentam de maldições e nos fartamos com seus gafanhotos. O leite sem lactose, o café sem cafeína e a cerveja sem álcool. A gordura deve ser magra e a alface que não é orgânica tampouco é mineral, sintética ou de origem animal.

A essência das coisas nos é prejudicial.

Certezas da idade da pedra e a era da incerteza da razão. Fé no iluminismo da escuridão. Um Jesus para cada um e ninguém para Cristo. Protestantes a favor e a reforma do retrocesso. Ata o ateu à estaca. Fogo. E os ricos em seus camelos atravessando o buraco da agulha como um trem sob o Canal da Mancha.
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O crime da mala

Não, não farei aqui considerações sobre aquele caso famoso que escandalizou a sociedade paulista em 1928 http://www.saopauloantiga.com.br/crime-da-mala/. O crime a que me refiro é outro, de uma natureza bem mais duradoura e nociva.

Vinha eu para o trabalho reduzido às dores, febres e catarros de uma gripe que me atropelou em lugar incerto e não sabido. Ao passar a catraca do cobrador, apoiei a mala nela para poder pagar a passagem. O rapaz conferiu o dinheiro e fez um comentário que despertou minha consciência entorpecida.

- Bonita mala. Deve ser uma mala preta igual aquelas de Brasília.

- Você está me confundindo com outra pessoa – respondi de maneira áspera. Leia mais »

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"Mestre, está uma boataria danada...", por Carlos Motta

​"Mestre, está uma boataria danada..."

por Carlos Motta

No Estadão das antigas foram várias as ocasiões em que, na minha mesa, vi se aproximar, como quem não queria nada, um dos jornalistas mais emblemáticos daquela casa, Antonio Carvalho Mendes, o Toninho Boa Morte, durante décadas responsável pela seção "Falecimentos" do jornal. 

Pois bem, o Toninho chegava, me encarava com um sorrisinho maroto e dizia:

- Mestre, está uma boataria danada!

É claro que ele esperava que eu lhe perguntasse algo como:

- Mas Toninho, o que está acontecendo?

E lá vinha ele com uma velha história, na verdade um velho desejo:

- Parece que o Turco está voltando...

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Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora, por Maíra Vasconcelos

Mulheres de Bergman ou a imaginação criadora

por Maíra Vasconcelos

Como se quase se aproximara a uma personagem de Bergman. Bastou olhar ao espelho com olhos de sonífera e então era ela mesma. tchan. Achou assim o reflexo do extremo absurdo, aquele tormento criador. O tormento de toda criação artística, mas que somente acontece na puríssima calma e sublimação do tempo. Depois caminharia pelas lareiras, logo, pelas escadas, separadamente. Primeiro a agitada quentura, depois o lento desgarro do sacrifício. A língua queima queima queima, mas ninguém para de falar falar falar – claro, meus estimados, é preciso buscar o desejo. E estar em movimento é o mínimo do ser. tchan. E se o corpo padece do tédio: banal. Afinal, quem se propõe a uma prece íntima?, três horas de interioridade absoluta para iniciar e terminar o dia, e o beijo na testa de um amor.

Os pés cansados pela tensão e as pernas amolecidas pelas subidas. E a vida é um pouco isso também: entre lareiras e escadas, diz a célebre criação metafórica. Mas quando se tem prazer o mundo é contemplado. Sentar-se frente às montanhas, um pouco de céu, a visão sem limites: o prazer todo adentro como se fosse o corpo do outro, e não é, é apenas o inalcançável fazendo brisa na gente. Essa natureza de alívios, e depois tudo isso vai embora. Basta levantar-se e despedir-se da paisagem que somente é estática na imaginação, porque o corpo, de novo, é aquele em movimento. A paisagem fica, o corpo vai. ADEUS.

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Super Ponor! Uma grande ginasta!, por Felipe Peixoto

Super Ponor! Uma grande ginasta!, por Felipe Peixoto

Há umas semanas atrás, escrevi um comentário em um dos textos do João Sucata sobre a repetição permanente de temas e notícias (quase sempre relacionados ao futebol) na página esportiva do blog e consequentemente a carência de discussão sobre outros temas esportivos. Sei que o esporte não é a principal temática do GGN, mas acho que há espaço para explorarmos um pouco mais outras modalidades.

