“Não é muito tempo sem operação?”, perguntou o então juiz Sergio Moro ao procurador Deltan Dallagnol em 31 de agosto de 2016, segundo o site The Intercept. “É sim. O problema é que as operações estão com as mesmas pessoas que estão com a denúncia do Lula. Decidimos postergar tudo até sair essa denúncia, menos a op do taccla [Tacla Duran] pelo risco de evasão, mas ela depende de articulação com os americanos (Que está sendo feita)”, responde o procurador da Lava Jato.

Vamos reconstituir as datas a partir do rascunho do livro de Tacla Duran, disponibilizado na Internet alguns anos atrás.

Em junho de 2016 Tacla Duran contratou um advogado e se dispôs a negociar um acordo com o Homeland Security, o DHS, criado pelo governo americano em 2002 para atuar nessas grandes operações internacionais.

Contamos esse episódio no artigo “As delações premiadas”, da série GGN-DCM. Mas ainda não havia ganhado projeção um personagem que se tornaria central na história, o segundo advogado de Tacla. O primeiro era Edgard Leite.

Houve um primeiro contato com o DoJ, o Departamento de Justiça. Depois, mais 7 reuniões que se estenderam até 20 de junho.

A reunião foi coordenada David Last, do FCPA, o escritório para práticas de atos corruptos. Lá, explicaram que os procuradores brasileiros sabiam desses contatos.

Antes da reunião, a Lava Jato já tinha alimentado os colegas norte-americanos com uma versão traduzida da delação de Vitor Veiga Borin, um dos operadores do Meinl Bank Antigua, cérebro do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht.

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A intenção do vazamento era impedir o acordo de Tacla com os procuradores americanos. A reunião foi interrompida e uma agente do DHS, Svetlana Angent, foi incumbida de conversar com Tacla para saber tudo o que ele teria a contar, que não comprometesse as investigações.

Na terceira reunião decidiu-se avançar, desde que Tacla não mencionasse nada relacionado com seu trabalho como advogado da Odebrecht.

Tacla passou então a discorrer sobre a atividade do Departamento de Operações Estruturadas. Eles queriam alguma indicação de que a Odebrecht cometera crime em território americano, para poder chamar para si a jurisdição do processo.

Tacla diz ter aberto seu sigilo bancário e comprovado que não havia nenhum pagamento feito a autoridades ou políticos.

Um dos advogados de Tacla propôs a negociação de um acordo de imunidade entre procuradores brasileiros e americanos, que impedissem Tacla de ser processado no Brasil pelo que confessasse nos Estados Unidos.

Nos dias 18 e 19 de agosto, David Last manteve reuniões com Deltan Dallagnoll e Roberson Pozzobon tentando o acordo. A resposta foi a de que eles não tinham nenhum interesse em acordo com Tacla.

Aí se chega a 31 de agosto, com a conversa entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol, onde manifestavam o risco de “evasão” – isto é, do caso Tacla Duran ficar fora do seu controle. As investigações seguiriam adiante, mas sem a participação dos procuradores brasileiros.

No dia 2 de setembro,  dois dias depois, Pozzobon pediu a prisão preventiva de Tacla. Em função disso, David Last informou a negativa dos Estados Unidos em fechar a colaboração.

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Algum tempo depois, fizeram busca e apreensão no escritório de Tacla em Alphavile e solicitaram alerta vermelho à Interpol, dando-o como foragido. O que não era verdade, já que estivera nos Estados Unidos negociando com autoridades americanas.

Depois disso, recusaram-se a ouvir Tacla em vários momentos.

Onde está a chave dessa situação?

Está no segundo advogado que Tacla levou, Marlus Arns, o parceiro de Rosângela Moro nas APAEs do Paraná. Em entrevista a Jamil Chade, da UOL, dias atrás, Tacla admitiu ter pago US$ 612 mil a Marlus, como proteção contra a Lava Jato.

Certamente, fechado o acordo com as autoridades americanas, as movimentações de sua conta poderiam ser rastreadas.

Não se condene ninguém antecipadamente. Tacla é um advogado ladino, que esta longe de ser um homem virtuoso. Mas, também, é um especialista, que não costuma dar passos em falso.

Provavelmente não divulgou antes os honorários pagos a Marlus por receio de ser incriminado por suborno. Na entrevista à UOL se apresenta como vítima de achaque.

Se está falando ou não a verdade, apenas uma investigação criteriosa poderá comprovar. Em qualquer país sério do mundo, acusação dessa gravidade seria imediatamente investigada pela Procuradoria Geral da República, até para que não pairasse nenhuma dúvida sobre o comportamento do seus.

 

9 comentários

  1. obviamente q Nassf viu o moro ser dissecado no Senado. mas, em dado momento, um senador qualquer invoca Kant, o dever moral e o imperativo categórico para tentar convencer seus pares de q é justificável a corrupção para combater a corrupção, e nos alveja (o melhoramento do argumento é de minha larva, digo lavra): “imagine a ss nazista a perseguir um judeu e este adentra uma residência. o proprietário deveria entregá-lo às autoridades nazistas, de acordo com Kant?”. e Kant, Iluminista, fã da Revolução Francesa e de Rousseau e seu Contrato Social, viu-se transportado no tempo para ombrear-se a nazis…
    esse país é um circo!

  2. O problema e´que pgrzinha do brasil. a srª dodge “dart vader” não é uma pgrzinha séria.
    Aliás, o que faz o marido dela?

  3. Compreendendo esta estratégia usada, me faz lembrar o ótimo filme brasileiro ” Ouro Negro ” . Ele mostra como infiltraram, os americanos, no departamento de mineralogia, para impedir o descobrimento do petróleo brasileiro. A tática é a mesma Na época foi um alemão, hoje são entreguistas brasileiros. Getúlio teve de nacionalizar todo subsolo, para poder criar a Petrobras.
    Pouco tempo depois ele sucumbiu.
    Realmente, será que esta grande mídia, estes apoiadores que são milhões, sabem que estão contribuindo para destruir o futuro de seu próprio povo, de seus descendentes?
    O pessoal masoquista !

  4. Olá, ja escrevi certa vez que Billions era a cara da LJ, ainda é..mas a nova série Unité 42 é o caminho da mídia atual..o último episódio é uma aula de como pensam aqui..os procuradores devem assistir muita netflix..sem dar spoiler…assitam a série sobre Unidade de Crimes Cibernéticos de Bruxelas, da para entender os delirios delirantes das teorias da LJ sobre vazamentos de suas msgs…vida que segue..

  5. Respondendo a questão final: não somos um país sério. Somos uma república de saladas. Metade bananas e metade laranjas.

  6. frente à completa e irreversível falência do sistema político e o inevitável desmoronamento do Governo Bolsonaro, o setor dominante não sabe o que fazer:

    – ainda é possível gerenciar a crise?

    – há alguma saída?

    – com Bolsonaro cada vez mais isolado, o que lhe resta?

    – seguir com um fechamento lento, gradual e seguro do regime?

    – qual a viabilidade de uma ditadura aberta?

    – reeditar o AI-5?

    – tortura ampla, geral e irrestrita?

    – disparar mísseis para explodir com todas “aquelas pessoas”?

    para nosotros a mais decisiva e perigosa questão da conjuntura imediata é: até que ponto vai o racha atual nas FFAA?
    .

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