Assim, resolvi escrever sobre outra temática e trazê-la como sugestão para oxigenar um pouco as postagens esportivas do Blog, saindo da monocultura futebolística.

Esse texto, que vem com alguns meses de atraso, tratará sobre a Ginasta Romena Catalina Ponor, uma personalidade da Ginástica Artística, e sobre o título europeu conquistado na trave pela atleta no dia 23/04/2017.

Para quem, de modo geral, não acompanha a ginástica artística, este foi apenas mais um resultado qualquer em uma competição regional, no caso o Campeonato Europeu. Entretanto essa vitória não foi nada de corriqueira, mas sim muito especial.

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Para o amor maduro, por Urariano Mota

Por Urariano Mota*

Neste Dia dos Namorados, salvo do esquecimento esta crônica para os casais de todas as idades. 

Assim como nas sucessões do tempo de toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos grãos derramados, assim como a onda do mar que se espraia e se desfaz e se refaz dos seus restos em nova onda, assim também o amor se faz um sentimento de marcas e rugas que entranham à vista o sol que se foi e se organiza em nova pele. Tem um sabor íntimo do vinho de que se aprendeu a gostar, uma cumplicidade de lições apreendidas ao toque sem palavras, que o primeiro fogo não poderia construir.

Pois não é próprio do fogo o consumo e o autoconsumo voraz no incêndio, mas lento depois até as brasas que por fim esfriam? Pois sendo próprio do fogo a destruição inexorável, linear e de sentido único, do começo para o fim e sempre, é no entanto mais próprio da pessoa humana o guardar semelhança com os fenômenos naturais, mas sem se deixar reduzir ao que não tem o salto e a qualidade da gente.

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Um país de palhaços, por Latuff

Frente Brasil Popular: Gilmar Mendes livrando a cara de Temer no TSE
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A comoção de um homem, por Maíra Vasconcelos

A comoção de um homem, por Maíra Vasconcelos

Ele tinha olhos conclusivos demais e desfeitos do simples ato de apenas olhar. Como se apenas olhar já não bastasse, como se pouco fosse isso pelo qual o olho se faz útil diante de outro homem como ele mesmo. Não admitira a semelhança e tivera que ir além, até perfurar alguma coisa que permitisse quase definir a alma daquele outro. Aquele outro homem que, arrogantemente, ele nunca o havia visto antes daquele nascer do sol.

Seus olhos recusavam-se a essa ignorância que nutre a busca por tantas dúvidas. Aquela ignorância que admitida permite conhecer melhor uma existência no mundo. Ele perdera qualquer interrogativa e estava possuído de afirmações. Porque sendo aquele outro homem tão pobre e despossuído de tudo, era assim mais fácil sabê-lo e atravessá-lo em sua vida. Seu cheiro rançoso o confundira, levemente, e apenas por alguns segundos vacilara numa mudança de entendimento. Mas estava possuído demais por certezas inabaláveis. Ele sabia que aquele homem não prestava.

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A arte da intolerância, por Janderson Lacerda Teixeira

A arte da intolerância

por Janderson Lacerda Teixeira

A aula estava prestes a começar. A sala não era tão ampla, mas continha o necessário para que fosse ministrado o magnífico curso de trompete para iniciantes.

O professor, Vladimir Puskas, 46 anos, fronte calva, pele clara, estatura mediana e um pouco acima do peso, herança de uma crise conjugal que o levara ao divórcio e, consequentemente, a uma alimentação desregrada e ao consumo excessivo de álcool nos últimos meses, inicia a aula ao som de Chet Baker.

O Professor cumprimenta os alunos, ainda ao som, baixinho, de Baker, e faz algumas recomendações em relação ao curso. Evita apresentações pessoais, afinal o que interessa que os une naquela sala é a paixão pelo trompete.

Vladimir pede aos alunos que fiquem em pé e orienta-os a segurarem seus trompetes com a mão esquerda. Antes de prosseguir, recomenda aos discentes quanto ao zelo que devem ter com o instrumento.

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O bom menino quis e conquistou, por Wilson Ramos Filho

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Imagem: Reprodução

Do blog de Marcelo Auler

O bom menino quis. Conquistou.

por Wilson Ramos Filho (*)

Não precisava daquilo. Nasceu em berço esplêndido, frequentou as melhores escolas, os mais requintados espaços, clubes de “gente de bem”. Ganhou presentes caros, do bom e do melhor, não precisava de mais nada.

Mas queria ser aceito na turma, sempre quis, a qualquer custo. E queria, um dia, ser ele mesmo, não o filho de não-sei-quem. Azarado, virou “inho” por ter o mesmo nome do pai. Sina, pensou, embora nunca o tenha confessado. Não era de confessar. Bom menino.

Teria, enfim, o reconhecimento da turma, da galera a quem sempre admirou. Não precisava. Tinha de tudo, era da turma que tem o poder real, da turma que leva na coleira quem tem mandato e não tem vergonha. Curiosamente preferia estar na outra ponta da guia, envergar a coleira, mesmo sem precisar. Talvez a perversão decorresse do presente que os seus lhe deram. Mesmo sem precisar, tendo vários sob cabresto, queria mais, quis estar de ambos os lados, dublê de si mesmo, orgulho do papai, virou um daqueles que a família ostentava, trazidos na coleira.

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Cafezais caseiros, por Rui Daher

Este “Pelinho” que está aqui na varanda de um cafezal em Muzambinho, montanhas mineiras, luz de lua e tela, noite excessivamente estrelada, pios e gritos animais aqui e ali, marca minha virada de maio para junho de 2017. Ele acompanha a minha escrita e o meu espírito. Parece interessado. O dono da fazenda e dele, dentro da casa escuta Renato Andrade na viola-vitrola.

Vocês não o conhecem. Idoso como eu. Antes, depois do jantar, autografo e dou-lhe como presente um “Dominó de Botequim”, explicando não ser um livro sobre política. Puta pretensão. Levanta e tira um livro de uma pequena estante: “Veja o que estou lendo”. A biografia do Carlos Marighella, do Mário Magalhães. Rimos.

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Qual tempo, por Maíra Vasconcelos

Qual tempo, por Maíra Vasconcelos

A mulher tem no corpo o sangue pisado. Depois, quando um pouco da mulher se esvai, é o sangue pisado que para de fruir, o sangue deixa de sair devagar e seca um pouco daquilo que era nosso choque com o mundo. No sangue, a proteção e a unicidade. Essa diferença fria e palpitante do ser: quem é você se não tem na vida do corpo o sangue pisado? O outro chegando para atiçar a diferença, seja bem-vindo, muito prazer. Amanhã nos deitamos mulheres com sangue ou sem sangue? Dois sangues juntos? É, juntas também pode. Minha vizinha disse que começou a ter mais sangue agora, depois dos quarenta. Vixi, mas que pena, eu disse, fiquei assim com dó para disfarçar o temor. Leia mais »

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O singelo conto de Banana Verde, por Carlos Motta

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Imagem: Pixabay

Por Carlos Motta

O Dr. Mesóclise era o mais ilustre cidadão de Banana Verde, farol ético e moral para as gerações presentes e futuras, receptáculo de extensivos conhecimentos exclusivos e gerais, conjugador emérito de verbos e excepcional colocador de pronomes.

Com tantas virtudes, coube a ele a tarefa de salvar seu rincão das desgraças causadas por alienígenas sequiosos de impor, como se estivessem em suas exóticas terras, ideologias estranhas à boa índole do trabalhador e ordeiro povo bananaverdense.

Reunidos os cidadãos de bem, foi traçado o plano para que se restaurassem os antigos costumes e a moral de sempre, aquela que determina que cada um não só reconheça, mas permaneça, em seu devido lugar, predeterminado em eras esquecidas, algo que os de fora trataram de mudar, impetuosa e temerariamente, tão logo assumiram o controle dos negócios executivos do povoado.

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